Café Literário Cronópios







Jardim ou As cinzas de Alice
por Sérgio Medeiros









 

Ode à beleza ou tragédia em três atos
por Adriana Versiani




Vida entre mundos
por Viviane de Santana Paulo




Escrito à mão esquerda
por Jorge Elias Neto




Cola e tesoura
por Márcio Araujo




Culinária Venusiana
por Carlos Emílio C. Lima




Oração do Século XXX
por Silas Corrêa Leite




A seiva
por Nádia Montanhini




per augusto & machina
por Romério Rômulo




Poética da ternura
por Jurema Barreto de Souza




Poemas
por Luciana A. Mellado




Assassinado pelo céu (seis poemas de García Lorca)
por Claudio Daniel




Poemas do quintal
por Rubens Jardim




Nkalu a maza
por Abreu Paxe




Quasimodo - 50 anos
por Anibal Beça




Poesia radioativa
por Camila Vardarac




Cind
por Jovino Machado




Mulher é linguagem
por Rubens Jardim




Lautréamont: místicas da transgressão
por Claudio Willer




A coroa de Hórus e outros poemas
por Teodoro Marco




4 poemas
por Eduardo Siqueira







 
21/11/2007 17:19:00
Titanic World




Por Marcelo Ariel


 

1.

 

TERCEIRA CARTA PARA ADÍLIA LOPES

 

Te vejo atravessando
o branco das páginas

como se ele fosse uma rua
Ou o falso-poema dos dias
e te vejo morta há mil anos
atravessando tua antologia esquecida
no branco do olho dos macacos
onde dorme `o deus`
e eles estão tentando comer os livros
e te vejo no branco de um espaço-sem-tempo
Onde teus livros não precisam mais existir
nem os meus, nem nenhum planeta também
sistema nenhum solar ou não
só um espaço branco no lugar do infinito pensado
Imagino isso e não durmo
porque não posso suportar tanta beleza
Beleza que é igual à visão de uma barata-branca quase transparente
pousada na superfície de um purê de batatas.

 

 

 

 

2.

 

BLUES PARA O ORKUT

 

 " Every person, place and thing in the chaosmos of Alle anyway connected  "

 

  James Joyce em Finnegans Wake

 


UMA SUBLIMAÇÃO
DA PALAVRA :
"CONTATO"
OU UMA SIMULAÇÃO
DAS AFINIDADES ELETIVAS
EM UM
MUNDO
SEM
NENHUM
GOETHE OU SHAKESPEARE ;
PERDIDO
( O HÁBITO)
LOGO O PERDEREMOS...
( DE EMPALHAR O VÔO DOS PÁSSAROS COM A PONTA DOS DEDOS)
AFAGANDO UMA FOGUEIRA COM MILHÕES
DE CADÁVERES EM VOLTA
DO FALSO
FOGO

( MAS..PARA O QUE DEVERIA SER)
A ANTI-PRESENÇA...
HÁ O IRÔNICO-TRISTE DESTA COMUNIDADE CHAMADA `PROFILE DE GENTE MORTA`
QUE COMO O FANTASMA DE UM BURACO NEGRO
ENGOLE TODAS AS OUTRAS.

 

 

 

3.

 

BLUES PARA ANTONY HEGARTY

 

 

 "o silêncio ajardinado"

 

Haroldo de Campos

 

 

ENTRE UMA FLOR OFERTADA
E OUTRA COLHIDA :
A VOZ
DE UM ANJO
TORNA VISÍVEL
ESTE INEXPRIMÍVEL
AMOR
QUE É A MORADA
DA ALMA :
ESTE SOL DA SOLIDÃO
E SUA LUZ
NAS LÁGRIMAS ,
PÉTALAS TRANSPARENTES
DO CORPO DESSE PÁSSARO
CUJAS ASAS
SÃO O SOPRO
DO SILÊNCIO...

 

 

 

 

 4.

 

Nick Drake & Elliott Smith,um diálogo:

 

" Onde é que os mortos dormem? Dorme alguém

Neste universo atomicamente falso? "

 

Álvaro De Campos

 

 

Como uma tempestade assassinada pelo Sol Nick Drake acende um cigarro ..ao seu lado Elliott Smith se espreguiça um pouco embaçado pela luz que sai da água..Nick Drake acende outro cigarro p/ ele..Os dois conversam dentro da fumaça..

Nick Drake : Você ouviu o que Bob Dylan falou ontem dentro do filme?
Elliott Smith: Algo sobre ele mesmo..
Nick Drake: Exato..Ele disse : "Você é um mentiroso" e " Não acredito mais em você"
Elliott Smith: Isso foi para a platéia..Acho que ele estava tentando esclarecer algo..mas é impossível..A luz acabou..
Nick Drake: Isso deve ter alguma relação com a carreira solo do Phil Collins e com aquela festa mórbida..O Woodstock 99
Elliott Smith: Aquilo foi uma doença..O rock deveria ser como as drogas pesadas..Mas ele acabou se tornando inofensivo..
Nick Drake: Os merdas ambulantes e as pessoas-vegetais compram discos de rock e blues..produzidos por vampiros
Elliott Smith: Bob Dylan disse isso?
Nick Drake: Não sei..é o que acontece COM TUDO..Nós só podemos ver uma pequena parte do negócio..O iceberg-de-merda!
Elliott Smith : O problema é o silêncio dos fantasmas..os únicos fantasmas que valem à pena são os cantores de blues afogados...
Nick Drake: É..os anjos afogados ..
Elliott Smith: Esses porras que compraram os melhores discos do mundo não conseguiram mudar NADA..
Nick Drake: A beleza invisível das canções não conseguiu mudar nada..Hey cara..você está sonhando comigo..e eu estou morto..
Elliott Smith: Então..É SÓ ISSO..Poder aparecer no sonho de outro morto..como uma canção....

 

 

 

 

 

 

 

 

Marcelo Ariel é escritor & performer. Nasceu em Santos em 68. Autodidata, mantém desde 1988 um sebo itinerante chamado O Invisível. Adaptou para o teatro obras de Dante Alighieri, Byron, Hilda Hilst, Yukio Mishima, Fernando Pessoa e Hermann Broch. Publicou recentemente pelo Coletivo Dulcinéia Catadora o livro: ME ENTERREM COM A MINHA AR 15 e em breve publicará pelo Selo LetraSelvagem o TRATADO DOS ANJOS AFOGADOS.
E-mail:
marceloariel521@hotmail.com Blog: www.teatrofantasma.blogspot.com

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