Identifiquei tua chegada pelas seis primeiras notas dos teus passos, leves como o intervalo das notas numa harpa.
Identifiquei tua chegada pelas pausas entre as tuas pisadas, e por minha respiração entrecortada.
Identifiquei tua chegada pelo ruído de teus dedos coçando as unhas recém pintadas de rosa salpicado de prata.
Identifiquei tua chegada logo que meus olhos marejaram, antes que eu pudesse ver sombra vulto ou silhueta.
Identifiquei tua chegada pela rispidez da paz que se me impôs, assim, do nada.
Rastro
Você deve afastar a cama, porque a cadela está chorando. E ela não chora sem razão. Seu focinho aponta bem para ali, onde a cama se encosta sob a janela. Afaste a cama da parede. Deixe a cadela farejar, procurar pelo osso, na espécie de secreta passagem que se abre, quando a cama se move. Ninguém dorme, e nada se ouve. Você queria se abraçar a ela, latir, mas tem de vê-la seguir em frente, pela viela que não se sabe onde vai dar. Tua barriga está doendo, ronca, e também dói pensar. Tentar ver, com luz fraca, engatinhando atrás de quatro patas, é o que se pode fazer de melhor, nesta hora. Sua tentação é voltar, mas ela usa o faro, não a razão. Por isso ela ganha de você, no subsolo ou no firmamento, o lugar da cadela é mais alto que o seu, mesmo antes de pegar o osso ou alcançar o alvo. Tente de novo. Entre mais uma vez. A fresta não é tão si -nistra. É destra. Então, desta vez, aprenda. Viu?! É só seguir o cão, que acaba de mudar de sexo. É macho. Há um rosto desenhado na parede, ao fim e ao fundo da fenda. Não lata na hora errada. Mesmo sua cadela está calada, pois logo volta a ser fêmea. Ela cola o focinho no chão, onde cai uma gota de sangue do rosto desenhado. É Cristo, por entre os canos do esgoto. E, por trás de tudo, há o lixo, há o mundo. Teu cão pára, não passa o limite, o faro não o engana. Tem bom gosto. E volta a ser macho de novo. Vês a imagem des ni ve la da do teu Salvador, como que a fremir por entre venezianas sujas, pois são canos sujos e enferrujados. Sim, Ele sempre esteve nos vãos, nos desvãos, por sob os desvios, no buraco entre a parede e o chão, na passagem onde poucos entram, por detrás da porta estreita, como aquela que se achou, de súbito, atrás da cama. Ele está na frente dos canos do esgoto, do lixo, do que sobrou. Ele vence a aflição do mundo cão. Ele fez ondular tua voz, como jamais soou ou soará. E o cão passou a latir, restituído à situação de macho. Teu rosto enfim se condói, enquanto canta a tua voz, e o cão gane, definitivamente. Infinitamente. Nada mais natural: Ele é o Verbo no Infinit(iv)o Presente, e Seus olhos só se deixam ver advinhar ver advinhar por entre o dito. Ele perscruta vozes e latidos e sonda ronda as paredes sem chamar atenção para Si Mesmo. Mesmo antes do cão farejar, mesmo antes do Gênesis e de Abraão, Ele É. Definitiva afirmação. "Passarão céus e terra, mas minhas palavras não passarão".Ele é intransigente, dirão, ou resoluto e ciente do seu lugar.O lugar do focinho da cadela é o chão, e convém que seu sexo retome a primitiva condição. Tua posição, enfim, é de joelhos. A cadela lambe o sangue. Você aprende a orar.
