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7/4/2008 12:47:00
A arte do Zajal



Por Michel Sleiman

 

 

A Arte do Zajal faz parte dos estudos de poética árabe, da qual é parte extensível o poema “zajal” (ou zejel), representado à perfeição no esplêndido Diwán Ibn-Quzmán Alqúrtubi, todo ele escrito no dialeto árabe-andalusino do século XII. Fruto estrito das oficinas literárias de Alandalus, o “zajal” consiste no gênero cortês de cunho mais popularizante que a poesia medieval concebeu. Tudo nele é riso, diversão, coqueteria, humor, mas também ensinamento, sátira, elogio, pedido ou retribuição de favores, orgulho e autopromoção.

Identificada como a expressão do próximo-distante, familiar-estranho, fácil-difícil, obscuro-claro, essa poesia andalusina – rimada, metrificada e fundamentalmente estrófica – demonstra ter a sua motivação na grande poesia de Bagdá, portentoso olho d’água cultural do Oriente Médio. É a partir dali que se podem entender as feições evoluídas do “zajal”, remarcadas pela têmpera do meio que o engendrou na longínqua Península Ibérica. O Alandalus, território europeu povoado e regido por descendentes de árabes, sírios, berberes e toda sorte de conversos muladis, mesmo ocupando a ponta mais ocidental do mundo árabe-islâmico, nunca de fato se apartou da matriz Oriente: a ampla casa do Islã, desdobrada em grandes porções de terra e mar, estende um mesmo teto aos seus convivas.

“Casa de poesia”, na expressão dos árabes, mas também morada de linguagens, o verso “bayt” terá sido essencialmente a morada de todo árabe-muçulmano. Referencial perene daquela cultura, a inicialmente “qasida” pré-islâmica logo se aclimata às novas e sucessivas cortes islâmicas, passando a ser definida, por metáfora, como a “casa de dois cômodos”, com funções muito específicas: a ala do amor (seção anacreôntica) e a ala do elogio (seção panegírica), onde respectivamente se trama a intimidade e se fazem as honras.

Vitoriosa, tal distinção, que a “qasida” bagdali e o “zajal” andalusino assegurarão, cada qual a seu modo, comprova a unidade e a afinidade absoluta das letras árabes por toda a extensão do orbe islâmico medieval.

É deste universo que a presente obra trata. Devendo interessar a estudiosos da Cultura em geral, especialmente aos aficionados por Estudos Árabes e Islâmicos, ou por Oriente Médio.

 

 

 

 

Zajal ao vizir Abul-Ali Ibn-Zuhr

Ibn-Quzmán de Córdova

Tradução Michel Sleiman

 

disse sim porém depois se arrependeu   do dano que me fez já não é mais réu

 

me disse sim e me disse não depois           que nunca o tinha dito jurou-me após
negou o que sabia assim me dispôs   a não mais crer no que me diz o donzel

 

ele disse depois e isso ainda é pior   uma dessas noites fico a teu dispor
mas eu mesmo vi como nega o favor   morro sem o ver dar o que prometeu

 

eis-me aqui e no mar do abandono eu nado   deus te dê não ser amante abandonado
por deus meu irmão que sou injustiçado   o injusto sabe a injustiça que exerceu

 

deixa o meu amado aceder e romper   nisso ou naquilo algum proveito há de haver
a era do agrado quiçá há de volver varrer o enfado será encargo teu

 

hão de melhorar os sinais dos tempos   o amor hás de ver subjuga esquecimentos
a harmonia sentará sobre o desdém e o   júbilo se sabe derrota o sofrer

 

o esquivar-se fugirá ante o encontro           e a sorte ao desgosto torcerá o pescoço
não se temará o censor que foi deposto   quem delatar delate o azar será seu

 

noites e mais noites passei com o luar   nos meus braços do crepúsculo ao raiar
e a juventude voltou-me já senhor   veio a riqueza a escassez se escafedeu

 

quem dera um alforje de ouro tinindo   e uma jarra repleta de sangue tinto
quem entra sairá comido e bebido e o   vizinho senil cegou e emudeceu

 

não digam espia nada de lembrar   e nada de ajudar se ele precisar
vira a cabeça pro lado evita olhar   um favor perdido é menos feio que ele

 

deus brinde meu espia com a prisão            pobre e cego a vida lhe dure um montão
morra herniado bicha judeu e cabrão   sem outro recurso que xingar o céu

 

quando quero que se ausente não se ausenta   separa amante e amado sua presença
espia e dois amantes por deus que pena   camisa com franjinhas me veda ver

 

cada um que vem diz eu sou zajalista   eu sou natural barbaridade admita
como não sair o cobre da pirita   pobres coitados o povo ensandeceu

 

então tu te espantas e é de dar espanto   juntaram-se ignorante e mau educando
te vêm com burros de dar cria enquanto   me vês disparar meu árabe corcel

 

quem pra nada serve e nem sabe ter tratos   se lê uma sura esquece mais de quatro
inveja os olhos da vaca o pataco   e a natureza se nega a tal talento

