Ilustre silente, seguro no mastro, no leme temente do lastro distante Lembrar-se-ia de Flebas e desejaria digna morte Mas agora, o sol cega, as mãos tremem por sua covardia noturna.
Eliot em carne
Na ponte passavam meninos,
alguns lacerados.
Foi quando ouviram os sinos.
Pareciam piados.
A festa do imperador?
De dia uma velha passou
E a igreja estava iluminada.
É a cor da guerra, pensou,
e mesmo o pó se fez em nada.
Van Gogh
Foram por ali, por acolá.
“Não”, disse a menina, “por aí não”.
Todos sabiam o que havia atrás da porta.
Ratoeirinhas bem montadas, gaiolinhas para minúsculos passarinhos.
O chão rangia.
Era assoalho velho.
Lá fora, um tanque meio desbeiçado
e na contraluz o velho pintor.
Não que fosse tão velho, mais o ar.
E depois as crianças se sentaram à mesa,
para jantar.
São Paulo, 1964
O bom foi quando aquele inverno começou.
Foi grande emoção:
veio o verdureiro, com uma camiseta –
sem mangas, com alguns furos,
dois talvez atrás, quatro, cinco
entre peito e ventre.
E que braços, e que barriga!
E que agriões, abóboras, quiabos e laranjas!
Dois carros frearam no sinal.
O inverno deu a volta na esquina
e ressurgiu periquito na saia de lã
da Estela. Botões dourados.
Aquele frio, nem tanto. Aquele frio, bastante.
Enormes eram as rodas da carroça.
Alguns dos raios, meio lascados.
Que braços, que barriga!
Manuel Bandeira se fincou na esquina.
Todos pararam para ver:
e ali ficaram, o verdureiro,
Estela e Manuel Bandeira.
Ó grefas belezas dos fúlgidos subúrbios
Sônia parecia russa, e o tio falava (dizia ela)
quarenta e duas línguas (ou seriam dez?).
Magra, magra, olhos verdes,
e feia.
O outro tio tinha um açougue.
O portãozinho de ferro se abria,
e era o paraíso esconso da sensualidade.
O espelho ocupava a porta toda do armário.
E Sônia mostrava os peitinhos mirrados,
nua, os pelinhos meio castanhos mais em baixo.
Reta, em pé, uma elipse se abria entre as coxas.
Ela se debruçava na janela,
acenava para os passantes.
Eu ia embora, com o gosto do chocolate quente na boca.