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13/7/2005 23:39:00
Poesia fluídica



Por Líria Porto




fluidos

tornei-me assim liqüefeita
quando daquela feita
despi-me de nãos e sins

de mim então me perdi
nessa vontade inconclusa
acumulada no rim

ficou a mágoa comigo
fincada dentro do umbigo
um enorme chafariz

minha tristeza de chuva
essa amargura profusa
trago olhos túmidos

sou tal e qual um dilúvio
transbordo-me enxurro-me
sangro os pulsos



insuficiente

estou assim passarim
a me arrastar numa asa
a outra quebrei faz tempo
naquele dia o vento
atravessou-me a carcaça
forçou-me a aterrissagem

desde então sinto-me lassa
o corpo dói se ancora
o peito se descompassa
tateio a alma escoro-me
não mais decolo não vôo
igual voava outrora

num dia desses quem sabe
um anjo venha me salve
eu volte a planar no espaço
tal como tu lindo pássaro
no pensamento no sonho
nos largos braços do cosmo



infante

imaturo tão frágil
precisa de amparo
de peito de abrigo

o filho do homem
passa a vida atado
ao cordão d'umbigo



invisibilidade

essa dor que quando olhas
não compreendes porquê
não é de fratura exposta
é de amor sem resposta
a solidão ninguém vê




pelas trompas de eustáquio

não lhe dê ouvidos
ele é bom de bico
e seu jeito adunco
é pura fachada
no fundo no fundo
são fossas nasais

ele tem mania
de chegar primeiro
de sentir o cheiro
de estar na cara
cobrir-se de sardas
de ficar vermelho
meter-se no meio
enfiar a ponta
de arrebitar-se
ir no pitangui

às tubas
lenços e corizas




 

 

Líria Porto é professora e mora em Belo Horizonte. E-mail: liria@uaivip.com.br
www.germinaliteratura.com.br/lporto.htm

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