 

e como vês que tem isso de especial           não é de hoje te digo é antigo este mal
cada um diz que é generoso e tal   nos moldes de Ibn-Zuhr molde que é só seu

 

o que é para mim mais que estranho distante   cada qual diz o que quer a seu talante
cada um como vês se aumenta em desplante   contra o tagarela não fizeram lei

 

vizir da eminência íris dos tempos   veste do peregrino a todo momento
doce sabor em toda boca é ungüento   força da alma quem pensa em ti enalteceu

 

pensas que alguém pode a ti se equiparar   na elevação e na prodigalidade
não por deus meu irmão não há coisa tal   isto eu juro em maior juramento a deus

 

tuas são a glória a altura e a prudência   teus são o brilho o talento e a valência
teus o rigor a convicção e a servência   tua a lealdade ao que se subscreveu

 

tua a benevolência quando é preciso   na generosidade és o mais preciso
distinto distinguem-te o novo o antigo   em ti o órfão encontra o pai que perdeu

 

enfrentas os casos com braços dos fortes   distendes os passos se o requer a sorte
pressentes o fato antes que se denote   depois de emplumar a flecha a arremeteu

 

herói a quem se deve chamar herói   quem sempre que pesa deixa iguais os dois
quem se promete não deixa pra depois   generoso que [...]

 

quem concentrou toda forma de eloqüência   e é o primeiro na disputa das ciências
às vezes toma o livro às vezes a lança   acertou a razão sempre que escreveu

 

aquele que quando desde longe ataca   finca as esporas e o metal abraça
quem nos ataca já virou a casaca   e escravas quem antes gritava escarcéu

 

orgulhosa está entre todas Sevilha   e te ama e que espécie de amor te dedica
mão alguma te toca a fama inaudita   pé algum ousou poeira ante teu tropel

 

quem te procura procura o teu amor          te buscam se alegram em ti como for
teu nome amamos nome de esplendor   deus nos guarde o nome que te mereceu

 

meu irmão tu és vizir o resto é escória   quem se opõe a ti não bate da memória
te temem se não o erro moldava a história   nem o corvo ousa cruzar sagrado céu

 

não carece abrir o olho pelo inimigo   pior quem é pior que ruína e dívida digo
esse que anda cabisbaixo murchouvido   como besta de leprosos manco e doente

 

te visitaria mas tem este agravo   sempre que aí vou escuto está ocupado
e eu sou como dizem naquele ditado   sê inteiro nem que sejas carvoeiro

 

como ficar sem ti como sem ti me honro   voltarei pra tentar outra vez o encontro
pois é, rapaz, de ditados tem este outro   passou mal o rapaz abusou do mel

 

como vês sou um homem com duas pernas pinto   par de braços de mãos e de orelhas
barba loira e órbitas azuis parelhas   como e tomo água pra ajudar o descenso

 

versos de “muacha” e “qasida”  escrevo   minha letra é firme como o pão caseiro
capricho no sád capricho de padeiro   com marcas de vogal as letras enfeito

 

é o néscio quem mais se parece ao escriba   na mão um cadernão dentro leva a tinta
se lembra dos pontos esquece as letrinhas   só mesmo mostrando pra ele a tabela

 

dizem escreve: à cidade de Aragão            e ele escreve avancemos ao granão
aumenta até mais não dar a letra nún   meia pluma afunda no algodão batel

 

é meu irmão minha obra é nobre e nata   ergo o traço ao não troco o dád por nada
a voz peregrina à minha língua acata   e a “muacha” [...]

 

quando algo escrevo o que de mim verás   magia espalhada cerne das palavras
números registro acerto com tabuadas   se perguntam quanto mostro quanto deu

 

quero meu senhor quando for pra te ver   que ninguém me barre se entram este e aquele
a quem mais na Península recorrer   deus guardou tua casa as outras abateu

 

olha este “zajal” em bom papel escrito   palavras gentis e a letra é de perito
que gazel eu te fiz e que panegírico   por deus senhores que eu bordei o papel

 

meu peito está cheio de gozo e alegria   agora eu regozijo o jurar me obriga
vizir quem te vê e não dissipe a fadiga   deus lhe ponha nos bagos pulgas de arder

 

quando eu for por algo que esteja temendo   pra tua casa não me façam sair correndo
tô pelado me dá roupa não tá vendo a   bondade glorifica a graça alimenta

 

eu te elogiarei com toda língua humana   estes zajais como vês são da pesada
os teus servos somos os Banú-Quzmán e   tu és como és ninguém nega teu direito

 

Deus só alegria a teus dias há de pôr   felicidade é que assinta o amador
aos teus inimigos carnaval de dor   e deus maldiga a quem não me diga amém

 

 

 

 

Confira o lançamento:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Michel Sleiman é professor de Língua e Literatura Árabe da Universidade de São Paulo, onde dirige a Revista Tiraz de Estudos Árabes e das Culturas do Oriente Médio. É autor de A poesia árabe-andaluza: Ibn Quzman de Córdova (2000).    E-mail: michel.sleima@globo.com

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