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4/12/2008 16:13:00
As aventuras de Nicolau



Por Nicolau Saião







Conhecemos Nicolau Saião em Fortaleza, Ceará. Nicolau é um artista que podemos chamar de multimídia, pois atua com elegância e com pegada própria em várias frentes. Faz parte do chamado 2º movimento surrealista português. Escreve como quem pinta quadros e pinta como quem escreve poemas. Antes de tudo, Nicolau é um figuraça, bonachão, vital, sanguíneo, orador e declamador que nos hipnotiza. Antes de nos despedirmos, estava provando uma boa cachaça brasileira. E constatou que era fraca, em relação a aguardente que costuma tomar em Alentejo.

No Brasil, a Escrituras Editora acaba de lançar um de seus livros, Olhares Perdidos, dentro da coleção “Ponte Velha”, que nos apresenta, antes que tarde, muito da boa literatura portuguesa contemporânea. (Edson Cruz) 

 

 

 

 

 

 

 

Ritmos

 

1.

Percorro a cidade sem frio sem fome

Ando como uma sombra   diria: uma pequena sombra

um fragmento escuro entre automóveis   carros

baratos   carros de luxo

Um hiato de carne entre casas   Moradias

onde nunca entrarei.

 

2.

Conheço-as há tantos anos    as suas imagens enchem-me

Repleto sou uma pança de reconhecimento   de meiguice

ó casas sem nome   com nome     Casas bonitas casas feias

As casas da cidade habitual

As vozes não entram em mim    ocupam-me

As flores que não há repousam modestamente

no sítio do costume

 

As que há desafiam-nas para existirem paralelamente

Entram na minha sombra

ondeiam   estralejam.

 

3.

Afinal a minha fome é diferente

Talvez  pior que a dos bravos rapazes dos Assentos

ou do bairro anão dos marroquinos

que misturam a polícia   trancam-na em monossílabos

sangue e ruínas   pistachos   guisados de borrego

“morte, onde está tua vitória?”

 - como na Bíblia se diz -

visitam com o seu gáudio os parentes

Eles são os grandes avatares do momento.

 

4.

Vede   é a calva dum tal qualquer

límpida como a lua límpida como um sol

e eu sem fome e eu sem sono

Desespero. Tenho de que me queixar    desfaleço

O meu fato de sempre  pende-me do esqueleto

ouço a música e espero   como uma sombra espero

 

Algo passa   vai para um planeta distante    vai para

o mundo   todo o mundo

 

no sítio do costume.

 

 





Afrodite

 

Chegar lentamente ao teu lugar preferido

Piscar-te o olho, sentir uma pequena mágoa

Sentir sede, dizer só para dentro

Deus proteja o meu riso, deus me dê um dicionário.

Saber quase ao acaso

que ardes como numa casa um suicidado

em agonia   um animal por exemplo um canário

normalíssimo mas com um adejar suspeito

olhado de lado por alguém que não se lembrará de ti

Um corpo um cântico  sugestivo  profético

sobre uma cama que só há no poema por baixo

 

Contar-te longamente   longamente

- fingir se fôr preciso a amargura das horas -

E contar-te de novo  um bocado  um fragmento

Linhas versos um trecho excepcionalmente amargo

 

Não apenas vinho. Mas também isso.

Ou água ardente. E sal e outras maravilhas.

Olhar-te como se olha um lenço velho

De pescoço ou um par de calças esfarrapadas.

No mar, receio dizer-te, não se encontram

Linhas de fuga, finos tecidos vogando sobre as ondas.

 

Cobrir-te lentamente os membros superiores

De negrume e de coisas tranquilas e secretas

num tempo devastado e inteiramente vago.

Informar-te assim como quem não sabe o que faz

Que mais ou menos há monstros e que há vozes a toda a volta.

 

Os perigos os remotos usos os lindos cabelos entre as páginas

Estão por aqui, por ali, e tu adormeces no seu conforto.

