A Arte do Zajal faz parte dos estudos de poética árabe, da qual é parte extensível o poema “zajal” (ou zejel), representado à perfeição no esplêndido Diwán Ibn-Quzmán Alqúrtubi, todo ele escrito no dialeto árabe-andalusino do século XII. Fruto estrito das oficinas literárias de Alandalus, o “zajal” consiste no gênero cortês de cunho mais popularizante que a poesia medieval concebeu. Tudo nele é riso, diversão, coqueteria, humor, mas também ensinamento, sátira, elogio, pedido ou retribuição de favores, orgulho e autopromoção.
Identificada como a expressão do próximo-distante, familiar-estranho, fácil-difícil, obscuro-claro, essa poesia andalusina – rimada, metrificada e fundamentalmente estrófica – demonstra ter a sua motivação na grande poesia de Bagdá, portentoso olho d’água cultural do Oriente Médio. É a partir dali que se podem entender as feições evoluídas do “zajal”, remarcadas pela têmpera do meio que o engendrou na longínqua Península Ibérica. O Alandalus, território europeu povoado e regido por descendentes de árabes, sírios, berberes e toda sorte de conversos muladis, mesmo ocupando a ponta mais ocidental do mundo árabe-islâmico, nunca de fato se apartou da matriz Oriente: a ampla casa do Islã, desdobrada em grandes porções de terra e mar, estende um mesmo teto aos seus convivas.
“Casa de poesia”, na expressão dos árabes, mas também morada de linguagens, o verso “bayt” terá sido essencialmente a morada de todo árabe-muçulmano. Referencial perene daquela cultura, a inicialmente “qasida” pré-islâmica logo se aclimata às novas e sucessivas cortes islâmicas, passando a ser definida, por metáfora, como a “casa de dois cômodos”, com funções muito específicas: a ala do amor (seção anacreôntica) e a ala do elogio (seção panegírica), onde respectivamente se trama a intimidade e se fazem as honras.
Vitoriosa, tal distinção, que a “qasida” bagdali e o “zajal” andalusino assegurarão, cada qual a seu modo, comprova a unidade e a afinidade absoluta das letras árabes por toda a extensão do orbe islâmico medieval.
É deste universo que a presente obra trata. Devendo interessar a estudiosos da Cultura em geral, especialmente aos aficionados por Estudos Árabes e Islâmicos, ou por Oriente Médio.
Zajal ao vizir Abul-Ali Ibn-Zuhr
Ibn-Quzmán de Córdova
Tradução Michel Sleiman
disse sim porém depois se arrependeudo dano que me fez já não é mais réu
me disse sim e me disse não depoisque nunca o tinha dito jurou-me após negou o que sabia assim me dispôsa não mais crer no que me diz o donzel
ele disse depois e isso ainda é pioruma dessas noites fico a teu dispor mas eu mesmo vi como nega o favormorro sem o ver dar o que prometeu
eis-me aqui e no mar do abandono eu nadodeus te dê não ser amante abandonado por deus meu irmão que sou injustiçadoo injusto sabe a injustiça que exerceu
deixa o meu amado aceder e rompernisso ou naquilo algum proveito há de haver a era do agrado quiçá há de volvervarrer o enfado será encargo teu
hão de melhorar os sinais dos temposo amor hás de ver subjuga esquecimentos a harmonia sentará sobre o desdém e ojúbilo se sabe derrota o sofrer
o esquivar-se fugirá ante o encontroe a sorte ao desgosto torcerá o pescoço não se temará o censor que foi depostoquem delatar delate o azar será seu
noites e mais noites passei com o luarnos meus braços do crepúsculo ao raiar e a juventude voltou-me já senhorveio a riqueza a escassez se escafedeu
quem dera um alforje de ouro tinindoe uma jarra repleta de sangue tinto quem entra sairá comido e bebido e ovizinho senil cegou e emudeceu
não digam espia nada de lembrare nada de ajudar se ele precisar vira a cabeça pro lado evita olharum favor perdido é menos feio que ele
deus brinde meu espia com a prisãopobre e cego a vida lhe dure um montão morra herniado bicha judeu e cabrãosem outro recurso que xingar o céu
quando quero que se ausente não se ausentasepara amante e amado sua presença espia e dois amantes por deus que penacamisa com franjinhas me veda ver
cada um que vem diz eu sou zajalistaeu sou natural barbaridade admita como não sair o cobre da piritapobres coitados o povo ensandeceu
então tu te espantas e é de dar espantojuntaram-se ignorante e mau educando te vêm com burros de dar cria enquantome vês disparar meu árabe corcel
quem pra nada serve e nem sabe ter tratosse lê uma sura esquece mais de quatro inveja os olhos da vaca o patacoe a natureza se nega a tal talento
e como vês que tem isso de especialnão é de hoje te digo é antigo este mal cada um diz que é generoso e talnos moldes de Ibn-Zuhr molde que é só seu
o que é para mim mais que estranho distantecada qual diz o que quer a seu talante cada um como vês se aumenta em desplantecontra o tagarela não fizeram lei
vizir da eminência íris dos temposveste do peregrino a todo momento doce sabor em toda boca é ungüentoforça da alma quem pensa em ti enalteceu
pensas que alguém pode a ti se equipararna elevação e na prodigalidade não por deus meu irmão não há coisa talisto eu juro em maior juramento a deus
tuas são a glória a altura e a prudênciateus são o brilho o talento e a valência teus o rigor a convicção e a servênciatua a lealdade ao que se subscreveu
tua a benevolência quando é precisona generosidade és o mais preciso distinto distinguem-te o novo o antigo em ti o órfão encontra o pai que perdeu
enfrentas os casos com braços dos fortesdistendes os passos se o requer a sorte pressentes o fato antes que se denotedepois de emplumar a flecha a arremeteu
herói a quem se deve chamar heróiquem sempre que pesa deixa iguais os dois quem se promete não deixa pra depoisgeneroso que [...]
