Por Carlos Besen
Chumbar a luz
Não ensaio meu cansaço.
Apenas a cabeça se evola pelo fundo do rio,
anzol pendular do sono.
O corpo devora o pó do dia,
pólvora cuja implosão vai de plúmbeo
a blecaute.
Chumbo é ostentar a dança da queimadura
sem arder.
Devassado pela luz,
mergulho adormecido no breu.
Pedagogia do rio
Um rio é pedagogo:
mesmo embaralhando,
o abraço da água alfabetiza
o esforço do equilíbrio.
Rio é um lírio desigual.
Minha mão colhe a correnteza
e a constelação da alga:
o rio corre o céu,
espelho de coral.
A água que se alastra como a estação no pássaro
é estrutura mineral do fogo, quando anda.
Esfriar a assimetria com que passo:
permito cicatrizes para desaparecer,
cesso a impureza para advir.
A alegria do rio chia os favos da labareda,
o cansaço de proibir um segredo.
A água ensina a macular para dividir.
Carlos Besen é pós-graduando em filosofia. Ainda não abandonou Porto Alegre. cidade que lhe rendeu duas oficinas de poesia (uma com Ronald Augusto, outra com Fabrício Carpinejar) e lhe conferiu, em 2004 e por unanimidade, o Prêmio Habitasul – Revelação Literária na Feira do Livro, na categoria In Versus. Alguns poemas apareceram publicados. Apesar do momento, tem no pulo do prelo seu primeiro livro: Desarvorar, . Na internet, além de ter poemas na revista Máquina do Mundo, mantém um blog exclusivamente literário (http://carlosbesen.blogspot.com). Contatos com o e-mail carlosbesen@gmail.com.