O Dedo em Riste de Hilda Hilst
Quisera eu, Hilda, poder tirar a pérola do musgo do limo do limbo onde quiseram deixá-la. Tua obra agora aberta descoberta depois da morte. Triste, frívolo, previsível, indigno do teu dedo em riste e da bata e do roupão puídos de tua velhice. Obra menos que valorizada em vida. Talvez a obra-prima mais subestimada. Até disseram que a maldição a proscrição te fez ímpar, te fez até maior poeta à tua revelia, que o desprezo te fez mais bela, enquanto envelhecia. E que, por ninguém te ler, por desmerecê-la a turba anêmica dos intelectuais e estetas que te detestaram, e te chamaram fraude, cresceste mais, arrancaste energia achaste energia dentro de ti para escrever sem desistir, e que levaste pra tumba uma dignidade mais plena. É o consolo que te imputam os que te sabotaram e te con -sideraram puta, os embotados os preguiçosos os míopes de lupa e sem número de notas de rodapé que não te podiam seguir a pé nem em tua montaria, maior poeta que este país já viu nascer. Quando quis popularizar-se para ser lida, jogando pérolas pornográficas eruditas para os que nunca haviam sabido de tuas letras, manteve o nível, a despeito da tentativa. Porque Hilda não pôde fugir trair não pode sair de si, deixando de ser Hilda, mesmo na tentativa de ser comida devorada digerida destroçada e transformada em pasto para bodes bois vacas e cabritas, e para as massas informes e desinformadas. Fracassou a tentativa de ser célebre e fracassada enquanto artista. Tua sede de leitor permaneceu sede. Tua solidão permaneceu só. Há um sentimento de triunfo subjacente a tudo isso, e ele sobrevive e permite que teus textos sejam lidos com vinte trinta ou cinquenta anos de atraso. O triunfo de ter mantido tua escrita intacta mesmo sem ser lida, por brio fidelidade e extremo senso de medida, e absoluta auto-consciência de teu nível. Ave, Hilda, ave ávida trans -figurada pelo olhar medíocre em cadela mal-parida, vira-lata, acompanhada por seus cães pernetas, cegos, desdentados, em sua chácara um tanto afas -tada dos grandes centros, a cento e cinquenta quilômetros de Campinas. Ave, Hilda, e que os cegos venham, agora, lamber tuas feridas.
À Imagem e Semelhança
Do mar eu sabia o sal. Do mar eu sabia a bruma,não sabia a lama. Eu não conhecia o pântano dentro do mar. Do mar eu conhecia escamas, não a ganga.
Desde que meu filho pequeno aprendeu a falar, eu lhe ensinei a responder à pergunta: "Você me ama, ou me tolera?!"Ele dizia que me to -lerava, e sempre rimos disso. Até que eu passei a não tolerar mais o meu marido. E meu filho preferiu fi -car com ele. Respeitei, sem rir, mas ele ria em me ver de quinze em quinze dias. E repetia, sem os erros de pronúncia: "Mamãe, eu ainda te tolero demais. Muito."
Estava aborrecida. Resolvi tirar uma folga de cinco dias, eu e mais duas amigas bem casadas, com maridos liberais que não se importavam que elas se divertissem sem -pre.Fomos acampar na praia sozinhas as três,fora de temporada. Choveu. Trovejou. Relampeou. Saímos da barraca. Praia sem mais ninguém. Um raio a cada dez segundos.
- Botijão de gás atrai raio! -Estrutura metálica atrai raio! -Água do mar atrai raio! -Árvores também atraem!
Rezamos, as três, torrencialmente, como três crentes que nunca fôramos, sob a tempestade. E éramos três orando em línguas que não co -nhecíamos, recitando mantras em sânscrito, e eu sofria por antecipação a antevista advinhada perda do meu filho, sofria meu filho perder de vista a mãe, sofria vê-lo ter de se afastar do abrigo que era eu mesma, sofria por imaginá-lo me vendo me afastar por não mais amar meu marido, e meu choro era de água salgada, era um choro ressentido, mas um choro austero, no entanto, pra dentro, de quem esconde estar morrendo de medo. Aquilo era a celebração de águas antigas. Ninguém diria o que se passava para além dos raios e da água que caíam.Era só isso. Mais nada.
Algo pairou sobre as águas. E um halo de calor nos protegeu. Algo pairou. Fez um vôo, mas não como um pássaro, como um lenço ondulando, como um lenço num vôo ondulado, vai-e-volta, vai-e -volta, como a prece do mar orando em nós uma oração salgada.
