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Antologia Poenocine
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4/9/2008 22:19:00
Rastros



Por Marcelo Novaes

 

Intervalo

Identifiquei tua chegada
pelas seis primeiras notas
dos teus passos, leves como
o intervalo das notas numa
harpa.

Identifiquei tua chegada
pelas pausas entre as tuas
pisadas, e por minha respiração
entrecortada.

Identifiquei tua chegada
pelo ruído de teus dedos
coçando as unhas recém
pintadas de rosa salpicado
de prata.

Identifiquei tua chegada
logo que meus olhos
marejaram,
antes que eu pudesse
ver sombra vulto ou
silhueta.

Identifiquei tua chegada
pela rispidez da paz que
se me impôs, assim, do
nada.




 

 

Rastro

Você deve afastar a cama,
porque a cadela está chorando.
E ela não chora sem razão.
Seu focinho aponta bem para ali,
onde a cama se encosta sob a
janela. Afaste a cama da parede.
Deixe a cadela farejar,
procurar pelo osso, na espécie
de secreta passagem que se abre,
quando a cama se move.
Ninguém dorme,
e nada se
ouve.
Você queria se abraçar a ela,
latir,
mas tem de vê-la seguir em
frente, pela viela que não se sabe
onde vai dar.
Tua barriga está doendo, ronca,
e também dói
pensar.
Tentar ver, com luz fraca,
engatinhando atrás de quatro
patas,
é o que se pode fazer de melhor,
nesta hora. Sua tentação é
voltar, mas ela usa o faro,
não a
razão.
Por isso ela ganha de você,
no subsolo ou no
firmamento,
o lugar da cadela é mais
alto que o
seu, mesmo antes
de pegar o osso ou
alcançar o
alvo.
Tente de novo.
Entre mais uma vez.
A fresta não é tão si
-nistra.
É destra.
Então,
desta vez,
aprenda.
Viu?! É só seguir o
cão, que acaba de
mudar de
sexo.
É macho.
Há um rosto
desenhado na
parede, ao fim
e ao fundo da
fenda.
Não lata na hora errada.
Mesmo sua cadela está
calada, pois logo volta a ser
fêmea.
Ela cola o focinho no chão,
onde cai uma gota de sangue
do rosto desenhado.
É Cristo,
por entre os canos
do esgoto.
E, por trás de tudo,
há o lixo,
há o mundo.
Teu cão pára, não passa o
limite, o faro não o engana.
Tem bom gosto.
E volta a ser macho
de novo.
Vês a imagem
des
ni
ve
la
da
do teu Salvador,
como que a fremir
por entre venezianas
sujas, pois são canos
sujos e enferrujados.
Sim, Ele sempre esteve
nos vãos,
nos desvãos,
por sob os desvios,
no buraco entre a parede e o chão,
na passagem onde poucos entram,
por detrás da porta estreita,
como aquela que se achou,
de súbito,
atrás da cama.
Ele está na frente
dos canos do
esgoto, do lixo,
do que
sobrou.
Ele vence a aflição
do mundo
cão.
Ele fez ondular tua voz, como
jamais soou ou
soará.
E o cão passou a latir,
restituído à situação de macho.
Teu rosto enfim se condói,
enquanto canta a tua voz,
e o cão
gane,
definitivamente.
Infinitamente.
Nada mais natural:
Ele é o Verbo no
Infinit(iv)o Presente, e Seus olhos só
se deixam ver advinhar ver advinhar por entre o
dito. Ele perscruta vozes e latidos e sonda ronda
as paredes sem chamar atenção para Si Mesmo.
Mesmo antes do cão farejar, mesmo antes do Gênesis e de
Abraão, Ele É. Definitiva afirmação. "Passarão céus e terra,
mas minhas palavras não passarão".Ele é intransigente, dirão,
ou resoluto e ciente do seu lugar.O lugar do focinho da cadela
é o chão, e convém que seu sexo retome a primitiva condição.
Tua posição,
enfim, é de
joelhos.
A cadela lambe o
sangue.
Você aprende a
orar.


