No contra fluxo do ritmo de Carnaval que se instaura na cidade, o Rio receberá em fevereiro uma mostra de cinema inédita, composta por um panorama de longas-metragens estrangeiros independentes com pouca entrada no Brasil, mas que por outro lado possuem intensa circulação na web. Essa é uma das sugestões para o circuito off samba deste verão: a Zona Livre - Mostra Internacional de Cinema, que acontece de nove a 28 de fevereiro, no CCBB Rio.
A programação conta com diversos filmes inéditos no Brasil. Ao todo, a mostra traz para o Rio 20 títulos que circularam em festivais mundo afora, mas que terminaram por criar sua reputação e ganhar destaque num circuito paralelo: o da Internet, em fóruns e comunidades de cinema. À relevância de algumas obras, soma-se a saudável transposição desses ‘arquivos’, vindos das redes de cinéfilos na Internet, em ‘filmes’ exibidos em 35mm e DVD, autorizados por seus diretores, na consagrada experiência coletiva da sala de cinema.
Intenso fluxo de informações, downloads, copyrights, copylefts e quebras de códigos de zonas de exibição habitam o emaranhado conceitual desta mostra, cujo objetivo é propor uma reflexão sobre a democratização e as vias paralelas da informação. Ao mesmo tempo, a Zona Livre também aborda o inevitável e permanente processo de troca de telas a que a imagem é submetida hoje em dia, neste caso do computador para a sala de cinema do CCBB-RJ.
Dentro desta idéia, alguns diretores com filmes presentes na Zona Livre participarão de debates online com o público do CCBB, via Skype: de diferentes partes do mundo, eles estarão em tempo real na sala de cinema conversando com os espectadores sobre suas obras. Por outro lado, o diretor norte-americano Cory McAbee estará no Rio de Janeiro pessoalmente, “offline”, para um debate com público na semana final da mostra.
A mostra Zona Livre surgiu em Porto Alegre, em outubro passado, dentro da programação internacional da edição 2009 do CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre. Na curadoria convidada pelos organizadores do festival para o projeto, dois jovens que representam a novíssima geração de produtores gaúchos plugados aos novos meios: Davi Pretto e Bruno Carboni, da Tokyo Filmes. A experiência bem-sucedida no sul, durante a sexta edição do CineEsquemaNovo, chega agora a outros centros com uma programação consistente para os cinéfilos de plantão em pleno fevereiro.
OS FILMES DA MOSTRA, EM ORDEM ALFABÉTICA:
All About Lily Chou Chou
de Shunji Iwai (Japão)
140min, 2001, cor, 35mm
>> inédito no Brasil
SINOPSE: A vida não é fácil para um grupo de adolescentes que crescem inseridos na cultura cyber/pop japonesa. Tendo que lidar com problemas como intimidações na escola, pais de outros planetas e cenas chocantes envolvendo sexo e morte, esses rebeldes sem causa procuram salvação em uma pop star, Lily Chou Chou, ouvindo suas músicas melancólicas e dividindo seus medos em salas de bate-papo na internet. Imersos nos problemas do dia a dia, suas vidas chegam ao clímax, numa colisão fatal entre suas identidades reais e virtuais.
DIZEM OS CURADORES: Aparentemente, o longa japonês dirigido por Shunji Iwai poderia ser só mais um trabalho em meio a tantos outros que a Ásia vem produzindo com destreza nos últimos tempos. Mas não: tanto pela história suficientemente inédita aos nossos olhos quanto pela fotografia precisa, que sabe como não ser exibicionista ou ‘virtuosa’ (sem ser menos surpreendente e tocante nos momentos convenientes), e sem contar a bela trilha sonora, o filme de Iwai soma todos estes fatores de forma fascinante para cativar e potencializar a mesma atmosfera complexa, sensível e envolvente que seus protagonistas habitam ao longo das mais de duas horas de duração.

