Cronópios agradece - mesmo sendo de domínio público as duas obras de Bernardo Guimarães - a Fausto Prats, Romério Rômulo e Sebastião Nunes pelas atenções e autorizações concedidas, pois a transcrição dos textos e ilustrações foram feitas a partir do livro “Elixir do Pajé”, publicado em 1988 pela Edições DuBolso, Sabará, MG. Por conseguinte, Cronópios, em março de 2008, mês do terceiro aniversário do site, homenageia Bernardo Guimarães - falecido também no mês de março de 1884 - e os 20 anos de publicação do “Elixir do Pajé” pela Edições DuBolso.

Elixir do Pajé, Edições DuBolso, Sabará, MG, 1988, Ilustração de Fausto Prats
“D´um pinceau delicat l´artifice agréable du plus
hideux objetc fait un object aimable.“
Boileau
APRESENTAÇÃO DO PRÓPRIO AUTOR (DO PRÓPRIO AUTOR?)
No intuito de perpetuar estes versos de um poeta nosso bem conhecido, os fazemos publicar pela imprensa, que, sem dúvida, pode salvar do naufrágio do esquecimento poesias tão excelentes em seu gênero, e cuja perpetuidade alguns manuscritos, por aí dispersos e raros, não podem garantir das injúrias do tempo.
A lira do poeta mineiro tem todas as cordas; ele a sabe ferir em todos os tons e ritmos diferentes com mão de mestre.
Estas poesias podem se chamar erótico-cômicas. Quando B.G. escrevia estes versos inimitáveis, sua musa estava de veia para fazer rir, e é sabido que para fazer rir são precisos talentos mais elevados do que para fazer chorar.
Estes versos não são dedicados às moças e aos mineiros. Eles podem ser lidos e apreciados pelas pessoas sérias, que os encarem pelo lado poético e cômico, sem ofensas da moralidade e nem tão pouco das consciências pudicas e delicadas.
Repugnam-nos os contos obscenos e imundos, quando não têm o perfume da poesia; esta, porém, encontrará acesso e acolhimento na classe dos leitores de um gosto delicado e no juízo será um florão de mais juntado à coroa de poeta que B.G. tem sabido conquistar pela força de seu gênio.
Ouro Preto, 7 de maio de 1875.

Ilustração - Fausto Prats
ELIXIR DO PAJÉ
Que tens, caralho, que pesar te oprime
que assim te vejo murcho e cabisbaixo
sumido entre essa basta pentelheira,
mole, caindo pela perna abaixo?
Nessa postura merencória e triste
para trás tanto vergas o focinho,
que eu cuido vais beijar, lá no traseiro,
teu sórdido vizinho!
Que é feito desses tempos gloriosos
em que erguias as guelras inflamadas,
na barriga me dando de contínuo
tremendas cabeçadas?
Qual hidra furiosa, o colo alçando,
co`a sanguinosa crista açoita os mares,
e sustos derramando
por terras e por mares,
aqui e além atira mortais botes,
dando co`a cauda horríveis piparotes,
assim tu, ó caralho,
erguendo o teu vermelho cabeçalho,
faminto e arquejante,
dando em vão rabanadas pelo espaço,
pedias um cabaço!
Um cabaço! Que era este o único esforço,
única empresa digna de teus brios;
porque surradas conas e punhetas
são ilusões, são petas,
só dignas de caralhos doentios.
Quem extinguiu-te assim o entusiasmo?
Quem sepultou-te nesse vil marasmo?
Acaso pra teu tormento,
indefluxou-te algum esquentamento?
Ou em pívias estéreis te cansaste,
ficando reduzido a inútil traste?
Porventura do tempo a dextra irada
quebrou-te as forças, envergou-te o colo,
e assim deixou-te pálido e pendente,
olhando para o solo,
bem como inútil lâmpada apagada
entre duas colunas pendurada?
Caralho sem tensão é fruta chocha,
sem gosto nem cherume,
lingüiça com bolor, banana podre,
é lampião sem lume,
teta que não dá leite,
balão sem gás, candeia sem azeite.
Porém não é tempo ainda
de esmorecer,
pois que teu mal ainda pode
alívio ter.
Sus, ó caralho meu, não desanimes,
que ainda novos combates e vitórias
e mil brilhantes glórias
a ti reserva o fornicante Marte,
que tudo vencer pode co`engenho e arte.

Ilustração – Fausto Prats
Eis um santo elixir miraculoso
que vem de longes terras,
transpondo montes, serras,
e a mim chegou por modo misterioso.
