A noite levou-me qual ébrio furacão dentro do sono a casa o perfume nada sabia do silêncio unânime levava o vinho a janela do quarto negro negro minha treva me chamava madame colocava gelo no copo ah caminho vegetal de tentações mesquinhas na manha abri as asas na revolta de um insone o vôo sobre a cidade a cidade a cidade a chaga imediata dos vícios deixei-a entorpecida pálpebra negra enquanto o sol faiscava uma loucura unânime migrei para as visões distantes a aurora e o beijo afundou-a até a doçura do sonho besta soberba no outro dia era um poeta
(Sem Titulo)
Como operário no alfabeto das horas,
cumpri o enorme grito do meu nome,
dentro das florestas extraordinárias
da inocência.
Após a cerimônia da manhã interior,
que nos queima as entranhas,
ao meio-dia lancei-me faiscante para fora
dessa treva cheia de planetas espelhados.
Sobre a tarde de repente, atravessando oceanos vivos,
estendiam-se platôs exteriores,
centros gravitacionais mais quentes que o abismo
do meu vôo.
E teu sexo trilhava o coração e a raiz
desta noite sufocada de luz.
É isso o amor?
Uma prisão esplêndida.
No dentro e no fora da elegante
demência que naufraga,
sei que toca as partes vivas e a morte
do enlace onde nasce a musica.
E as estações nos moldam a chama
e a simetria,
até a luz além da luz da vida.
O CARPINTEIRO
A Celestino Lagua (Meu bisavô)
Não quis ser ninguém.
Almejei, nesta manhã de inverno,
Ter nascido com o nome eterno.
Seguem-me, mas não me tocam
Na hora mais remota.
Minha flauta é a flauta dos que sonham,
Desconheço a ovelha que foge do rebanho.
Sou carpinteiro das montanhas antigas,
Devo esquecer meu nome verdadeiro,
Os montes são vastos e nunca os abandono.
Ouvi dizer das cidades onde é feita a ciência,
Mas minha flauta é a flauta verdadeira,
De quem nada deseja de um nome
E dorme sob as figueiras
E perde suas ovelhas.
(Sem Titulo)
Cidade cheia de brumas,
salvai-nos Jesus!
Não há tristeza nem alegria,
ou, em tudo, tristeza e alegria se proclamam.
Ninguém conhece outro caminho.
O ponto final é um caminhar sozinho,
acompanhado de silêncio.
Ninguém nos seguirá.
O único caminho,
cidade cheia de brumas,
paira sobre as luas,
indefinidamente.
Felipe Stefani é poeta, artista plástico e fotógrafo. Nasceu em São Paulo em 1975. Tem poucas palavras sobre si mesmo, mas variadas formas de expressão. Já fez de tudo, até biologia, porém foi na arte que encontrou meios de se relacionar com o mundo. Faz parte do grupo “Só Desenho”, que tem os desenhos publicados no site www.pbase.com/sodesenho . Ilustrou o livro “Teatro das Horas” do poeta André Setti, editado pela Edições K. Tem poemas e desenhos publicados no sites www.meiotom.art.br , www.revistazunai.com.br e www.cronopios.com.br Escreve também em seu blog: http://cultuar.blogspot.comPrefere que sua arte fale por si mesma. E-mail: felipe.stefani@uol.com.br
Publicações de um autor no Cronópios
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