American Astronaut
de Cory McAbee (EUA)
90min, 2001, P&B, 35mm
(exibição em DVD)
>> inédito no Rio de Janeiro; exibido no Brasil apenas no CEN 2009
SINOPSE: Western musical passado no espaço, American Astronaut segue as aventuras de um comerciante interplanetário através de uma homérica viagem por um sistema solar remoto, com a finalidade de fornecer à população feminina de Vênus um representante masculino adequado. Enquanto isso, sem saber, ele é perseguido pelo sangue-frio Professor Hess, uma enigmática figura de seu passado.
DIZEM OS CURADORES: Ao lado de Stingray Sam, os dois filmes dirigidos por Cory McAbee são provavelmente os títulos desta mostra que mais facilmente cativam e instigam as pessoas a assisti-lo. Esta empatia é uma qualidade que, indiretamente, exige do diretor cada vez maior destreza em seu desenvolvimento narrativo e cinematográfico, de modo a satisfazer a curiosidade e expectativas do seu público. Este longa do diretor norte-americano consegue trazer à tona a essência, a criatividade e a simplicidade das ficções científicas dos anos 1950 - e até mesmo as precursoras dessa época, como a Metropolis de Fritz Lang em 1927. A perfeita sintonia entre direção, fotografia e som faz com que a obra se desprenda de qualquer limitação que seu orçamento pouco abundante poderia acarretar. Lançado em 2001, American Astronaut passa facilmente a impressão de ter sido feito décadas atrás. Mas acima de tudo, o que interessa é que esta obra nos permite sentir o quanto o cinema ainda é feito de idéias, habilidade e destreza, indiferente de época, tecnologia ou orçamento. Uma ótima notícia para os amantes de ficção científica que ainda não o conhecem.
Black Night
de Olivier Smolders (Bélgica)
90min, 2005, cor, 35mm
(exibição em DVD)
>> inédito no Brasil
SINOPSE: Oscar, um entomologista que trabalha na coleção de insetos raros de um museu, vive em um mundo consumido pela escuridão, que só vê a luz do sol por 15 segundos a cada dia. Perseguido pelas lembranças da irmã, morta quando os dois eram pequenos, e por outros fantasmas do passado, ele passa a viver constantemente transtornado, tornando-se a vítima e o vilão da sua própria consciência. Tudo se torna ainda mais estranho quando uma mulher africana falando um dialeto desconhecido aparece do nada em sua cama.
DIZEM OS CURADORES: É sempre impressionante quando um filme consegue criar um universo totalmente novo, ainda mais quando mistura elementos tão estranhos a ponto de questionar o sonho e a realidade constantemente. Embora o cinema de David Lynch possa parecer uma referência óbvia, Black Night, de Olivier Smolders, apresenta muito mais do que esta simples comparação. Tendo seus sonhos como guia, o diretor cria um mundo surrealista permeado por traumas de infância, eclipses que trazem luz ao invés de noite, zebras nas ruas e casulos gigantes. O resultado, em um filme belga falado em francês, é único.
Daytime Drinking
de Young-Seok Noh (Coréia do Sul)
115min, 2008, cor, video
>> inédito no Brasil
SINOPSE: Recém solteiro, Hyuk-Jin vai com os amigos a um bar onde todos, bêbados, decidem ir para uma cidadezinha do interior na próxima manhã. Ao sair do ônibus no dia seguinte, porém, ele percebe que foi o único a lembrar dos planos. Solitário, enquanto espera pela vinda dos companheiros na cidade congelante e vazia, começa a viver situações cada vez mais bizarras. Sem carteira ou a quem recorrer, Hyuk-Jin precisa achar um jeito de sair daquela que é certamente a pior ressaca do mundo, voltar a Seul e pôr um fim à sua odisséia de bebedeiras.