Um pajé sem tesão, um nigromante
das matas de Goiás,
sentindo-se incapaz
de bem cumprir a lei do matrimônio,
foi ter com o demônio,
a lhe pedir conselho
para dar-lhe vigor ao aparelho,
que já de encarquilhado,
de velho e de cansado,
quase se lhe sumia entre o pentelho.
À meia-noite, à luz da lua nova,
co`os manitós falando em uma cova,
compôs esta triaga
de plantas cabalísticas colhidas,
por suas próprias mãos às escondidas.
Esse velho pajé de pica mole,
com uma gota desse feitiço,
sentiu de novo renascer os brios
de seu velho chouriço!
E ao som das inúbias,
ao som do boré,
na taba ou na brenha,
deitado ou de pé,
no macho ou na fêmea
de noite ou de dia,
fodendo se via
o velho pajé!
Se acaso ecoando
na mata sombria,
medonho se ouvia
o som do boré
dizendo: - "Guerreiros,
ó vinde ligeiros,
que à guerra vos chama
feroz aimoré",
- assim respondia
o velho pajé,
brandindo o caralho,
batendo co`o pé:
- “Mas neste trabalho,
dizei, minha gente,
quem é mais valente,
mais forte quem é?
Quem vibra o marzapo
com mais valentia?
Quem conas enfia
com tanta destreza?
Quem fura cabaços
com mais gentileza?"
E ao som das inúbias,
ao som do boré,
na taba ou na brenha,
deitado ou de pé,
no macho ou na fêmea,
fodia o pajé.
Se a inúbia soando
por vales e outeiros,
à deusa sagrada
chamava os guerreiros,
de noite ou de dia,
ninguém jamais via
o velho pajé,
que sempre fodia
na taba na brenha,
no macho ou na fêmea,
deitando ou de pé,
e o duro marzapo,
que sempre fodia,
qual rijo tacape
a nada cedia!
Vassoura terrível
dos cus indianos,
por anos e anos,
fodendo passou,
levando de rojo
donzelas e putas,
no seio das grutas
fodendo acabou!
E com sua morte
milhares de gretas
fazendo punhetas
saudosas deixou...

Ilustração – Fausto Prats
Feliz caralho meu, exulta, exulta!
Tu que aos conos fizeste guerra viva,
e nas guerras de amor criaste calos,
eleva a fronte altiva;
em triunfo sacode hoje os badalos;
alimpa esse bolor, lava essa cara,
que a Deusa dos amores,
já pródiga em favores
hoje novos triunfos te prepara,
graças ao santo elixir
que herdei do pajé bandalho,
vai hoje ficar em pé
o meu cansado caralho!
Vinde, ó putas e donzelas,
vinde abrir as vossas pernas
ao meu tremendo marzapo,
que a todas, feias ou belas,
com caralhadas eternas
porei as cricas em trapo...
Graças ao santo elixir
que herdei do pajé bandalho,
vai hoje ficar em pé
o meu cansado caralho!
Sus, caralho! Este elixir
ao combate hoje te chama
e de novo ardor te inflama
para as campanhas do amor!
Não mais ficará à-toa,
nesta indolência tamanha,
criando teias de aranha,
cobrindo-te de bolor...
Este elixir milagroso,
o maior mimo na terra,
em uma só gota encerra
quinze dias de tesão...
Do macróbio centenário
ao esquecido marzapo,
que já mole como um trapo,
nas pernas balança em vão,
dá tal força e valentia
que só com uma estocada
põe a porta escancarada
do mais rebelde cabaço,
e pode em cento de fêmeas
foder de fio a pavio,
sem nunca sentir cansaço...
Eu te adoro, água divina,
santo elixir da tesão,
eu te dou meu coração,
eu te entrego a minha porra!
Faze que ela, sempre tesa,
e em tesão sempre crescendo,
sem cessar viva fodendo,
até que fodendo morra!

Ilustração – Fausto Prats
Sim, faze que este caralho,
por tua santa influência,
a todos vença em potência,
e, com gloriosos abonos,
seja logo proclamado,
vencedor de cem mil conos...
E seja em todas as rodas,
d`hoje em diante respeitado
como herói de cem mil fodas,
por seus heróicos trabalhos,
eleito - rei dos caralhos!
