Café Literário Cronópios











Véu
por Adriana Versiani






 

Cavalo Azul
por Flávio Viegas Amoreira




Terça-feira
por Clarice Linden




De Clarice para Clarice
por Jorge Miguel Marinho




Seleta Twitter - Desvairados inutensílios
por Silas Corrêa Leite




Haikai coletivo
por Gustavo Felicíssimo




Uma porta (entre)
por Vagner Muniz




Dilema da aranha
por Eryck Magalhães




Servicinho extra!
por JC.Pompeu




Adeus cativeiro da métrica
por Gerson Chagas




Poesia para dançar
por Karen Debértolis




No comprimento de águas e conchas
por Marco Aqueiva




Antologia Poenocine
por Grupo Poenocine







 
31/8/2007 14:28:00
Do Livro dos Ventos — Poemas de Jacineide Travassos



Por Jacineide Travassos


 

Poética

 

o vento cobre o barro

o oleiro faz do vaso o vazio

opala derramada

sobre o negro dos olhos

 

o barro cobre o vento

o oleiro faz do vazio o vaso
a mesa outonal desfaz-se em folhas

 

 

 

O vento vivendo na casa

 

vento e mar talharam-se no meu corpo

cessar tua estação em mim foi impossível

 

sorvi o sumo que sopra nos ares a maresia

roubando-te estrelas marinhas para emprestar à noite

siderei-me no teu céu sem vestes

tingindo-me azul têmpora tronco e membro

 

colhi versos nos teus olhos

coisa pássara

pousados nos girassóis

violinos deitaram adágio sobre a terra de ti

casa de sementes imersas lírio e orvalho

 

 

 

Poema para as vozes da Ilha

 

da faca dizes que negue o corte

do mar que afie seus metais

na geometria do peixe

 

o mar ouve tua voz

canto que anuncia o branco às velas

e  os mastros obedientes

à rota do vento saudoso da terra

o mar ouve

o metal dos metais dos sinos

timbre e som de asa

pássaro-vôo  de garça

nascido do vento que te deseja terra

 

o mar

em teu nome

silencia

o metal de estrela em estrela marinha

que todo brilho diga da faca

o peixe em sua geometria

 

o mar

em teu nome

dissolve o metal  em suas águas

onde cavalos marinhos são em lua e prata

lua que agora é branco e branco de ágata

branco de espuma que se deita na terra

tua praia

 

o mar

sabe do medo

dos metais nervos e veias

que te fazem sangue e terra

o mar

ilha de um pássaro pousado

diz  do sol

que traga lume novo à tua casa

 

o mar

em teu nome

pequena Ilha pátria

banha verde as ramas

traz  o cheiro das algas

pelo vento na maresia

 

o mar

é teu verbo

tempo humano do que não se adia

 

 

 

A noite se fez

 

então os potros de luz

cavalgaram

e os azuis

agora só marinhos

trazem uma loba

para a noite que teu sopro inventa

teu hálito

sopra as estrelas para o mar

e a loba com sede

bebe o pó de estrelas das tuas águas

 

o sal

pó de estrelas

acende os peixes

se branco

peixe em geometria de faca

se metal

faca em geometria de peixe

 

branco ou metal guardas

para a fome em tuas águas?

 

 

 

Mater Dies

 

címbalos soam a palavra

sangarida

sopra o vento Terral

no ostensório do meu nome

teu nome

pedra

                        recife à flor das águas

cinge aves do mar e peixes

amotinando-os ao verbo magro dos viajantes

sangarida

tuas veias marítimas sangram

habitam-me o ventre

ressuscitam sereias nas siremusas

anunciam o sal

não só vermelho cor da tarde

sangarida sangarida

                        o sangue principia novo nome

 

 

 

 

Canção do Vento

   (a Rimbaud)

 

toca a pele das línguas

vento  no pássaro sonoro

na casa do ser

beija indolor o marrom dos meus dias

vento na flor abandonada

flor sem vento

noite sem astro

ventania

um pássaro faz um ninho de vento

no arco-íris condenado dos meus dias

sopra amarelo vermelho laranjais

vento no sumo verde do mar

um arco

um lago na íris

no cansaço das retinas

tua imagem vento e ventania

repetida sempre na chuva volátil

perfume de Vênus nas águas

tua maresia

 

 

***

 

Ouço a música

da primeira lágrima

que te marejou a face

tocata em andamento

regida pela chuva

senti na boca

o sal dos olhos

 

 

 

Natureza Móvel com Peixes Vermelhos 

o mundo faz-se do olhar

espaços sugeridos pela diagonal

planos sem volume

dissolvem-se na memória 

 

as mãos lentamente

erguem a escritura das ondas

 

o olhar afoga-se

por entre o anil do céu

e o musgo das árvores

compõe-se o quadro dos amantes

navega-se sobre as águas do ar

plumas semeadas de olhos

 

o navio alça-se pássaro

lança-se em águas etéreas

a âncora faz-se ânfora

os corpos entrelaçam-se

na trilogia do sonoro do diáfano do móbil

na ânsia do toque

os olhos

mergulha-os no aquário

com peixes vermelhos

 



 

 

Natureza Móvel com Cavalos Brancos

e Vermelho de Orvalho

 

cavalos brancos cavalgam terra seca

ramagem galhada de arvoredo

as abissais profundezas do peito

 

o céu escorre azul

sobre o vermelho coágulo do barro

a terra seca ara-se de orvalho

às cegas seguem úmidas as horas

 

o céu

salina o som insípido do tempo

salmea o acorde das cordas de sol

matiza violinos-sépias

sangra o galope das veias

sobre o branco crina dos cavalos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jacineide Travassos, poeta pernambucana, publicou em revistas literárias como Entretanto e Zunái. Tem inédito o Livro das Águas, de onde foram extraídos estes poemas. E-mail: jacineidetravassos@hotmail.com   Blog, http://odisseiadepenelope.zip.net/

  Licença Creative Commons

Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Jacineide Travassos no Cronópios.