DIZEM OS CURADORES: Surge mais um jovem e talentoso diretor da Coréia do Sul: Young-Seok Noh. Este seu longa de estréia, que já obteve a chancela de importantíssimos festivais internacionais, sequer fez menção de aparecer em mostras e muito menos salas de cinema do Brasil. Daytime Drinking nos expõe um cinema coreano bastante distinto dos que estamos acostumados a ver nas obras de Chank Wook Park, Bong Joon Ho ou Hong Sang Soo. Assinando todas as principais funções do filme – direção, roteiro, produção, fotografia, montagem, trilha –, Young-Seok Noh cria uma obra que dialoga com o cinema de Jim Jarmusch e mesmo com After Hours, de Martin Scorsese, criando uma leve e envolvente história. Uma ótima novidade asiática.

Ex-Drummer
de Koen Mortier (Bélgica)
90min, 2007, cor, 35mm
(exibição em DVD)
>> inédito no Rio de Janeiro; exibido no Brasil apenas no CEN 2009
SINOPSE: Três perdedores aleijados convidam um famoso escritor para ser o baterista de sua banda. Para Dries, essa é uma possibilidade de inspiração para um próximo romance. Apesar de não saber tocar, ele aceita a proposta e se junta ao grupo na disputa de um festival de rock. Conforme se torna cada vez mais obcecado pela nova história, o autor passa a manipular os outros integrantes e explorar os seus pontos fracos.
DIZEM OS CURADORES: Violência, sexo explícito, bandas de rock barulhentas, estupros e um número quase incontável de tabus, preconceitos e palavras de baixo calão. Dependendo do ponto de vista, o primeiro longa do diretor belga Koen Mortier é um amontoado de cenas pretensiosas querendo chocar - ou uma mera cartilha de como ser um filme nem um pouco politicamente correto. O universo deste filme não é nem um pouco convidativo, e sua aura corrosiva consegue ser sarcástica o suficiente para, com muita habilidade, destruir diversos dogmas do cinema atual - inclusive mandando para bem longe qualquer diplomacia. Mortier consegue adentrar de corpo e alma na miserabilidade humana, sem preocupar-se em como isso soará: agressivo, rude, preconceituoso ou não. Ele escancara tudo o que temos de pior, situado em uma Bélgica pouco vista antes por nossos olhos. Desnecessário dizer, mas a soma desta forte intenção com uma direção (e fotografia, som, montagem...) surpreendentes e impactantes, o longa se torna uma experiência bastante única para aqueles que se propõem a enfrentá-lo. O que se escreve sobre este filme em fóruns e blogs é coerente: você provavelmente amará ou odiará Ex Drummer, mas em ambos os casos o fará com uma intensidade poucas vezes experimentadas antes.

Glue
de Alexis dos Santos (Argentina / Reino Unido)
110min, 2006, cor, 35mm
(exibição em DVD)
>> inédito no Rio de Janeiro
SINOPSE: Um verão em uma pequena cidade no deserto argentino, uma família disfuncional, uma banda de rock, uma lata de cola, dois garotos, uma garota, calor seco, vento da Patagônia, angústia existencial... Lucas tem uma rotina sem grandes acontecimentos, incapaz de acalmar o turbilhão emocional e hormonal que experimenta. Com o melhor amigo, Nacho, e uma tímida vizinha, Andrea, ele encontra a cumplicidade de que necessita, e juntos os três vivenciam as emoções dessa história adolescente no meio do nada.
DIZEM OS CURADORES: Mesmo com o relativamente fácil acesso à cinematografia argentina, alguns filmes e diretores passam pela nossa frente sem a devida atenção. É o caso de Glue, longa do cineasta Alexis dos Santos: mesmo dentro de uma proposta de ‘cinema jovem’, bastante explorada nos anos 90, a obra cria novas direções para o tema e nos deixa abstêmios de qualquer julgamento sobre as ações do protagonista. Um cinema de câmera livre, onde a impressão é que o personagem vai se descobrindo ao mesmo momento que os espectadores também o descobrem.