INTRODUÇÃO/PREFÁCIO
Por Romério Rômulo
“Eu sou aquele bardo
Que chamam doutor Bernardo” (De um bilhete)
“Capetinhas trepados nos galhos
Com o rabo enrolado no pau,
Uns agitam sonoros chocalhos,
Outros põem-se a tocar marimbau.” (A Orgia dos Duendes)
“Capetinhas trepados nos galhos
com o rabo enrolado no pau,
uns agitam sonoros caralhos,
outros põem-se a tocar marimbau. “ (Versão pajeica)
I - BERNARDO: VIDA, PAIXÃO E MORTE: VIA CRUCIS
VIDA
Bernardo Joaquim da Silva Guimarães do Casarão do Alto das Cabeças, muitas roladas, expostas, sobrepostas. A trolha que meteu não é qualquer: é pajé pisado pelo tempo lamentando clitóris. O índio d´I-Juca Pirama é bravo, é forte, tem canto de morte. Cumpre ao pajé – Bernardo, eu vi! – não se perde não só imposição do tempo. Cabe tratar-se, em elixir e rima, pra ficar: arriba!
Filho de poeta, João Joaquim da Silva Guimarães e Constança Beatriz fizeram-no ao mundo: Ouro Preto, 1825, agosto 15. Desbravou sertões: Uberaba, Triângulo Mineiro. Num tempo, quase: 1829/1842.
Companheiro de Álvares de Azevedo e Aureliano Lessa, na terra santa paulista, direito na faculdade. Desvario e moçoilas na Paulicéia? Quando, diz Basílio de Magalhães: “a juventude acadêmica, que referia à aridez das Pandectas, aos ranços das teorias do Lobão e dos textos do Código Filipino o namorar as lindas filhas da Paulicéia, o entoar-lhe endechas lamuriosas em serenatas por noites enluaradas, o pedir ao álcool mais fogo para o estro ou lenitivo a mágoas de amor, reais umas e imaginárias outras.”
O triunvirato, como outros triúnviros, estudantes, monta a Sociedade Epicuréia. Na casa do bardo, às quartas e não às sextas-feiras, uma ceia escolástica, alguém deitava o seu bestialógico. Basílio de Magalhães que cita Couto Magalhães que cita a memória dos estudantes: de Bernardo “trepado numa cadeira, fluia este (pantagruélico) prontamente de seus lábios:”
“Com grande desgosto dos povos da Arábia
Vieram os bonzos da parte de além,
Comendo presunto e empadas de trigo,
Sem ter um vintém.”
Afirmo: Zé Limeira, 1886 a 1954, leu Bernardo. Podia não ler saber, mas leu. Guimarães Silva (da) Joaquim Bernardo: pelas avessas no nome, na vida. Ermitão (do Muquém), Seminarista, Garimpeiro. Outros que tantos e outra vez Bernardo: Isaura, a Escrava televisada e vista em muito mundo.
Bernardo de seis filhos e duas outras. Tão escritores Guimarães: filhos, irmãos, primos, pais. Guimarães escritores: um país. Romântico, bandalho. Por que não revê-lo integral? O pajé de Bernardo é a insuficiência pátria das elites: perda de tesão em busca de elixir. É a pátria de elites, insuficiente, não lhe mostrou alturas. Por moral esquálida, anêmica.
Alphonsus de Guimaraens Filho, dezembro de 1958, R.J., em introdução às Poesias Completas de Bernardo:
“Lá o fomos buscar para esta edição, que só não apresenta, como é óbvio, os poemas eróticos de Bernardo Guimarães”.
Que não mais este pajé silencie. São 110 linhas de sussurro do pajé nas gavetas iniciadas. Com necessidade de sua explosão em elixir de todos.
Trilhou Goiás: juiz municipal e de órfãos do termo de Catalão. 1861, ali, no direito de juiz, “convocou antes do tempo legal uma sessão de júri, apiedado da situação dos presos, devido ao mau tratamento que recebiam. Compareceram onze réus, unanimemente absolvidos, o que valeu ao poeta um processo movido pelo Dr. José Martins Pereira de Alencastre, presidente da província. Caindo o gabinete de Caxias, deixou José Martins Pereira de Alencastre o governo de Goiás. O processo contra o juiz municipal de Catalão deu em ´água de barrela´, e, triunfante com a sua facção, pode B.G. permanecer ali até fins de 1863”. Seu José Martins Pereira de Alencastre: com bardo e pajé não se brinca!
PAIXÃO
Bernardo velúdico, melodia:
“Vem meu querido amor, vem reclinar-te
Neste viçoso leito, que a natura
Para nós recamou de musgo e flores
Em diáfanas sombras escondido.”
O pajé retumba:
“em negra podridão imundos vermes
roam-te sempre a crica,
e à vista dela sinta-se banzeira
a mais valente pica!”
Quem vale?
“Sondar quem pode os cândidos mistérios
De um peito virginal?”