 



            



Fala do pastor no dia seguinte

 

Eu estava   era de manhã   quase junto ao casebre   baixara-me

para desapertar a corda de esparto do pescoço da cabra

Não o vi chegar   mas ele viera a pé

O assobio delicado entredentes   quase um sopro

Retraído para que não me assustasse

 

Fiquei a olhá-lo   era grande a minha tristeza    no entanto

não sentia nem melancolia nem receio  Apenas soltei um suspiro uma espécie de riso

um pouco talvez de divertido pasmo

Ao longe o sol de Março   Ao longe o brilho de uma árvore

Piscou-me o olho  O seu rosto estava na meia sombra

A cabra quedara-se como estátua   agora roçava-se-lhe na perna

 

Segui-o  Ele entrara na casa

Os meus passos como se ressoassem em chão de tábua.

Pousou a mão sobre a mesa   um sobressalto de pó

erguera-se a um canto.

Não lhe olhei nem as mãos nem a testa requeimada

que um vinco de sangue sulcava

Sabes? perguntou com a voz enrouquecida

e todavia clara  Um certo ar de perplexidade

Alguma daquela gente não era de facto gente de bem

Enchi um copo com o vinho que me sobrara da véspera

Sabes? disse-me então   e limpava a boca com um dedo

Alguns deles não sabiam de facto o que diziam

Teriam sabido o que faziam?

Poderei doravante carregar este destino? pensei eu

E contudo a resposta já eu a conhecia.

 

E ali ficou sentado. As mãos abandonadas no regaço. E a amargura

entrou em mim.

 

Ao sair

olhei a cabrinha que se chegara trémula junto da porta

Olhei-a como se do seu pelo um clarão negro se soltasse

Olhei-a e senti o mundo parado para sempre.

 

E assim o vi eu depois que regressara de entre os mortos.

 

inEscrita e o seu contrário

 

 

 

 

 

 

 

Nicolau Saião (Monforte do Alentejo - Portalegre, 1946) é poeta, publicista, actor-declamador e artista plástico. Participou em mostras de Arte Postal em países como Espanha, França, Itália, Polónia, Brasil, Canadá, Estados Unidos e Austrália, além de ter exposto individual e colectivamente em lugares como Lisboa, Paris, Porto, Badajoz, Cáceres, Estremoz, Figueira da Foz, Almada, Tiblissi, Sevilha, etc. Organizou, com Mário Cesariny e C. Martins, a exposição “O Fantástico e o Maravilhoso” (1984) e, com João Garção, a mostra de mail art “O futebol” (1995). Tem colaboração diversa na imprensa cultural em vários países: “DiVersos” (Bruxelas), “Albatroz” (Paris), “Os arquivos de Renato Suttana”, “Agulha”, “Jornal de Poesia” (Brasil), Mele (Honolulu), Espacio/Espaço Escrito (Badajoz), TriploV, revista Bíblia, “Saudade”, “Callipolle”, “A cidade”, “Petrínea”, revista “Sílex”, “Colóquio Letras”, “Jornal de Poetas e trovadores”, “A Xanela” (Betanzos), “Revista 365”… Concebeu, realizou e apresentou o programa radiofónico “Mapa de Viagens”, na Rádio Portalegre (36 emissões), um dos mais conceituados e ouvidos no ranking do Alentejo. Fez para a “Black Sun Editores” a primeira tradução mundial integral de “Os fungos de Yuggoth” de H.P.Lovecraft (2002), que anotou, prefaciou e ilustrou, o mesmo se dando com o livro do poeta brasileiro Renato Suttana “Bichos” (2005). Organizou, coordenou e prefaciou a antologia internacional “Poetas na surrealidade em Estremoz” (2007). Com João Garção e R. Ventura coordenou “Fanal”, suplemento cultural publicado mensalmente no semanário alentejano ”O Distrito de Portalegre”, de Março de 2000 a Julho de 2003. Até se aposentar recentemente, foi durante 14 anos o responsável pelo Centro de Estudos José Régio, na dependência do município de Portalegre. E-mail: nicolau19@yahoo.com  

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