Good Dick
de Marianna Palka (EUA)
86min, 2008, cor, 35mm
(exibição DVD)
>> inédito no Brasil
SINOPSE: Good Dick é um conto de fadas moderno sobre uma reclusa jovem e um persistente atendente de uma vídeo locadora que iniciam uma relação bastante peculiar. Conforme se tornam próximos, a aversão sexual dela vai de encontro ao otimismo dele, até que as atitudes agressivas da garota abalam a ambos e o relacionamento chega ao fim. Profundamente afetada por aquele homem que mudou completamente sua rotina, ela percebe que tem a coragem para encarar seu passado.
DIZEM OS CURADORES: O nome do longa de estréia da diretora e atriz Marianna Polka pode causar um receio inicial, mas Good Dick chama a atenção justamente pela maneira sutil e inusitada com que a história é conduzida, ao mostrar a relação de uma garota depressiva, que aluga filmes pornôs regularmente, com o funcionário da locadora de vídeo. Este é mais um exemplo emblemático do cinema independente norte-americano que não chega freqüentemente às salas de cinema, mas que a internet vem ajudando a semear. Porém, ao contrário de muitos outros filmes dessa cena, temos aqui um trabalho com maturidade acima da média, e com um tratamento mais profundo em relação aos seus personagens.
Gozu
de Takashi Miike (Japão)
130min, 2003, cor, vídeo
>> inédito no Rio
SINOPSE: Minami, um ingênuo membro dos Yakuza, é encarregado de livrar-se de um colega sênior, Ozaki, por quem tem uma especial afeição e que já começa a dar sinais de loucura. O trabalho deve ser feito em uma viagem a Nagoya; porém, antes de chegarem ao destino, o amigo misteriosamente desaparece e Minami tem que encontrá-lo, vivo ou morto. Durante a busca ao desaparecido, ele cruza com indivíduos estranhos e presencia acontecimentos que desafiam qualquer explicação lógica, num dos filmes japoneses mais insanos feitos até hoje.
DIZEM OS CURADORES: Takashi Miike é um dos cineastas mais produtivos de todos os tempos: dos anos 1990 até agora, são cerca de 80 filmes na bagagem. Seu trabalho raramente é lançado ou exibido em mostras no Brasil, fazendo com que a internet se torne o melhor meio a variedade da sua arte. Gozu, a exemplo de grande parte da sua obra, trata sobre a máfia japonesa. Mas o que mais chama a atenção neste filme é o surrealismo acrescentado à história, onde o protagonista está tão positivamente perdido quanto aqueles que o assistem. Miike deixa um pouco de lado neste filme a sua usual violência, mas cria cenas que, dificilmente, irão existir em outros filmes que não nos seus.

Hukkle
de György Pálfi (Hungria)
78min, 2002, cor, 35mm
(exibição em DVD)
SINOPSE: Um velhinho soluça num banco de jardim. Um rapaz bêbado ronca numa carroça. Uma senhora idosa colhe lírios no campo. O apicultor extrai mel. Um trator lavra os campos de trigo, que vai virar farinha. E, posteriormente, em bolinhos na cozinha da avó. E um policial que investiga um homicídio...
DIZEM OS CURADORES: Mais um exemplo surpreendente de longas iniciais de jovens diretores com muito talento. Com passagens por um número quase incontável de festivais internacionais, Hukkle, dirigido por György Pálfi, mostra uma planificação precisa e estética apuradíssima, preparando o terreno para que seu estilo surgisse de modo ainda mais intrépido em seu segundo longa (leia sobre Taxidermia). Construindo um aparentemente inofensivo universo de personagens e suas pequenas e singelas histórias, Pálfi avança longa adentro com passos certeiros para uma discreta e pontual desconstrução da possível ingenuidade sugerida pela obra.