 

 

O Dedo em Riste de Hilda Hilst

Quisera eu, Hilda,
poder tirar a pérola do musgo
do limo do limbo onde quiseram
deixá-la.
Tua obra agora aberta descoberta
depois da morte.
Triste, frívolo,
previsível,
indigno do teu dedo em riste e da
bata e do roupão puídos de tua
velhice.
Obra menos que valorizada em
vida. Talvez
a obra-prima mais
subestimada.
Até disseram que a maldição a
proscrição te fez ímpar,
te fez até maior poeta à
tua revelia,
que o desprezo te fez mais
bela, enquanto envelhecia.
E que, por ninguém te ler,
por desmerecê-la a turba
anêmica dos intelectuais e
estetas que te detestaram,
e te chamaram fraude,
cresceste mais,
arrancaste energia achaste
energia dentro de ti
para escrever sem
desistir,
e que levaste pra tumba
uma dignidade mais plena.
É o consolo que te imputam
os que te sabotaram e te con
-sideraram puta, os embotados
os preguiçosos os míopes de lupa
e sem número de notas de rodapé
que não te podiam seguir a pé
nem em tua montaria,
maior poeta que este país já viu
nascer.
Quando quis popularizar-se para
ser lida,
jogando pérolas pornográficas
eruditas
para os que nunca haviam sabido
de tuas letras,
manteve o nível, a despeito da
tentativa.
Porque Hilda não pôde fugir trair
não pode sair de si, deixando de
ser Hilda,
mesmo na tentativa de ser comida
devorada digerida destroçada e
transformada em pasto para bodes
bois vacas e cabritas, e para as massas
informes e desinformadas.
Fracassou a tentativa de ser
célebre e fracassada enquanto
artista.
Tua sede de leitor permaneceu
sede.
Tua solidão permaneceu
só.
Há um sentimento de triunfo
subjacente a tudo isso, e ele
sobrevive e permite que teus
textos sejam lidos com vinte
trinta ou cinquenta anos de
atraso.
O triunfo de ter mantido tua
escrita intacta mesmo sem ser
lida, por brio fidelidade e
extremo senso de medida,
e absoluta auto-consciência
de teu nível.
Ave, Hilda, ave ávida trans
-figurada pelo olhar medíocre
em cadela mal-parida,
vira-lata,
acompanhada por seus cães
pernetas, cegos, desdentados,
em sua chácara um tanto afas
-tada dos grandes centros, a
cento e cinquenta quilômetros
de Campinas.
Ave, Hilda,
e que os cegos venham,
agora,
lamber tuas
feridas.



 

À Imagem e Semelhança 

Do mar eu sabia o
sal.
Do mar eu sabia a
bruma,não sabia a
lama.
Eu não conhecia o
pântano dentro do
mar.
Do mar eu conhecia
escamas, não a
ganga.

Desde que meu filho
pequeno aprendeu a falar,
eu lhe ensinei a responder
à pergunta: "Você me ama, ou
me tolera?!"Ele dizia que me to
-lerava, e sempre rimos disso. Até
que eu passei a não tolerar mais o
meu marido. E meu filho preferiu fi
-car com ele. Respeitei, sem rir, mas
ele ria em me ver de quinze em quinze
dias. E repetia, sem os erros de pronúncia:
"Mamãe, eu ainda te tolero demais. Muito."

Estava aborrecida. Resolvi tirar uma folga
de cinco dias, eu e mais duas amigas bem
casadas, com maridos liberais que não se
importavam que elas se divertissem sem
-pre.Fomos acampar na praia sozinhas as
três,fora de temporada. Choveu. Trovejou.
Relampeou. Saímos da barraca. Praia sem
mais ninguém. Um raio a cada dez segundos.

- Botijão de gás atrai raio!
-Estrutura metálica atrai raio!
-Água do mar atrai raio!
-Árvores também atraem!

Rezamos, as três, torrencialmente, como três
crentes que nunca fôramos, sob a tempestade.
E éramos três orando em línguas que não co
-nhecíamos, recitando mantras em sânscrito,
e eu sofria por antecipação a antevista advinhada
perda do meu filho, sofria meu filho perder de vista
a mãe, sofria vê-lo ter de se afastar do abrigo que
era eu mesma, sofria por imaginá-lo me vendo me
afastar por não mais amar meu marido, e meu choro era
de água salgada, era um choro ressentido, mas um choro
austero, no entanto, pra dentro, de quem esconde estar
morrendo de medo. Aquilo era a celebração de águas
antigas. Ninguém diria o que se passava para além
dos raios e da água que caíam.Era só isso. Mais nada.

