Te vejo atravessando o branco das páginas como se ele fosse uma rua Ou o falso-poema dos dias e te vejo morta há mil anos atravessando tua antologia esquecida no branco do olho dos macacos onde dorme `o deus` e eles estão tentando comer os livros e te vejo no branco de um espaço-sem-tempo Onde teus livros não precisam mais existir nem os meus, nem nenhum planeta também sistema nenhum solar ou não só um espaço branco no lugar do infinito pensado Imagino isso e não durmo porque não posso suportar tanta beleza Beleza que é igual à visão de uma barata-branca quase transparente pousada na superfície de um purê de batatas.
2.
BLUES PARA O ORKUT
" Every person, place and thing in the chaosmos of Alle anyway connected "
James Joyce em Finnegans Wake
UMA SUBLIMAÇÃO DA PALAVRA : "CONTATO" OU UMA SIMULAÇÃO DAS AFINIDADES ELETIVAS EM UM MUNDO SEM NENHUM GOETHE OU SHAKESPEARE ; PERDIDO ( O HÁBITO) LOGO O PERDEREMOS... ( DE EMPALHAR O VÔO DOS PÁSSAROS COM A PONTA DOS DEDOS) AFAGANDO UMA FOGUEIRA COM MILHÕES DE CADÁVERES EM VOLTA DO FALSO FOGO ( MAS..PARA O QUE DEVERIA SER) A ANTI-PRESENÇA... HÁ O IRÔNICO-TRISTE DESTA COMUNIDADE CHAMADA `PROFILE DE GENTE MORTA` QUE COMO O FANTASMA DE UM BURACO NEGRO ENGOLE TODAS AS OUTRAS.
3.
BLUES PARA ANTONY HEGARTY
"o silêncio ajardinado"
Haroldo de Campos
ENTRE UMA FLOR OFERTADA E OUTRA COLHIDA : A VOZ DE UM ANJO TORNA VISÍVEL ESTE INEXPRIMÍVEL AMOR QUE É A MORADA DA ALMA : ESTE SOL DA SOLIDÃO E SUA LUZ NAS LÁGRIMAS , PÉTALAS TRANSPARENTES DO CORPO DESSE PÁSSARO CUJAS ASAS SÃO O SOPRO DO SILÊNCIO...
Como uma tempestade assassinada pelo Sol Nick Drake acende um cigarro ..ao seu lado Elliott Smith se espreguiça um pouco embaçado pela luz que sai da água..Nick Drake acende outro cigarro p/ ele..Os dois conversam dentro da fumaça..
Nick Drake : Você ouviu o que Bob Dylan falou ontem dentro do filme? Elliott Smith: Algo sobre ele mesmo.. Nick Drake: Exato..Ele disse : "Você é um mentiroso" e " Não acredito mais em você" Elliott Smith: Isso foi para a platéia..Acho que ele estava tentando esclarecer algo..mas é impossível..A luz acabou.. Nick Drake: Isso deve ter alguma relação com a carreira solo do Phil Collins e com aquela festa mórbida..O Woodstock 99 Elliott Smith: Aquilo foi uma doença..O rock deveria ser como as drogas pesadas..Mas ele acabou se tornando inofensivo.. Nick Drake: Os merdas ambulantes e as pessoas-vegetais compram discos de rock e blues..produzidos por vampiros Elliott Smith: Bob Dylan disse isso? Nick Drake: Não sei..é o que acontece COM TUDO..Nós só podemos ver uma pequena parte do negócio..O iceberg-de-merda! Elliott Smith : O problema é o silêncio dos fantasmas..os únicos fantasmas que valem à pena são os cantores de blues afogados... Nick Drake: É..os anjos afogados .. Elliott Smith: Esses porras que compraram os melhores discos do mundo não conseguiram mudar NADA.. Nick Drake: A beleza invisível das canções não conseguiu mudar nada..Hey cara..você está sonhando comigo..e eu estou morto.. Elliott Smith: Então..É SÓ ISSO..Poder aparecer no sonho de outro morto..como uma canção....
Marcelo Arielé escritor & performer. Nasceu em Santos em 68. Autodidata, mantém desde 1988 um sebo itinerante chamado O Invisível. Adaptou para o teatro obras de Dante Alighieri, Byron, Hilda Hilst, Yukio Mishima, Fernando Pessoa e Hermann Broch. Publicou recentemente pelo Coletivo Dulcinéia Catadora o livro: ME ENTERREM COM A MINHA AR 15e em breve publicará pelo Selo LetraSelvagem o TRATADO DOS ANJOS AFOGADOS. E-mail:marceloariel521@hotmail.com Blog: www.teatrofantasma.blogspot.com