Hunger
de Steve McQueen (Reino Unido / Irlanda)
96min, 2008, cor, 35mm
>> inédito no Rio e SP
SINOPSE: Uma odisséia na qual os pequenos gestos tornam-se épicos e onde o corpo é o último recurso de protesto, Hunger mostra os meses finais de vida de Bobby Sands, voluntário do IRA (Exército Republicano Irlandês) e membro do Parlamento do Reino Unido, que em 1981 liderou uma greve de fome e participou do protesto No Wash, na prisão de Long Kesh, através do qual prisioneiros republicanos tentaram conquistar o status de presos políticos.
DIZEM OS CURADORES: Talvez o filme inédito da mostra com a maior carga de expectativa pelo público, por atingir todo tipo de procedência cinéfila e audiovisual, seja ela tradicional ou virtual, Hunger foi o vencedor da Camera D’or no Festival de Cannes de 2008 e é dirigido pelo artística plástico Steve McQueen. O longa inevitavelmente deixa marcas por onde passa, tanto nos festivais quanto nos espectadores. O primeiro trabalho do diretor inglês surpreende por sua força descomunal e pelo ímpeto do autor em fazer um cinema onde todos os sentidos necessariamente devem estar despertos. Com seus longos e silenciosos planos em busca de algo que não pode ser dito com palavras, o filme prima por sua precisão ao percorrer este trajeto inóspito da dor. Steve McQueen consegue denunciar sem apontar o dedo, instigar sem apresentar muito sobre seus personagens, ser envolvente e sensível sem precisar dizer muito e, acima de tudo, fazer desta proposta estética de “silêncios” (exaustivamente relida e revista em festivais atuais) uma abordagem pontual para suas intenções. O diretor já disse em entrevistas que “as pessoas se usam como armas quando não há mais saída”; neste longa de estréia, McQueen faz da sua obra uma arma das mais potentes.

Instrument
de Jem Cohen (EUA)
115min,1998, cor/P&B, vídeo.
>> inédito no Rio
SINOPSE: Colaboração entre o diretor e a banda Fugazi, o projeto cobre um período de dez anos a partir do início do grupo, em 1987. Instrument fica na área cinza entre os gêneros facilmente identificáveis. Distante do formato tradicional, o longa é um documento musical; um retrato multifacetado do trabalho dos músicos e suas visões de mundo.
DIZEM OS CURADORES: Um diretor-filmmaker extremamente talentoso, com inúmeros filmes de inúmeras bitolas em sua história, ao lado de uma das bandas mais importantes do punk-hardcore, para não dizer de todo o underground, do planeta. O afegão radicado nos Estados Unidos Jem Cohem e os músicos do Fugazi se unem nesse longa para mostrar os dez anos da história da banda de Washington DC. Repleto de fantásticas imagens de arquivo, que o diretor capturou e obteve dentro de uma das mais instigantes épocas do quarteto liderado por Ian McKaye, o filme constrói uma narrativa extremamente fiel à essência da banda, proporcionando uma vivência única aos que o assistem e remetendo diretamente ao que deveria ser um show deles ao vivo. Para fãs ou não de Fugazi, esta é uma grande oportunidade de proporcionar-se uma legítima experiência sobre a busca por uma música honesta, verdadeira para quem faz e escuta e livre de pretensões financeiras ou midiáticas. Um fato que podemos relacionar diretamente ao cinema produzido por Jem Cohem.
Man from Earth
de Richard Schenkman (EUA)
90min, 2007, cor, vídeo
SINOPSE: Uma festa de despedida para o professor John Oldman torna-se um misterioso interrogatório depois que ele revela aos colegas que é imortal e vive há mais de 14.000 anos. O que começa como uma reunião amigável logo se conduz a um inesperado e chocante clímax, já que todos tentam achar buracos na história de Oldman, mas percebem que tão difícil quanto acreditar em sua narrativa é achar provas de ela não passa de uma invenção.
