Café Literário Cronópios






O lugar do coletivo na pós-modernidade
por Nete Benevides











 

O silêncio dentro de um grito
por Felipe Stefani




Há folhas caindo
por Ângela Castelo Branco




Mariogame nº 3
por Luiz Roberto Guedes




Mulheres do Candeeirocafe
por Candeeirocafe




“Sampoema”
por Flávio Viegas Amoreira




Bandeiras: territórios imaginários
por Guilherme Mansur




Ai de ti, Haiti
por Márcio Almeida




Haicais à Guilherme de Almeida
por Marcelo Tápia




Antes da criação, não havia meias de nylon
por Viviane de Santana Paulo




Sampa afogada
por Ulisses Tavares




A definição do silêncio
por Sylvia Beirute




Tristeza vem e passa
por Ana F.




Véu
por Adriana Versiani




Cola e tesoura 3
por Márcio Araujo




Balofo e sicofanta
por Paulo Franchetti




Boletins oficiais
por Gabriel Pardal




Espera poesia
por Guilherme Mansur




O acaso é feito de pequenos dentes
por Sérgio Graciotti




Dia Nacional da Consciência Negra
por da Redação




Para pegar
por Luís Capucho







 
23/7/2008 12:46:00
Rodopios por dentro




Por Felipe Stefani

 

AS CRIANÇAS

 

 

Sempre que vejo crianças,

Vejo-as correndo, movendo o tempo,

Todas misturadas ao vento.

Sempre me aproximo, são quentes e velozes,

Tão acostumadas aos meteoros,

Dentro da cabeça, todas correndo

No tempo.

 

Lembro das horas tristes da infância.

A vela que queimava a escuridão.

Tive medo, o abismo do quarto,

Tão negro, misturado no tempo.

Quando anunciavam o dia,

O leite quente com biscoito,

Os meteoros para fora,

Correndo, todos movendo a aurora.

Eu me lembro.

 

Sempre que vejo crianças,

Vejo-as escritas por dentro.

Todas elásticas,

por dentro e por fora,

tão velozes que sinto medo,

repetindo minha voz primaria

inúmeras vezes até que me lembre,

como mover o ar correndo.

Os meteoros na cabeça,

Sempre que vejo crianças,

Absorvidas em seus córregos quentes.

Onde movem a água,

Voam e correm como meteoros.

Depois do leite a risada,

Como um templo,

Brincava com meus avos.

  

O menino vendendo balas na praça

Me faz dar rodopios por dentro,

Meteóricos,

Contemplo-me num trabalho radioso,

Carpindo as partes doces e ocultas

Da memória.

No ar, no vento,

Na respiração.

Busco uma criança

Como um brusco cata-vento,

Veloz, extrema

E a anterior à noite.

 

As crianças se deitam com medo

Do silêncio.

Cada casa tem uma criança na imaginação.

 

 

 

 

(Sem titulo)

 

 

A noite levou-me qual ébrio furacão dentro do sono a casa o perfume nada sabia do silêncio unânime levava o vinho a janela do quarto negro negro minha treva me chamava madame colocava gelo no copo ah caminho vegetal de tentações mesquinhas na manha abri as asas na revolta de um insone o vôo sobre a cidade a cidade a cidade a chaga imediata dos vícios deixei-a entorpecida pálpebra negra enquanto o sol faiscava uma loucura unânime migrei para as visões distantes a aurora e o beijo afundou-a até a doçura do sonho besta soberba no outro dia era um poeta

 

 

 

 

(Sem Titulo)

 

 

Como operário no alfabeto das horas,

cumpri o enorme grito do meu nome,

dentro das florestas extraordinárias

da inocência.

Após a cerimônia da manhã interior,

que nos queima as entranhas,

ao meio-dia lancei-me faiscante para fora

dessa treva cheia de planetas espelhados.

Sobre a tarde de repente, atravessando oceanos vivos,

estendiam-se platôs exteriores,

centros gravitacionais mais quentes que o abismo

do meu vôo.

 

E teu sexo trilhava o coração e a raiz

desta noite sufocada de luz.

 

É isso o amor?

Uma prisão esplêndida.

No dentro e no fora da elegante

demência que naufraga,

sei que toca as partes vivas e a morte

do enlace onde nasce a musica.

 

E as estações nos moldam a chama

e a simetria,

até a luz além da luz da vida.

 

 

 

 

O CARPINTEIRO

            
                                        
A Celestino Lagua (Meu bisavô)

 

 

Não quis ser ninguém.

Almejei, nesta manhã de inverno,

Ter nascido com o nome eterno.

Seguem-me, mas não me tocam

Na hora mais remota.

Minha flauta é a flauta dos que sonham,

Desconheço a ovelha que foge do rebanho.

 

Sou carpinteiro das montanhas antigas,

Devo esquecer meu nome verdadeiro,

Os montes são vastos e nunca os abandono.

Ouvi dizer das cidades onde é feita a ciência,

Mas minha flauta é a flauta verdadeira,

De quem nada deseja de um nome

E dorme sob as figueiras

E perde suas ovelhas. 

 

 

 

 

(Sem Titulo)

 

 

Cidade cheia de brumas,

salvai-nos Jesus!

Não há tristeza nem alegria,

ou, em tudo, tristeza e alegria se proclamam.

Ninguém conhece outro caminho.

O ponto final é um caminhar sozinho,

acompanhado de silêncio.

Ninguém nos seguirá.

O único caminho,

cidade cheia de brumas,

paira sobre as luas,

indefinidamente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Felipe Stefani é poeta, artista plástico e fotógrafo. Nasceu em São Paulo em 1975. Tem poucas palavras sobre si mesmo, mas variadas formas de expressão. Já fez de tudo, até biologia, porém foi na arte que encontrou meios de se relacionar com o mundo. Faz parte do grupo “Só Desenho”, que tem os desenhos publicados no site www.pbase.com/sodesenho . Ilustrou o livro “Teatro das Horas” do poeta André Setti, editado pela Edições K. Tem poemas e desenhos publicados no sites www.meiotom.art.br , www.revistazunai.com.br e www.cronopios.com.br Escreve também em seu blog: http://cultuar.blogspot.com  Prefere que sua arte fale por si mesma. E-mail: felipe.stefani@uol.com.br

  Creative Commons License

Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Felipe Stefani no Cronópios.

Martins Fontes - A livraria do Cronópios