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17/11/2008 19:41:00
Alberto da Cunha Melo – Parte III



Organização de Gustavo Felicíssimo




Contando para todo mundo

 

 

São muito poucas as formas fixas utilizadas na poesia. Uma delas, a Retranca, foi criada por um poeta brasileiro, o pernambucano Alberto da Cunha Melo, e deve ser devidamente cultuada e tratada como um patrimônio das nossas letras, assim como fazem os italianos com o soneto e a terça rima.

A Retranca, como já mostramos em outros artigos, se caracteriza por conter quatro estrofes com a seguinte disposição: 4,2,3,2, com oito sílabas métricas por verso, onde o quarteto tem assonâncias no segundo e quarto versos; o primeiro dístico com assonâncias aparelhadas; o terceto com assonâncias no primeiro e terceiro versos da estrofe e um dístico final com rimas consonantais.

Conforme o ensaísta e crítico César leal, “Alberto da Cunha Melo verificando que um time de futebol é formado por 11 jogadores, criou uma nova forma fixa, a única inventada até agora em nossa língua o que não deixa de ser uma façanha, uma vez que se trata de fato cultural mais importante do que sete vitórias numa copa mundial de futebol”. E celebra a descoberta, afirmando que “embora o esporte não deixe de ser atividade relevantes na cultura de um povo, não devemos compará-lo com a força da poesia”.

Somente Alberto poderia confirmar tal intenção, mas a afirmativa de César Leal é pertinente e provável, uma vez que o próprio nome da “forma fixa” possui relação com o futebol. Neste a retranca é algo próprio das equipes que mais se protegem que atacam, mas quando o fazem, levam muito perigo ao gol adversário.

Seria então a Retranca (e a poesia em si) uma via por onde o poeta se protege dos ataques desse mundo pós-moderno, pobre de reais valores? Preferimos acreditar que sim, e ficamos com as palavras do poeta e ficcionista Aleilton Fonseca quando diz em uma entrevista a nós concedida que “a poesia é a legítima defesa e a condenação do poeta.(...) o exercício da poesia o torna um ser marcado, para quem os homens práticos olham com desconfiança e disfarçada comiseração”.

Em 13 de Outubro fez um ano que Alberto da Cunha Melo despediu-se deste mundo, no período vários poetas tornaram-se cultores da Retranca, ao ponto de já podermos falar ser possível a publicação de uma antologia de poetas brasileiros que escrevem dentro desta forma fixa. Alberto da Cunha Melo nunca esteve tão vivo, meus amigos.

Agora, os leitores poderão conhecer alguns destes poetas e seus poemas.

 

 

*** 

 

Alguns cultores da Retranca

 

Aníbal Beça

 

Saudando O Cão dos Olhos Amarelos

de Alberto da Cunha Melo

  

 

Cunhava um latido ao formão

o cão anêmico amarelo

arranhando a lata de lixo:

sobradas sobras da favela.

 

É cão marceneiro de ogivas

cantor de tripas laxativas.

 

Sabe a mangues e a caranguejos,

mas jamais saiu do mocambo.

No entanto, uiva acordes e arpejos.

 

Na alegria o seu rabo rege

os maloqueiros em seu frege.

 


*** 

 

 

Márcia Maia

 

albertiando

 

para clau

 

de tanto falar em retranca

me veio a saudade de alberto

(abro o livro clau e yacala)

que nunca se calem seus versos

 

que nunca o esqueça o recife

ainda que todos emigrem

 

olinda que sempre o relembre

e além dos limites do mar

o vento em seu canto o carregue

 

tão alto que de onde ele esteja

quem sabe nos mande um poema.

 

***

 

Ryszard

NARRIMÃ

Aparentando inexperiência,
Uma garota com nome de índia
Parece ter do sol a essência,
Pois surge sempre viva e ínfima.

É uma dessas garotas especiais
Que podem ser tudo, menos banais.

Como tantas outras e poucas
Que, cuidadosas e cultas,
São belas e tão sonhadoras

Que ainda almejam o bem no mundo
E não perdem nenhum segundo.

 

ESPERANÇA VÃ


Tristeza é ter consciência
De pensar e não ser pensado
Pela pretendida, essência
De esperança a ocupar o vácuo.