DIZEM OS CURADORES: Ao lado de Stingray Sam, o filme norte-americano de Richard Schenkman já tinha cadeira cativa nesta lista. Talvez esta seja a obra que melhor represente todos os benefícios que a internet pode proporcionar a um filme que pretende, essencialmente, ser visto em muitos lugares (ou, no caso, por pessoas de muitos lugares). Se por um lado a carreira do filme surpreende, por outro percebe-se que toda a fama que ganhou não foi à toa. O diretor consegue criar um filme simples e de baixíssimo orçamento, mas sobretudo cativante, criativo e instigante do início ao fim – algo que muitos filmes milionários tentam sem o menor êxito.
Moonlighting
de Jerzy Skolimowski (Reino Unido)
97min, 1982, cor, 35mm
(exibição em DVD)
>> inédito no Rio
SINOPSE: Nowark é um empreiteiro polonês que lidera um grupo de trabalhadores rumo a Londres, para que prestem serviço barato ao governo. Além de gerenciar o projeto, ele também administra os empregados, que conhecem as tentações do ocidente e sentem falta de suas famílias. Sendo o único do grupo que fala inglês, Nowark usa isso como uma ferramenta para se impor aos demais - mas quando a agitação na Polônia provoca uma reação militar, Norwak tem que enfrentar uma situação muito mais difícil do que esperava.
DIZEM OS CURADORES: Recentemente, o festival de Cannes exibiu o filme 4 Noites com Anna, do diretor polonês Jerzy Skolimowski. O longa encerrava um hiato de 17 anos sem lançar novas obras. O fato curioso despertou o interesse pelo restante de sua obra, e a internet foi a opção mais acertada para encontrar algumas respostas. Abrindo o leque da Zona Livre, Moonlighting mostra um cinema mais político, explorando a problemática dos imigrantes poloneses, e tendo o ator Jeremy Irons em grande atuação.
Nowhere
de Gregg Araki (EUA)
82min, 1997, cor, 35mm
(exibição em DVD)
SINOPSE: Jovens bonitos, alienados e confusos em busca de amor e diversão. Poderia ser um episódio de Barrados no Baile, só que em uma viagem de ácido. Nowhere mostra um dia na vida de Dark e seus amigos, lidando com os dilemas inerentes à juventude em um contexto que envolve drogas, popularidade, distúrbios alimentares, promiscuidade, agressividade, estupro, suicídio e abduções alienígenas. Um retrato pop da cultura, dos costumes e da efervescência jovem dos anos 1990.
DIZEM OS CURADORES: Representante da cultura e costumes dos anos 1990, o longa do norte-americano Gregg Araki nos proporciona re(vi)ver a problemática efervescência e contravenção daqueles jovens e suas perturbações, sejam rasas ou não, a respeito do que havia de novo para eles naquele momento do mundo. Diretor reconhecido pelo seu mais premiado filme, Mysterious Skyn, Araki nos mostra neste seu menos conhecido trabalho no Brasil um universo ácido, sexualmente ativo e bastante distante do conceito de realidade. Um filme jovem e sem muitas aparentes pretensões que, se não consegue gabaritar-se da mesma maneira que outros daquela época o fizeram (como Gummo de Harmony Korine), consegue facilmente nos catapultar para aquele universo que muito assemelha-se às necessidades e dúvidas ainda existentes nos jovens dos anos 00, agora anos 10, escondidos atrás de seus computadores.
One night in one City
de Jan Balej (República Tcheca)
70min, 2007, cor, 35mm
(exibição em DVD)
SINOPSE: O que de mais inusitado pode acontecer em uma sombria cidade em uma noite? É difícil dizer, especialmente quando os personagens da história incluem uma esquisita criatura que costura orelhas alheias em sua própria cabeça, alguém que avista fantasmas se distraindo em cafeterias e uma velha árvore de maçã e seu peculiar amigo, um peixe que assume inúmeras formas de acordo com as estações. Mas isso não é nada: neste conjunto de parábolas surreais, tudo é possível.
