Biografia
E tudo ocorre na melancolia
da sílaba, o casulo emergindo
nas talhas.
Inquieta sofre a gestação
no caule dos rebentos.
O gesto da carne
no linho que lambe a mutação.
Rota, sopro, sístole ou máscara
onde bardos fecundam a sazão
da ebriedade.
E entra nas vozes,
nos hortos, algures no inabitado
onde gravitam tâmaras.
Melífaga
ironia das fábulas, a palavra
mastiga a água adubada no sangue
do amor.
Pois ser bardo e sonhador
é devorar o fogo sagrado, o correr
das chuvas.
A alma desatando-se
sílaba que afeiçoa as matizes do
espanto cheio de luz.
Então nu, já poderei morrer
inteiro, as dores exactas, na alma desolada
dos anjos abstractos em seus remoinhos.
Encontro com Herberto Helder
Há algures uma cidade interrompida onde a luz
já se vai perdendo prostrada entre as âncoras
como estiletes arejados enjaulados nas palavras,
deves ir pela tarde mágica das trovoadas ávidas
quando Cascais vai morrendo um pouco menos
apesar de o miolo da carne infindável ser sangue
emergindo como fungos atiçados junto à pele
em ciclos de intempéries e migrações filicídias,
vai procurá-lo nos jardins embora não te fale
(esquecerás que transportas o contágio das dores
as manhãs ressuscitarão secas sobre os espigões
ao longo das vozes aguçadas a cidade coagulada
ardendo nas candeias sob o ritual dos êmbolos),
pergunta na praça das súplicas enxutas dos velhos
por aquele homem que menstruou a sílaba nua
quando na cidade passava o ar odorífero das ilhas
ele que lutou nos campos da cal contra as cobras
para que a escassa estria ainda se ouça torrencial,
no absurdo da busca na casa do espectro da areia
reside a transparência materna os últimos dias
senta-te sob os salgueiros com a cabeça inclinada
ouve o vento e cheira as entranhas certas da morte
o corpo estilhaçando-se em múltiplas direcções,
pára não digas nada ao ouvido das nascentes
(enquanto escutas as patas frágeis da magnólia
bebe a cidade pelo sexo aberto das fêmeas azuis
guelras por onde resfolega toda a luz preambular
como se fosse a redentora faísca o corpo vegetal),
aí, junto à água, o engenho das bigornas brancas
o fogo das mãos sagazes ardendo como ofício puro
casulo entre as bilhas onde habita o bafo do poeta.
Antera
No jardim dos Prazeres Oriental
todas as casas foram explodidas:
fagulhas e cacos de cor
pairam, em ramalhete, sobre as cúpulas.
Uma escada deserta no declive central
(ninguém falou em amor).
Duas portas ficaram abertas.(DIANTE DO RIO).
14.
o teu corpo
uma seta
acordada em chegadas
mande-o ainda em poemas perversos
de antilira, feito em antiverso
(ou será ele
o meu sopro de metal
que me alimenta
e decepa?)
é natural
poetas e poetas que buscam
o requinte das orquídeas
e também o teu sopro
era a perfeição
e todos os que entravam
te roubavam
um pouco de mim
o frenesim de olhar-te espanto
raiz poema
sobretudo isso – o respirar-te.
15.
(para quê,
guerreiro acídico
escolheres-me quando tudo arde
- nos olhos a palidez de Inês –
pois só pode arder-me seus cabelos teus
anjo(s) apunhalando(-me) o corpo reflectido?)
assim se espera a labareda
este anseio infinito e vão
de possuir o que me possui
assim o espero
incenso os grãos de pólen da antera
para acudir ao fogo posto – um bem-querer.