Enquanto o Bernardo, bardo, convida ao reclinar-se em musgo e flores, o Bernardo, pajé ensolarado, na noite tropical, ribomba a pomba, recomposta por elixires nunca dantes trepados. Trepar é preciso que os mares abundam, dirá o pajé bandalho. Mostrando a rima fácil. Com mais trepares.
No “Primeiro Sonho de Amor”, o bardo:
“Com sonhos dourados, que os anjos te inspiram
Embala, ó donzela, teu vago pensar,
São castos mistérios de amor que no seio
Te vêm murmurar:
Sim, deixa pairarem na mente estes sonhos,
São róseos vapores, que os teus horizontes
Enfeitam risonhos:
São vagos anelos... mas ah! Quem te dera
Que nesses teus sonhos de ingênuo cismar
A voz nunca ouvisse, que vem revelar-te
Que é tempo de amar.
Pois sabe, ó donzela, que as nuvens de rosa
Que pairam nos ares, às vezes encerram
Tormenta horrorosa.”
O pajé concorda? Há resposta:
“Vinde, ó putas e donzelas
vinde abrir as vossas pernas”
A paixão é varia, desvairada:
“Vê que contraste do horror:
Tu comendo marmelada,
E eu cantando, aqui, na escada,
Lembranças do nosso amor!”
“Mulher, a lei do meu fado
É o desejo em que vivo
De comer um peixe esquivo
Inda que seja ensopado.
Sinto meu corpo esfregado
E coberto de bolor...
Meu Deus! Como faz calor!
Ai! Que me matam, querida,
Saudade da Margarida,
Lembranças de Leonor!”
Seu cavalo tomado de elixir:
“E o bando das selváticas amantes
Em torno arrebanhadas,
O colo luzidio
Airosas recurvando,
A crina ao vento dando,
Tu conduzias, rei das solidões,
Pelos infindos, verdes chapadões.”
MORTE
“Oh! Feliz quadra! – então eu não sentia
Roçar-me pela fronte
A asa do tempo estragadora e rápida.”
O pajé lamenta e busca elixires, pela “asa do tempo estragadora e rápida” a roçar-lhe a fronte. E a roçar-lhe a frente, conas. E a roçar-lhe tudo, tudo.
“Mas o silêncio que nos campos reina,
É como o nada – fúnebre e profundo.”
Março, 10, 1884, recolhem-se bardo e pajé. Silencioso, no casarão do Alto das Cabeças:
“Morre o poeta, a lira se espedaça
De encontro à pedra da fúnebre lousa;
Mas não morre a poesia.”
Com voz de silogismo fala, de sepultar:
“Eu vi dos pólos o gigante alado,
Sobre um montão de pálidos coriscos,
Sem fazer caso dos bulcões ariscos,
Devorando em silêncio a mão do fado!
Quatro fatias de tufão gelado
Figuravam da mesa entre os petiscos;
E, envolto em manto de fatais rabiscos,
Campeava um sofisma ensangüentado!
- Quem és, que assim me acerca de episódios?
Lhe perguntei, com voz de silogismo,
Brandindo um facho de trovões seródios.
- Eu sou - me disse - aquele anacronismo
Que a vil coorte de sulfúreos ódios
Nas trevas sepultei de um solecismo...
No pó do cemitério:
“E esta?! – comecei sobre este assunto
Um canto joco-sério:
Eis senão quando vejo-me envolvido
No pó do cemitério!...”
II – BERNARDO: BARDO ROMÂNTICO: PAJÉ DESCOMPOSTO: O MÊNSTRUO CONSTRUÍDO: ELIXIR E DÚVIDA
“Por mim, reclamaria maior atenção para Bernardo Guimarães, cujo ´O Devanear do Cético´é um dos poemas mais importantes do romantismo”: Bandeira, Manuel.
“Talvez se possa dizer que a sua obra poética proporciona, em conjunto, a sensação de que estamos diante de um romântico em quem o famoso ´mal do século´, atingindo-o embora, não pode dominar a capacidade de reagir à tristeza mórbida, pelo humorismo...”: Alphonsus de Guimaraens Filho.
O devaneio cético:
“Um eco só da profundez do vácuo
Pavoroso retumba e diz – dúvida...”
O velho pajé talvez des-consertasse:
“Sus, ó caralho meu, não desanimes,
que inda novos combates e vitórias”
O pajé crê: busca o elixir, se recompõe à luta:
“Quem conas enfia
com tanta destreza?
Quem fura cabaços
Com mais gentileza?”