Algo pairou sobre as águas.
E um halo de calor nos
protegeu. Algo pairou.
Fez um vôo, mas não
como um pássaro,
como um lenço
ondulando,
como um lenço
num vôo ondulado,
vai-e-volta, vai-e
-volta, como a prece
do mar orando em nós
uma oração salgada.

Algo pairou sobre as nossas cabeças.
O corpo daquilo era de água, recoberto
por partículas de sal luminoso sal luminoso
sal e por gotas de água e sal a refletir o brilho
de nossa oração. E era de água e sal aquilo que
voava.Passou-nos o frio, enquanto víamos o
vôo daquele ser duzentos metros à frente de
nós, as três, inequivocamente, não era mira
-gem. Era, sim, feito à imagem da água do
mar.Feito à imagem do mar mais amplo, sem
sexo e com ambos os sexos, multiforme, pois
se o mar é água é também oceano.Pensei-o
masculino nem sei porque. Minhas amigas
se calaram. A tempestade se foi, e eu nem
dormi.A tempestade se foi e eu nem dormi.

No principiar da tarde,
enquanto as duas faziam o
almoço,
cismei de mergulhar no mar
meu sono e meu cansaço.
Olhei bem, e atrás da oitava
onda havia um moço. De quem
seria a imagem, feita de água e
de céu?! Não haveria de ser
Narciso em mar
salgado.
E de dividir beleza, Narciso
era mais avaro que Apolo, e
este me chamava! Este me
queria!Por certo Narciso não
seria, nem o macho de sereia,
nem miragem mal assimilada.
Nem deus de areia e água e céu.
Por certo não era Narciso nem
Apolo. Por certo não haveria de
ser imagem de incesto, ou falta
de sono.

Como apalpar os músculos de
um corpo líquido? Como copular
com um molusco?! Não importava.
Com ânimo de peixe e olhos
hesitantes, eu fui até ele que,
resplandecente,
se mostrava.
Luz fulgurante,
aura alaranjada,
transparente, voz como muitas
águas,
bracelete verde claro e
tridente.

Nadei melhor do que
jamais
nadara.
Nada fora tão claro em
minha natureza quanto
amar o mar agora...
Muito perto eu cheguei,
e já estava tão quente...
As amigas por mim já
esperavam.
Eu via a franja de areia
distante.
E nada mais me era mais
importante que o mar
exposto em rosto e
corpo fascinantes.

E eu quis tocar.

Cheguei, e o que
eu quis saber se
fez repugnante.
Desfez-se a tez
de um jovem, e
a força e o brilho
aparentes.
Senti seu toque mole
e pegajoso,
semelhante ao das ventosas
e tentáculos de um polvo,
e não quis seu beijo escurecido,
senti nojo.
A carne-de-água mole e inumana,
como o encostar incômodo da água
-viva que queima e traz náusea,
dois olhos dependurados em seis
pálpebras,
corpo macilento, emaciado, cheiro
de bacalhau, cheiro de velho sal
-picado com polvilho antisséptico
granado,
nas frieras, nas axilas, no meio das
nádegas,
feridas, fístulas e pústulas na
virilha,
pênis e esperma desfeito em
espuma e
alga,
e em mim toda a aflição e meu
asco,
meu sonho refeito em
pesadelo.

Que o mar leve meu
vômito até a
areia,
porque nem sei mais
se sei nadar de
volta.

Do mar eu sabia o
sal.
Do mar eu sabia a
bruma, não sabia a
lama.
Eu não conhecia o
pântano dentro do
mar.
Do mar eu conhecia
escamas, não a
ganga.


 

 

Turba

Não as Musas,
nem os bardos,
mas os yogues.

O resto é turba,
acampamento
desorganizado,
segundo a etimologia
da palavra
turca.

Nem as musas,
nem os bardos.
Só os yogues e
os santos.

O resto é acampamento
desorganizado de seres
humanos,tentando se
ajeitar no tempo.

 

 

 

 







Marcelo Novaes nasceu em São Paulo. Considera-se um psicanalista que escreve. Estudou música: Violão clássico e teoria musical. Publicou Cidade de Atys (Ateliê Editorial,1998). Seu blog é um blog finito: Terá mil poemas e se encerrará. Textos que remetem uns aos outros, através dos seus marcadores. Pretende publicar apenas mais dois livros, um ensaio clínico ( "O Olho Que Nos Olha Nos Olhos") e um livro de poemas e prosa poética ( "A Franja Branca da Luz").
E-mail:
marcelodenovaes@yahoo.com.br 

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