Esperança que nos traz seqüela,
Estamos melhores sem ela.

Essa maldita que nos reduz
O passo adiantado e qualquer
Brecha é uma sedução ou uma luz.

Torna-se, em toda essa esfera,
Mais um ponto inútil de espera.


***

                  

Clóvis Campêlo

A TESE

 

As palavras do filósofo
enchia-os de sofismas
e tingia, qual basófilo,
em cores vivas suas cismas -

dogmáticos ditados
pra quem busca resultados.

Mas, nas mãos o basiótribo
o levava a cometer
várias mortes sem recibos

de idéias concebidas
pra não terem próprias vidas.

 

 

 

A ANTÍTESE

 

Queria a revolução, 
toda a mudança possível, 
toda a certeza do não, 
queria todo o não crível: 

sabia que em pleno avesso 
haveria um recomeço. 

Não contava, no entanto, 
que para toda alegria 
haveria o mesmo pranto, 

que todo não era um sim, 
e todo começo, um fim. 

*** 

 

SILVERIO DUQUE

PARA UM PÔR-DO-SOL NO RECIFE

 

UMA ORAÇÃO PARA ALBERTO DA CUNHA MELO:
À SUA MANEIRA E COM CERTO ATREVIMENTO…

ao poeta e amigo, Gustavo Felicíssimo,
pela admiração que temos por este grande bardo pernambucano.

 

Vejo agora que é verdade
o que pensei ser mentira;
quem sabe se nesta terra
não plantarei a minha sina?.

João Cabral de Melo Neto

 

– Não penso, Poeta, em toda a sua vida…
mas neste ofício que consome
nossas melhores esperanças,
nutrindo, do Amor, toda a fome,

neste manejo de palavras
a destruir sua própria lavra

e que é tão nosso quanto o tempo
ou o acumular de nossas noites
( forçosa negação da morte )

porque o temor da Eternidade
nos consola ante a Realidade.

*** 

Bráulio Tavares

TEMPLO


Entrar no templo de um Senhor
que empunha Raios e canções.
Tocar o mármore com os joelhos,
e com a testa, após as mãos.
 
Antes do Tempo havia o Trono;
antes do Vácuo, antes do Sonho.
 
Esquece o orgulho, que preserva
neste tumulto de vontades
o que serás junto ao que eras.
 
Também o Trono está prostrado
ante outro Deus, criptografado.

***


Gustavo Felicíssimo

SENDA

Sou como o invisível céu

que não vos inspira cuidados,

pois retorno depois das névoas

sobre os campos abandonados;

 

sou finito e celebro o fogo

infindável do grande jogo

 

a nos enlaçar a garganta;

creio no vórtice da voz

sacrossanta que a tudo encanta;

 

trago os haveres desse mundo;

sou terra, sou campo fecundo.

 

 

GALOPE

 

Se tudo na vida é tão pouco,

a lira de ouro e safira,

eu sigo na vela e no vento

cantando a minha poesia;

 

eu passo e repasso suplícios,

eu vivo e revivo os inícios;

 

na curva do tempo não dobro,

não trago o tal dobre dos sinos,

não levo ao soberbo malogro

 

tampouco desprezo o dilema

disforme desse meu poema.

 

 

 ***

 



Tributo em Versos (sem retrancas)

 

há seis meses

 

Cláudia Cordeiro

 

a tua lavra
é barca
socorre-me

a tua ausência
alastra-se
enorme

a tua ausência
é maior
que tua morte

silêncio

 

13.04.2008

 

 

 

PRIMEIRO RETORNO ANUNCIADO

 

Sílvia Câmara

 

Eis que o retorno é manso.
E a mansidão ajudou a soltar a voz
Entalada no peito:
Um dia eu viro só vento,
Nuvem clarinha algodoeira
Salpicada de entretantos.
São tantos os versos que choveriam…
Aqueles versos mais sutis
rabiscados no espaço
rendilhando o céu.
Mansos versos para dizer
Que a eternidade é imensa
E parece ser tão cruel.

 

(Após saber que o poeta Alberto da Cunha Melo havia encerrado sua jornada nesta vida na noite de 13/10/2007)


 

TRIBUTO PARA ALBERTO DA CUNHA MELO


Leonardo Leão

 

Imposto brando, taxa tênue,
tirando a tirania
do tanto dentro
de tantos nós.
Agora Alberto,
aberto à alma de tudo
e de todos.