Abrasador, capta o mênstruo, novo elixir:
“Da nacarada cona, em sutil fio,
corre purpúrea veia,
e o nobre sangue do divino cono
as águas purpureia...
(É fama que quem bebe dessas águas
jamais perde a tesão
e é capaz de foder noites e dias
até no cu de um cão!)”
BERNARDO: PAJÉ DESCOMPOSTO
Trançou molecagens e ironias Bernardo. Sarcasmo revirado. “Dilúvio de papel”, um sonho, é exemplo. A musa, sua, o descompõe:
“que vejo? Junto ao meu lado
Um desertor do Parnaso,
Que da lira, que doei-lhe
Faz hoje tão pouco caso,
Que a deixa pendurada numa brenha
como se fosse rude pau de lenha?!
....................................................
Ingrato! Ao ver-te, sinto tal desgosto
....................................................
Em vão estafo os bofes
Sem poder regular minhas estrofes.”
Bernardo fustiga a musa e diz de seu canto:
“O travesso regato de seu curso
Quase que se esqueceu.”
As pernas música não escapam:
“Se soubesses dançar, oh! que fortuna!
Com essas bem moldadas, lindas pernas,
Teríamos enchentes caudalosas
Entre ovações eternas.”
À musa:
“Esse ofício que ensinas já não presta;
Vai tocar tua lira em outras partes;
Que aqui nestas paragens só tem voga
Comércio, indústria e artes.”
Profeta?
III - BERNARDO: ESCRITOR DA GERAES, MINAS, BRASIL – GERAES, MINAS, BRASIL: BERNARDO ECOLÓGICO: PAJÉ
“...Lá onde a natureza
Bela e virgem se mostra aos olhos do homem,
Qual moça indiana que as ingênuas graças
Em formosa nudez sem arte ostenta!...”
Indiana a moça, sem arte, ostenta em formosa nudez as ingênuas graças. O pajé iria contemplá-la ou reduzi-la, nos seus (dele) termos, a receptora de seu (dele) dotes em elixires?
Bernardo vê a pátria brasílica como recuperação possível do Éden:
“... bem fadada sejas
Em teu destino, ó pátria; - em ti recobre
A prole de Eva o Éden que perdera!”
Respondo:
“Visses, Bernardo, tua pátria, Minas,
tua Ouro Preto: o Éden dissipado!”
Realidade, teu nome é Bernardo:
“Onde se cuida ouvir, entre os suspiros
Da folha que estremece, os ais carpidos
Dos manes do indiano, que inda chora
O doce Éden que os brancos lhe roubaram!
Que é feito pois dessas guerreiras tribos,
Que outrora estes desertos animavam?
............................................................
Oh! floresta – que é feito de teus filhos?
Calaram-na para sempre nessas grutas
Os proféticos cantos do piaga.”
Bernardo revitaliza o piaga, piajé, pajé. Tanto o revitaliza que só seu elixir (ele cansado pelos brancos, de há muito) faz reviver conas e ânus.
Fala Bernardo: o nativo não ergueu pirâmides, mármores, bronzes, celebradores de façanha do guerreiro; as relíquias: ossos, tacapes, crânios, tabas, vestígios das ocaras.
“Eis as relíquias que recordam feitos
Do forte lidador da rude selva.”
E vai:
“De virgem mata a sussurrante cúpula.”
Ao que responderia o pajé:
“de virgem mata a sussurrante cópula.”
E vai:
“Ou gruta escura disputada às feras.”
O pajé:
“ou cona escura disputada às feras.”
Ecológico:
“Oh! floresta, que é feito de teus filhos?
Esta nudez profunda dos desertos
Um crime – bem atroz! – nos denuncia.
O extermínio, o cativeiro, a morte
Para sempre varreu de sobre a terra
Essa mísera raça – mas ficou-lhes
Um canto ao menos onde em paz morressem!”
Desaparece a raça. Bernardo vê a mão escrava pulsando golpes:
“... – Lá vem o escravo
Brandindo o ferro que dá morte às selvas.”
As estruturas ruem:
“Assim vão baqueando uma após outra
Das florestas as colunas venerandas
......................................................
Aí jazem, como ossadas de gigantes,
Que num dia de cólera prostara
O raio do Senhor.”
Final:
“... Oh! Mais terrível
Que o raio, que o dilúvio, o rubro incêndio
Vem consumar esta obra deplorável...”
“Tudo é cinza e ruína – tudo é morto!”