quem concentrou toda forma de eloqüênciae é o primeiro na disputa das ciências às vezes toma o livro às vezes a lançaacertou a razão sempre que escreveu
aquele que quando desde longe atacafinca as esporas e o metal abraça quem nos ataca já virou a casacae escravas quem antes gritava escarcéu
orgulhosa está entre todas Sevilhae te ama e que espécie de amor te dedica mão alguma te toca a fama inauditapé algum ousou poeira ante teu tropel
quem te procura procura o teu amorte buscam se alegram em ti como for teu nome amamos nome de esplendordeus nos guarde o nome que te mereceu
meu irmão tu és vizir o resto é escóriaquem se opõe a ti não bate da memória te temem se não o erro moldava a histórianem o corvo ousa cruzar sagrado céu
não carece abrir o olho pelo inimigopior quem é pior que ruína e dívida digo esse que anda cabisbaixo murchouvidocomo besta de leprosos manco e doente
te visitaria mas tem este agravosempre que aí vou escuto está ocupado e eu sou como dizem naquele ditadosê inteiro nem que sejas carvoeiro
como ficar sem ti como sem ti me honrovoltarei pra tentar outra vez o encontro pois é, rapaz, de ditados tem este outropassou mal o rapaz abusou do mel
como vês sou um homem com duas pernas pintopar de braços de mãos e de orelhas barba loira e órbitas azuis parelhascomo e tomo água pra ajudar o descenso
versos de “muacha”e “qasida”escrevominha letra é firme como o pão caseiro capricho no sád capricho de padeirocom marcas de vogal as letras enfeito
é o néscio quem mais se parece ao escribana mão um cadernão dentro leva a tinta se lembra dos pontos esquece as letrinhassó mesmo mostrando pra ele a tabela
dizem escreve: à cidade de Aragãoe ele escreve avancemos ao granão aumenta até mais não dar a letra núnmeia pluma afunda no algodão batel
é meu irmão minha obra é nobre e nataergo o traço ao zá não troco o dád por nada a voz peregrina à minha língua acatae a “muacha” [...]
quando algo escrevo o que de mim verásmagia espalhada cerne das palavras números registro acerto com tabuadasse perguntam quanto mostro quanto deu
quero meu senhor quando for pra te verque ninguém me barre se entram este e aquele a quem mais na Península recorrerdeus guardou tua casa as outras abateu
olha este “zajal” em bom papel escritopalavras gentis e a letra é de perito que gazel eu te fiz e que panegíricopor deus senhores que eu bordei o papel
meu peito está cheio de gozo e alegriaagora eu regozijo o jurar me obriga vizir quem te vê e não dissipe a fadigadeus lhe ponha nos bagos pulgas de arder
quando eu for por algo que esteja temendopra tua casa não me façam sair correndo tô pelado me dá roupa não tá vendo abondade glorifica a graça alimenta
eu te elogiarei com toda língua humanaestes zajais como vês são da pesada os teus servos somos os Banú-Quzmán etu és como és ninguém nega teu direito
Deus só alegria a teus dias há de pôrfelicidade é que assinta o amador aos teus inimigos carnaval de dore deus maldiga a quem não me diga amém
Confira o lançamento:
Michel Sleiman é professor de Língua e Literatura Árabe da Universidade de São Paulo, onde dirige a Revista Tiraz de Estudos Árabes e das Culturas do Oriente Médio. É autor de A poesia árabe-andaluza: Ibn Quzman de Córdova (2000).E-mail: michel.sleima@globo.com
Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Michel Sleiman no Cronópios.