23/5/2009 13:02:00 Canção do venerável [Bhagavadgita]
da Redação
Uma das mais importantes obras da literatura mundial ganha edição à altura, pela primeira vez traduzida diretamente do sânscrito ao português
O LIVRO
O grande clássico hindu Bhagavadgita, ou Canção do venerável,é provavelmente um dos exemplos mais notórios daqueles livros que são, ao mesmo tempo, tão famosos quanto desconhecidos. Se poucos ignoram sua existência, menos ainda sabem do que realmente se trata. A presente edição vem sanar essa situação de uma vez por todas, ao menos para os leitores brasileiros, a partir da tradução direta do sânscrito, do prefácio e das inúmeras notas a cargo de Carlos Alberto Fonseca, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade de São Paulo.
Canção do venerável é parte do grande épicoMahabharata – poema monumental, com cerca de 74.000 versos, cujas origens remontam ao século X a. C. e que narra uma antiga guerra de sucessão. Um rei tem dois filhos, porém o primogênito é cego, ficando o reino, então, para o caçula. Quando os irmãos morrem, os filhos do primogênito preterido se reapoderam do reino, alijando os filhos do último rei. Estes são obrigados a lutar para reavê-lo. Eles têm, assim, duas escolhas: a guerra pelos seus direitos ou a renúncia, isto é, a derrota e a paz. O direito pode justificar a guerra, que tudo destrói? A paz pode justificar a derrota, e a perda de tudo? Arjuna, um dos filhos do ex-rei, encarna o dilema em pleno campo de batalha. Ele hesita. Seu diálogo moral com Krishna, que o assessora e o serve, é o próprio texto da Canção do venerável – cujas implicações vão muito além de uma situação literal de guerra, pois se manifestam em inúmeras circunstâncias da vida, e não apenas da história.
A presente tradução, se tem todo rigor acadêmico, tem também pleno vigor poético. Pois sendo o original um poema, costuma, no entanto, ser traduzido de modo a incorporar ao texto certos facilitadores, para ajudar a compreensão de seu distante contexto cultural (a Índia de milênios atrás). Aqui se optou por outro caminho: traduzir a linguagem poética em linguagem poética, o que pressupõe, entre outras coisas, contenção, deixando os necessários esclarecimentos para as notas.
Além disso, também a tradução, ou melhor, a retradução de vários termos sânscritos bastante conhecidos ganha em rigor – e assim, igualmente em estranhamento, ou renovação de sua recepção. Através de uma nova transliteração do original sânscrito para o português, inúmeras palavras (entre elas carma e yoga, e nomes como Krishna e Brahma) tornam-se novas de novo, o que inclui seus possíveis e amplos significados.
TRECHO
Não queremos matar os filhos de Dhrtarastra nossos próprios parentes.
Como seríamos felizes tendo morto nossa própria gente, Madhava?
Mesmo que aqueles de mente dominada pela cobiça não vejam erro
na destruição do corpo da família e no crime da traição aos amigos,
como não podemos aprender a manter longe de nós essa culpa,
nós que consideramos erro a destruição da família, ó Janardana?
Na destruição da família, perecem os imemoriais dharma das famílias;
com a perda do dharma toda a família se volta para o adharma.
[...]
Ah que grande culpa nos arranjaremos por fazer
matar nossa própria gente por ambição pelas delícias do reino!
Seria melhor para mim se os filhos de Dhrtarastra, armas na mão,
me matassem a mim na batalha, desarmado e sem resistência.
Assim falando na batalha, Arjuna está desabando no assento do carro
deixando caírem o arco e a flecha, a mente dominada pela dor.