Por onde andará o pajé na busca de ervas? Os velhos estarão encarquilhados para o eterno. Caralhos cabisbaixos resvalarão entre pernas sem esperanças. Bernardo se ergue, moderno, novo, que sempre há elixir para o pajé:
“Tempo virá em que nessa valada
Onde flutua a coma da floresta
Linda cidade surja, branquejando...”
Algo entre a coma da floresta, virgem, e a cona da floresta, devastada? E... revolução!:
“...Em algum lugar desse brando rumorejo
Aí murmurará a voz do povo!”
Uma reminiscência, possível:
“Dos bosques teus, de tua rude infância
Talvez terás saudade.”
BERNARDOLOGIA DE DUENDES: O PAJÉ MAIS QUE BRASÍLICO
Bernardo avança. O pajé mata a cobra, mostra o pau- brasil. Orgíaco de duendes nativos.
A ORGIA DOS DUENDES

Ilustração - Fausto Prats
I
Meia-noite soou na floresta
No relógio de sino de pau;
E a velhinha, rainha da festa,
Se assentou sobre o grande jirau.
Lobisome apanhava os gravetos
E a fogueira no chão acendia,
Revirando os compridos espetos,
Para a ceia da grande folia.
Junto dele um vermelho diabo
Que saíra do antro das focas,
Pendurado num pau pelo rabo,
No borralho torrava pipocas.
Taturana, uma bruxa amarela,
Resmungando com ar carrancudo
Se ocupava em frigir na panela
Um menino com tripa e tudo.
Getirana com todo o sossego
A caldeira da sopa adubava
Com o sangue de um velho morcego,
Que ali mesmo co´as unhas sangrava.
Mamangava frigia nas banhas
Que tirou do cachaço de um frade
Adubado com pernas de aranhas,
Fresco lombo de um frei dom abade.
Vento sul sobiou na cumbuca,
Galo-preto na cinza espojou;
Por três vezes zumbiu a mutuca,
No cupim o macuco piou.
E a rainha co´as mãos ressequidas
O sinal por três vezes foi dando,
A corte das almas perdidas
Desta sorte ao batuque chamando:
“Vinde, ó filhas do oco do pau,
Lagartixas do rabo vermelho,
Vinde, vinde tocar marimbau,
Que hoje é festa de grande aparelho.
Raparigas do monte das cobras,
Que fazeis lá no fundo da brenha?
Do sepulcro trazei-me as abobras,
E do inferno os meus feixes de lenha.
Ide já procurar-me a bandurra
Que me deu minha tia Marselha,
E que aos ventos da noite sussurra,
Pendurada no arco-da-velha.
Onde estás, que inda aqui não te vejo,
Esqueleto gamenho e gentil?
Eu quisera acordar-te c´um beijo
Lá no teu tenebroso covil.
Galo-preto da torre da morte,
Que te aninhas em leito de brasas,
Vem agora esquecer tua sorte,
Vem-me em torno arrastar tuas asas.
Sapo-inchado, que moras na cova
Onde a mão do defunto enterrei,
Tu não sabes que hoje é lua nova,
Que é dia das danças da lei?
Tu também, ó gentil Crocodilo,
Não deplores o suco das uvas;
Vem beber excelente restilo
Que eu do pranto extraí das viúvas.
Lobisome, que fazes, meu bem,
Que não vens ao sagrado batuque?
Como tratas com tanto desdém,
Quem a c´roa te deu de grão-duque?”
II
Mil duendes dos antros saíram
Batucando e batendo matracas,
E mil bruxas uivando surgiram,
Cavalgando em compridas estacas.
Três diabos vestidos de roxo
Se assentaram aos pés da rainha,
E um deles, que tinha o pé coxo,
Começou a tocar campainha.
Campainha, que toca, é caveira
Com badalo de casco de burro,
Que no meio da selva agoureira
Vai fazendo medonho sussurro.
Capetinhas, trepados nos galhos
Com o rabo enrolado no pau,
Uns agitam sonoros chocalhos,
Outros põem-se a tocar marimbau.
Crocodilo roncava no papo
Com ruído de grande fragor:
E na inchada barriga de um sapo
Esqueleto tocava tambor.
Da carcaça de um seco defunto
E das tripas de um velho barão,
De uma bruxa engenhosa o bestunto
Armou logo feroz rabecão.
Assentado nos pés da rainha
Lobisome batia a batuta
Co´a canela de um frade, que tinha
Inda um pouco de carne corruta.
Já ressoam timbales e rufos,
Ferve a dança do cateretê;
Taturana, batendo os adufos,
Sapateia cantando – o lê rê!
Getirana, bruxinha tarasca,
Arranhando fanhosa brandurra,
Com tremenda embigada descasca
A barriga do velho Caturra.