Algo pairou sobre as nossas cabeças. O corpo daquilo era de água, recoberto por partículas de sal luminoso sal luminoso sal e por gotas de água e sal a refletir o brilho de nossa oração. E era de água e sal aquilo que voava.Passou-nos o frio, enquanto víamos o vôo daquele ser duzentos metros à frente de nós, as três, inequivocamente, não era mira -gem. Era, sim, feito à imagem da água do mar.Feito à imagem do mar mais amplo, sem sexo e com ambos os sexos, multiforme, pois se o mar é água é também oceano.Pensei-o masculino nem sei porque. Minhas amigas se calaram. A tempestade se foi, e eu nem dormi.A tempestade se foi e eu nem dormi.
No principiar da tarde, enquanto as duas faziam o almoço, cismei de mergulhar no mar meu sono e meu cansaço. Olhei bem, e atrás da oitava onda havia um moço. De quem seria a imagem, feita de água e de céu?! Não haveria de ser Narciso em mar salgado. E de dividir beleza, Narciso era mais avaro que Apolo, e este me chamava! Este me queria!Por certo Narciso não seria, nem o macho de sereia, nem miragem mal assimilada. Nem deus de areia e água e céu. Por certo não era Narciso nem Apolo. Por certo não haveria de ser imagem de incesto, ou falta de sono.
Como apalpar os músculos de um corpo líquido? Como copular com um molusco?! Não importava. Com ânimo de peixe e olhos hesitantes, eu fui até ele que, resplandecente, se mostrava. Luz fulgurante, aura alaranjada, transparente, voz como muitas águas, bracelete verde claro e tridente.
Nadei melhor do que jamais nadara. Nada fora tão claro em minha natureza quanto amar o mar agora... Muito perto eu cheguei, e já estava tão quente... As amigas por mim já esperavam. Eu via a franja de areia distante. E nada mais me era mais importante que o mar exposto em rosto e corpo fascinantes.
E eu quis tocar.
Cheguei, e o que eu quis saber se fez repugnante. Desfez-se a tez de um jovem, e a força e o brilho aparentes. Senti seu toque mole e pegajoso, semelhante ao das ventosas e tentáculos de um polvo, e não quis seu beijo escurecido, senti nojo. A carne-de-água mole e inumana, como o encostar incômodo da água -viva que queima e traz náusea, dois olhos dependurados em seis pálpebras, corpo macilento, emaciado, cheiro de bacalhau, cheiro de velho sal -picado com polvilho antisséptico granado, nas frieras, nas axilas, no meio das nádegas, feridas, fístulas e pústulas na virilha, pênis e esperma desfeito em espuma e alga, e em mim toda a aflição e meu asco, meu sonho refeito em pesadelo.
Que o mar leve meu vômito até a areia, porque nem sei mais se sei nadar de volta.
Do mar eu sabia o sal. Do mar eu sabia a bruma, não sabia a lama. Eu não conhecia o pântano dentro do mar. Do mar eu conhecia escamas, não a ganga.
O resto é turba, acampamento desorganizado, segundo a etimologia da palavra turca.
Nem as musas, nem os bardos. Só os yogues e os santos.
O resto é acampamento desorganizado de seres humanos,tentando se ajeitar no tempo.
Marcelo Novaesnasceu em São Paulo. Considera-se um psicanalista que escreve. Estudou música: Violão clássico e teoria musical. Publicou Cidade de Atys (Ateliê Editorial,1998). Seu blog é um blog finito: Terá mil poemas e se encerrará. Textos que remetem uns aos outros, através dos seus marcadores. Pretende publicar apenas mais dois livros, um ensaio clínico ( "O Olho Que Nos Olha Nos Olhos") e um livro de poemas e prosa poética ( "A Franja Branca da Luz"). E-mail: marcelodenovaes@yahoo.com.br
Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Marcelo Novaes no Cronópios.