DIZEM OS CURADORES: Há muitas formas de retratar a sociedade contemporânea e suas excentricidades. A escolhida pelo diretor Jan Balej talvez não tenha sido a mais fácil e rápida de se fazer, mas com certeza leva a algo completamente novo. Esta animação em stop motion apresenta personagens bizarros que dividem o mesmo prédio, criando sketches em que todas as situações se passam na mesma noite. Um projeto da República Tcheca que demorou dez anos para ser finalizado e que traz uma visão única de mundo graças a uma direção de arte incrível.
Sangre
de Amat Escalante (México)
90min, 2005, cor, 35mm
(exibição em DVD)
>> inédito no Rio
SINOPSE: O trabalho de Diego consiste em contar o número de pessoas que entram em um prédio do governo. Depois do trabalho, ele e sua esposa, Blanca, deitam-se no sofá, assistem a novelas ou fazem amor na mesa da cozinha. E é nisso que se baseia o seu relacionamento - até que um dia essa rotina é interrompida: Karina, filha de Diego de um casamento anterior, chega à procura do amor do pai, mas Blanca recusa-se a aceitá-la. Diego se vê entre uma esposa extremamente ciumenta e uma filha desesperada por alguém para guiá-la, situação que vai levá-lo à total perda do controle.
DIZEM OS CURADORES: O cinema do México tem atingido um sinônimo de cult atualmente, em grande parte, graças ao diretor Carlos Reygadas: ele vem criando seu renome pelos festivais internacionais com uma visão autoral e poética de seu país de origem. Porém, um outro nome corre em paralelo nesta cena e responde pelo sonoro nome de Amat Escalante. Assistente de direção em Batalla en el Cielo, de Reygadas, o mexicano vem dirigindo longas que apresentam forte personalidade, com bastante repercussão em festivais e, por conseqüência, também na rede. Em Sangre, o diretor traz um México com muitos silêncios, de enquadramentos rígidos, com uma visão altamente personalizada do povo mexicano e sua rotina.
Stingray Sam
de Cory McAbee (EUA)
60min, 2009, P&B, 35mm
(exibição em DVD)
>> inédito no Rio de Janeiro; exibido no Brasil apenas no CEN 2009
SINOPSE: Uma missão perigosa reúne Stingray Sam e seu cúmplice de anos, The Quasar Kid. Siga estes dois condenados do espaço enquanto eles tentam ganhar sua liberdade de volta em troca de uma missão: resgatar uma jovem, mantida em cativeiro por um líder concebido geneticamente e vindo de um planeta muito rico.
DIZEM OS CURADORES: Captado em HD, transferido para os 35mm e concebido sob a influência direta do You Tube (onde filmes são assistidos sempre em trechos de 10 minutos), Cory McAbee consegue com Stingray Sam um grande passo à frente em relação a seu filme anterior (leia sobre American Astronaut). Aqui, ele persegue e aprimora suas valências e surpreendentes habilidades de diretor ao mesmo tempo em que se reinventa de maneira muito sagaz dentro do universo de ficção científica que criou para si. O resultado é um dos filmes mais relevantes desta mostra. Stingray Sam foi lançado em 35mm no festival de Sundance de 2009, mas tem distribuição multiplataforma: concebido para funcionar na íntegra na sala de cinema, ou em trechos de dez minutos em qualquer tipo de pequena tela de exibição, o longa circula em festivais, circuito comercial, internet, download no site oficial para ipods e celulares e ainda oferece conteúdo exclusivo na rede, disponibilizando fotos, trilha sonora, making of e muito mais. Todas essas informações tecnológicas são relevantes, mas o melhor de tudo é que elas ficam em segundo plano: McAbee transcende toda esta originalidade de formatos para criar um filme que, seja lá em qual tela, fala por si mesmo.