O Caturra era um sapo papudo
Com dous chifres vermelhos na testa,
E era ele, a despeito de tudo,
O rapaz mais patusco da festa.
Já no meio da roda zurrando
Aparece a mula-sem-cabeça,
Bate palmas, a súcia berrando
- Viva, viva Sra. Condessa!...
E dançando em redor da fogueira
Vão girando, girando sem fim;
Cada qual uma estrofe agoureira
Vão cantando alternados assim:
III
TATURANA
Dos prazeres de amor as primícias,
De meu pai entre os braços gozei;
E de amor as extremas delícias
Deu-me um filho, que dele gerei.
Mas se minha fraqueza foi tanta,
De um convento fui freira professa;
Onde morte morri de uma santa;
Vejam lá, que tal foi esta peça.
GETIRANA
Por conselhos de um cônego abade
Dous maridos na cova soquei;
E depois por amores de um frade
Ao suplício o abade arrastei.
Os amantes, a quem despojei,
Conduzi das desgraças ao cúmulo,
E alguns filhos, por artes que sei,
Me caíram do ventre no túmulo.
GALO-PRETO
Como frade de um santo convento
Este gordo toutiço criei;
E de lindas donzelas um cento
No altar da luxúria imolei.
Mas na vida beata de ascético
Mui contrito rezei, jejuei,
Té que um dia de ataque apoplético
Nos abismos do inferno estourei.
ESQUELETO
Por fazer aos mortais crua guerra
Mil fogueiras no mundo ateei;
Quantos vivos queimei sobre a terra,
Já eu mesmo contá-los não sei.
Das severas virtudes monásticas
Dei no entanto piedosos exemplos;
E por isso cabeças fantásticas
Inda me erguem altares e templos.
MULA-SEM-CABEÇA
Por um bispo eu morria de amores,
Que afinal meus extremos pagou;
Meu marido, fervendo em furores
De ciúmes, o bispo matou.
Do consórcio enjoei-me dos laços,
E ansiosa quis vê-los quebrados,
Meu marido piquei em pedaços,
E depois o comi aos bocados.
Entre galas, veludo e damasco
Eu vivi, bela e nobre condessa;
E por fim entre as mãos do carrasco
Sobre um cepo perdi a cabeça.
CROCODILO
Eu fui papa; e aos meus inimigos
Para o inferno mandei c´um aceno;
E também por servir aos amigos
té nas hóstias botava veneno.
De princesas cruéis e devassas
Fui na terra constante patrono;
Por gozar de seus mimos e graças
Opiei aos maridos sem sono.
Eu na terra vigário de Cristo,
Que nas mãos tinha a chave do céu,
Eis que um dia de um golpe imprevisto
Nos infernos caí de boléu.
LOBISOME
Eu fui rei, e aos vassalos fiéis
Por chalaça mandava enforcar;
E sabia por modos cruéis
As esposas e filhas roubar.
Do meu reino e de minhas cidades
O talento e a virtude enxotei;
De michelas, carrascos e frades
De meu trono os degraus rodeei.
Com o sangue e suor de meus povos
Diverti-me e criei esta pança,
Para enfim, urros dando e corcovos,
Vir ao demo servir de pitança.
RAINHA
Já no ventre materno fui boa;
Minha mãe, ao nascer, eu matei;
E a meu pai, por herdar-lhe a coroa
Em seu leito co´as mãos esganei.
Um irmão mais idoso que eu,
C´uma pedra amarrada ao pescoço,
Atirado às ocultas morreu
Afogado no fundo de um poço.
Em marido nenhum achei jeito;
Ao primeiro, o qual tinha ciúmes,
Uma noite co´as colchas do leito
Abafei para sempre os queixumes.
Ao segundo, da torre do paço
Despenhei por me ser desleal;
Ao terceiro por fim num abraço
Pelas costas cravei-lhe um punhal.
Entre a turba de meus servidores
Recrutei meus amantes de um dia;
Quem gozava meus régios favores
Nos abismos do mar se sumia.
No banquete infernal da luxúria
Quantos vasos aos lábios chegava,
Satisfeita aos desejos a fúria,
Sem piedade depois as quebrava.
Quem pratica proezas tamanhas
Cá não veio por fraca e mesquinha,
E merece por suas façanhas
Inda mesmo entre vós ser rainha.
IV
Do batuque infernal, que não finda,
Turbilhona o fatal rodopio;
Mais veloz, mais veloz, mais ainda
Ferve a dança como um corrupio.
