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29/6/2008 20:36:00
O rasurado azul de Paris - poemas para Arthur Rimbaud



Por Bárbara Lia



 

Flor escandalosa

 

Meu pai sonhava o deserto

E viveu ao lado do amor

Rimbaud sonhava as areias

Também reinventar o amor

Rimbaud viveu no deserto

Meu pai morreu de amor

 

Meu pai surfava o mar de estrelas

Com um teodolito da cor da destemperança

 - verde oliva que tende ao amarelo –

Quando eu dormia ele soprava

Sementes de poesia

Por cima das minhas cobertas

 

Rimbaud passava noites inteiras

Regando com um regador de nuvens

Minha alma de fogo e a semente

 

Nasceu esta flor escandalosa

Misto de estrela e rosa

Da cor dos olhos do amor

E do deserto sonhado

Por meu pai e Rimbaud

 

Meu pai viveu em poesia

Nunca escreveu um verso

Rimbaud desistiu bem cedo

Meu pai sabia; sabia Rimbaud

O vento que atravessa a cortina

Traz a voz de ambos, mixada:


Ilumine o verbo!

Incendeie a alma!

Faça de corações desertos

Cactos em flor

Sangue em ebulição

 

 

*

 

quando ele corria

pelos telhados de ardósia

as pombas arrulhavam

em ventania

seu casaco - vela sacudida

estremecia

a maré da monotonia

 

 

Dans l’air

  

Tínhamos a mesma idade

Quando vimos o mar

Este mistério de impaciência

Tínhamos a mesma impaciência

 – Rimbaud e eu –

 

Por isto

Pisamos telhados

Ao invés do chão

 

Por isto

Machucamos nossos amores

Com nossas próprias mãos

 

Por isto

As velas acabam na madrugada

Antes que o poema acabe

 

- Por isto, tão pouca a vida para tanta voracidade.

 

 

Mar/absinto

 

Nossos olhos de dezoito anos

acomodaram o mar

Sobrou a maré em torno

um sussurro de conchas

a nos acordar nas noites brancas

 

Nossos olhos de dezoito anos

beberem do mar/absinto

como ao vinho santo.

 

Nossos olhos embriagados.

Nossos olhos negros e azulados.

Uma sereia recolhendo a rede

os corações de dois poetas ali

enredados

 

Nossos olhos de dezoito anos.

Nossas almas milenares.

Nossos amores fracos à soleira da incerteza.

Tanta beleza em ti, Rimbaud!

Tanta ausência em mim!

 

E nas marquises

bêbados ainda caminham

buscando o sol

que você guardou prá mim

 

 

 

 

 

 

 



 

 

Bárbara Lia é poeta e escritora. Vive em Curitiba. Livros publicados: O sorriso de Leonardo (Kafka ed. - 2.004), Noir (ed. do autor – 2.006), O sal das rosas (Lumme editor – 2.007), A última chuva (ME – ed. alternativas – MG – 2.007). No prelo, lançamento para agosto, o romance Solidão Calcinada (Secretaria da Cultura / Imprensa Oficial do Paraná, romance finalista do Prêmio Nacional do Sesc 2.005 - Site www.chaparaasborboletas.blogspot.
E-mail:
barbaralia@gmail.com 

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