Taxidermia
de György Pálfi (Hungria)
90min, 2007, cor, 35mm
>> inédito no Rio
SINOPSE: Três histórias, três gerações, três homens; um estranho e chocante universo. O sombrio avô, um ex-assistente hospitalar da Segunda Guerra Mundial, vive dentro de suas bizarras fantasias: ele deseja amor. O enorme pai procura o sucesso como um atleta de alto nível, em plena era pós-soviética. Já o neto, um taxidermista submisso de fraca aparência, anseia por algo grande: a imortalidade.
DIZEM OS CURADORES: Conta-se por aí que uma jovem agrediu aos gritos seu namorado, na sua única exibição ocorrida até hoje no Brasil (São Paulo, 2006) após o fim de Taxidermia, segundo longa de György Pálfi. Ela questionava ferozmente o namorado sobre como ele teve coragem de levá-la para ver um filme como aquele. Mitos à parte, este longa húngaro com certeza é um dos filmes mais chocantes e de difícil digestão dos últimos anos. Felizmente estes adjetivos vêm acompanhados da impressionante habilidade do jovem diretor em reproduzir e nos proporcionar a experimentação de sentimentos usualmente escondidos dos nossos olhos e quase sempre represados em outros filmes. Tudo o que temos de mais grotesco, absurdo e desprezível é amplificado e “atirado” sobre a tela com muita destreza. Em diversos momentos remetendo categoricamente ao cinema de David Cronenberg, em sua busca intrépida de questionamentos sobre o corpo humano e sua modificação e mutilação forçadas, György Pálfi faz um cinema de estética apurada e com uma personalidade raríssima, pouco encontrada mesmo nos rincões da internet. Será que teremos a oportunidade de presenciar um novo caso como o da jovem e seu namorado em 2006?
Trash Humpers
de Harmony Korine (EUA)
78min, 2009, cor, vídeo
>> inédito no Brasil
SINOPSE: Com seu último filme, Korine retorna a um mundo familiar de pequenas torturas e vandalismo gratuito, ao seguir um grupo de mascarados que espalham destruição, dizem e repetem frases sem sentido e cantam cantigas fora de tom. Com muita poesia, dança e música, Korine usa uma iluminação distorcida para trazer autenticidade ao universo único e barroco do filme, no qual os personagens aparecem como versões modernas dos vilões dos Irmãos Grimm.
DIZEM OS CURADORES: Trash Humpers é literalmente uma aposta desta mostra. Ao contrário de todos os demais longas da seleção, este não se encontra facilmente na internet: é com certeza um dos mais raros títulos da Zona Livre. A oportunidade prematura de vê-lo recentemente em um festival internacional permitiu sua chegada em primeira mão ao Brasil, enquanto ainda circula por mostras no exterior e gera expectativa nos cinéfilos brasileiros para vê-lo, embora como sempre seja uma questão de tempo para que o longa crie vida própria na rede. Harmony Korine tem em sua história nada mais nada menos que Gummo, um dos filmes mais importantes dos anos 1990, além de outros dois longas-metragens e o roteiro de Kids, de Larry Clark. Com Trash Humpers, ele parece desafiar-se ao fazer uma drástica descida ao mundo dos baixíssimos orçamentos, lugar pouco almejado por muitos cineastas. Após ter rodado um filme de US$ 8 milhões (o que para o seu universo é muito), Korine abriu mão de estruturas e orçamentos e voltou à verdadeira essência de filmar, buscando captar e vivenciar coerentemente a miserabilidade de seus desajustados personagens. O resultado é repulsivo, ultrajante e de difícil digestão, mas de uma estranha sensibilidade, que acaba por se tornar inusitadamente comovente. O diretor dialoga com seus antigos personagens marginalizados, vistos em Gummo e Julien Donkey Boy, e cria um filme (como o nome sugere) invasivo e destrutivo. Uma experiência digna da criação de Harmony Korine.