Mas eis que no mais quente da festa
Um rebenque estalando se ouviu,
Galopando através da floresta
Magro espectro sinistro surgiu.
Hediondo esqueleto aos arrancos
Chocalhava nas abas da sela,
Era a Morte, que vinha de tranco
Amontoada numa égua amarela.
O terrível rebenque zunindo
A nojenta canalha enxotava;
E à esquerda e à direita zurzindo
Com voz rouca desta arte bradava:
“Fora, fora! Esqueletos poentos,
Lobisomes, e bruxas mirradas!
Para a cova esses ossos nojentos!
Para o inferno essas almas danadas!”
Um estouro rebenta nas selvas,
Que recendem com cheiro de enxofre;
E na terra por baixo das relvas
Toda a súcia sumiu-se de chofre.
V
E aos primeiros alhores do dia
Nem ao menos se viam vestígios
Da nefanda, asquerosa folia,
Dessa noite de horrendo prodígios.
E nos ramos saltavam as aves
Gorjeando canoros queixumes,
E brincavam as auras suaves
Entre as flores colhendo perfumes.
E na sombra daquele arvoredo,
Que inda há poucos viu tantos horrores,
Passeando sozinha e sem medo
Linda virgem cismava de amores.
IV - BERNARDO: VISÃO DE UM PAJÉ CAPENGA: ESTERTOR GERAL: FINAL
Bêbado de elixir e mêsntruo, capenga, um novo pajé resmunga:
Sou um pajé constipado
sou um pajé conturbado
sou um pajé contra-bardo
guerreiro da criação
de volúpias nas donzelas
fazidas de ervas, elas
emprenhadas ficarão.
Zé Limeira, camarada,
a tua filosomia,
companheira desterrada
do pajé, bernardaria
se bernardo bernadasse
e os quelé juveniasse
por trepar na escadaria.
Irreverente, traquina
sem pensar em heroína
remete ódio serôdio.
menestrel e menos tal
carretel, corda vocal
inconstante determina
aguardante com resina
prodológico fascina
poesia fescenina.
“essa risonha verdura
esses bosques, rios, montes,
campina, flores, perfumes,
sombrias grutas e fontes?”
o pajé de picadura
traça conas em cardumes
acende 32 lumes
prodologicadamente
em madre-de-deus-do-angu
mandando comer só cru
quem pensa que deus tem madre
quem pensa no angu de deus
se quiser que faça os seus
50 nomes do padre
cortando, com ou sem sabre
o caralho de Mateus
lenga lenga lenga len
ga lenga lenga lenga
...........................................................
Final: o melhor sobre Bernardo é repeti-lo.

Bernardo José da Silva Guimarães (Ouro Preto/MG). Nasceu na Imperial Cidade de Ouro Preto, MG, no dia 15 de agosto de 1825. Grande romancista, poeta e jornalista, é uma das mais representativas figuras da literatura brasileira. Publicou: Cantos da Solidão, São Paulo, SP, 1852; Poesias, Rio de Janeiro, RJ, 1865; O Ermitão de Muquém, Rio de Janeiro, RJ, 1869; Lendas e Romances, Rio de Janeiro, RJ, 1871; O Garimpeiro, Rio de Janeiro, RJ, 1872; O Seminarista, Rio de Janeiro, RJ, 1872; Elixir do Pajé, Ouro Preto, MG, 1875; A Escrava Isaura, Rio de Janeiro, RJ, 1875; Novas Poesias, Rio de Janeiro, RJ, 1876; Maurício, Rio de Janeiro, RJ, 1897; A Ilha Maldita e O Pão de Ouro, Rio de Janeiro, RJ, 1879; Rosaura, a Enjeitada, Rio de Janeiro, RJ, 1883; Folhas de Outono, Rio de Janeiro, RJ, 1883; O Bandido do Rio das Mortes, Belo Horizonte, MG, 1905. Faleceu no dia 10 de março de 1884.
Romério Rômulo (Ouro Preto/MG). Nasceu em Felixlândia, MG. É professor de Economia Política da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e um dos fundadores do Instituto Cultural Carlos Scliar (Ouro Preto, MG). Prefaciou a primeira edição assinada das poesias eróticas de Bernardo Guimarães, O Elixir do Pajé (Edições Dubolso, Sabará, MG 1988), mais de 100 anos depois da edição original (texto acima). Até então todas eram clandestinas. Publicou vários livros de poesia, entre eles Bené para Flauta e Murilo (1990), caixa Tempo Quando (4 livros em 2 volumes, 1996) e Matéria Bruta (Editora Altana, São Paulo, SP, 2006). romerioromulo@hotmail.com