31/8/2007 14:28:00
Do Livro dos Ventos — Poemas de Jacineide Travassos
Por Jacineide Travassos
Poética
o vento cobre o barro
o oleiro faz do vaso o vazio
opala derramada
sobre o negro dos olhos
o barro cobre o vento
o oleiro faz do vazio o vaso a mesa outonal desfaz-se em folhas
O vento vivendo na casa
vento e mar talharam-se no meu corpo
cessar tua estação em mim foi impossível
sorvi o sumo que sopra nos ares a maresia
roubando-te estrelas marinhas para emprestar à noite
siderei-me no teu céu sem vestes
tingindo-me azul têmpora tronco e membro
colhi versos nos teus olhos
coisa pássara
pousados nos girassóis
violinos deitaram adágio sobre a terra de ti
casa de sementes imersas lírio e orvalho
Poema para as vozes da Ilha
da faca dizes que negue o corte
do mar que afie seus metais
na geometria do peixe
o mar ouve tua voz
canto que anuncia o branco às velas
e os mastros obedientes
à rota do vento saudoso da terra
o mar ouve
o metal dos metais dos sinos
timbre e som de asa
pássaro-vôo de garça
nascido do vento que te deseja terra
o mar
em teu nome
silencia
o metal de estrela em estrela marinha
que todo brilho diga da faca
o peixe em sua geometria
o mar
em teu nome
dissolve o metal em suas águas
onde cavalos marinhos são em lua e prata
lua que agora é branco e branco de ágata
branco de espuma que se deita na terra
tua praia
o mar
sabe do medo
dos metais nervos e veias
que te fazem sangue e terra
o mar
ilha de um pássaro pousado
diz do sol
que traga lume novo à tua casa
o mar
em teu nome
pequena Ilha pátria
banha verde as ramas
traz o cheiro das algas
pelo vento na maresia
o mar
é teu verbo
tempo humano do que não se adia
A noite se fez
então os potros de luz
cavalgaram
e os azuis
agora só marinhos
trazem uma loba
para a noite que teu sopro inventa
teu hálito
sopra as estrelas para o mar
e a loba com sede
bebe o pó de estrelas das tuas águas
o sal
pó de estrelas
acende os peixes
se branco
peixe em geometria de faca
se metal
faca em geometria de peixe
branco ou metal guardas
para a fome em tuas águas?
Mater Dies
címbalos soam a palavra
sangarida
sopra o vento Terral
no ostensório do meu nome
teu nome
pedra
recife à flor das águas
cinge aves do mar e peixes
amotinando-os ao verbo magro dos viajantes
sangarida
tuas veias marítimas sangram
habitam-me o ventre
ressuscitam sereias nas siremusas
anunciam o sal
não só vermelho cor da tarde
sangarida sangarida
o sangue principia novo nome
Canção do Vento
(a Rimbaud)
toca a pele das línguas
vento no pássaro sonoro
na casa do ser
beija indolor o marrom dos meus dias
vento na flor abandonada
flor sem vento
noite sem astro
ventania
um pássaro faz um ninho de vento
no arco-íris condenado dos meus dias
sopra amarelo vermelho laranjais
vento no sumo verde do mar
um arco
um lago na íris
no cansaço das retinas
tua imagem vento e ventania
repetida sempre na chuva volátil
perfume de Vênus nas águas
tua maresia
***
Ouço a música
da primeira lágrima
que te marejou a face
tocata em andamento
regida pela chuva
senti na boca
o sal dos olhos
Natureza Móvel com Peixes Vermelhos
o mundo faz-se do olhar
espaços sugeridos pela diagonal
planos sem volume
dissolvem-se na memória
as mãos lentamente
erguem a escritura das ondas
o olhar afoga-se
por entre o anil do céu
e o musgo das árvores
compõe-se o quadro dos amantes
navega-se sobre as águas do ar
plumas semeadas de olhos
o navio alça-se pássaro
lança-se em águas etéreas
a âncora faz-se ânfora
os corpos entrelaçam-se
na trilogia do sonoro do diáfano do móbil
na ânsia do toque
os olhos
mergulha-os no aquário
com peixes vermelhos
Natureza Móvel com Cavalos Brancos
e Vermelho de Orvalho
cavalos brancos cavalgam terra seca
ramagem galhada de arvoredo
as abissais profundezas do peito
o céu escorre azul
sobre o vermelho coágulo do barro
a terra seca ara-se de orvalho
às cegas seguem úmidas as horas
o céu
salina o som insípido do tempo
salmea o acorde das cordas de sol
matiza violinos-sépias
sangra o galope das veias
sobre o branco crina dos cavalos
Jacineide Travassos, poeta pernambucana, publicou em revistas literárias como Entretanto e Zunái. Tem inédito o Livro das Águas, de onde foram extraídos estes poemas. E-mail: jacineidetravassos@hotmail.com Blog, http://odisseiadepenelope.zip.net/ |