Agora Alberto,
ave leve à brisa do tempo
e das horas.
Lavo-me em louvações
e palavradas preparadas
para moer a paisagem,
que, de passagem,
pousa em minhas lágrimas.
Entala-me a garganta,
instala-se a fala tonta:
para que é solta a palavra
se não há sua pena a guiá-la?

 

Recife, 14 de abril de 2008



O SILÊNCIO DO ARAUTO

 

Eloi Firmino de Melo

 

Num instante
o arauto esconde a voz
nas fímbrias da cortina
do silêncio;
fechada é a porta livre
das palavras,
e a trombeta calada,
exposta ao vento.
Aquelas já firmadas,
antecedentes da veia fértil,
regam sempre as margens,
quando os rios carecem de vertentes.
Da academia
ao pé do botequim
um gesto de saudade morre
à mingua;
a parceria chocada se lamenta,
e a ausência fere o peito
ou se lastima.
Nas rodas mais estritas
há outras formas
de ver o pássaro deixar
os compromissos,
ou o lavrador
que já não rega a horta.
Não que a trombeta tivesse
o som escasso
ou esgotado o estro;
a partitura caberia,
se sabe, uma infindável
quantidade de notas e compassos.
É que o acervo olímpico
das palavras
já aquinhoara taças e louvores
por conseguir ali melhores saltos.
E assim
cumprida essa missão do bem
outros espaços paralelos
chamam
para o repouso eterno dos heróis,
que Beatriz apresentou a Dante.

 

 

 

ELEGIA PARA O ALQUIMISTA DE OLINDA,

O POETA ALBERTO DA CUNHA MELO

 

Daqui, das margens do Cachoeira, eu brindo ao bardo

que vivente sob os mangues do Capibaribe

teve a bravura de ser entre todos o mais sublime e profundo artesão.

Um brinde ao poeta Alberto da Cunha Melo

descendo as ladeiras de Olinda, posso ver.

Um brinde ao poeta que ao meu lado bebe, agora,

e isso não é mentira ou ficção.

Outro chope, garçom,

sentimos sede porque a realidade é fuga

e fugaz o tempo se apresenta,

sentimos sede porque a realidade é crua

e terríveis são seus desdobramentos,

terríveis feito a razão que contraria a fé,

a vida envolvida em mistérios

e essa vertigem que me toma a pena e me oferece este poema.

A garota no quadro segurando um gato é triste

como é triste a condição humana,

como é triste o horizonte que nos margeia,

contudo, não será capaz a noite de evitar o gênio,

pois não há por que temer destino semelhante ao de Héspero,

por isso essa Elegia no ventre da noite,

esse copo de chope e o linguajar vulgar.

Seus poemas são os meus poemas, Alberto,

neles me reconheço e me edifico,

uma vez que o tempo gasto com inúteis procelas não nos alimenta,

porque em essência somos feitos de suavidade e compaixão.

Eu sei não ser preciso este poeta,

este humilde poeta eivá-lo de loas,

mas quiseram as Musas que fosse assim,

quiseram os anjos

e a pomba pousada sobre os livros sagrados que fosse assim.

Ó alquimista de Olinda,

mestre e desequilibrista da poesia brasileira,

próximo aos teus poemas não tenho horário

ou percebo o tempo esvair,

próximo aos teus poemas o momento é outro

e outras são as formas de existir,

próximo aos teus poemas tenho a lua, tenho os pélagos,

próximo aos teus poemas, Mestre, estou mais próximo de mim.

Agora vai, poeta, viaja no espaço que a despedida é dispensável,

leva consigo as nuvens e o silêncio da borboleta,

leva no coração os dias floridos

enquanto ficamos aqui, vivendo essa Casa Vazia.

 

 

 

 

Gustavo Felicíssimo, 1971, é natural de Marília, interior de São Paulo e radicado na Bahia desde 1993. Fundou e foi o editor do tablóide literário SOPA. É poeta, cronista e ensaísta. Mantém na internet o blog Sopa de Poesia: www.sopadepoesia.zip.net.

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