Conhecemos Nicolau Saião em Fortaleza, Ceará. Nicolau é um artista que podemos chamar de multimídia, pois atua com elegância e com pegada própria em várias frentes. Faz parte do chamado 2º movimento surrealista português. Escreve como quem pinta quadros e pinta como quem escreve poemas. Antes de tudo, Nicolau é um figuraça, bonachão, vital, sanguíneo, orador e declamador que nos hipnotiza. Antes de nos despedirmos, estava provando uma boa cachaça brasileira. E constatou que era fraca, em relação a aguardente que costuma tomar em Alentejo.
No Brasil, a Escrituras Editora acaba de lançar um de seus livros, Olhares Perdidos, dentro da coleção “Ponte Velha”, que nos apresenta, antes que tarde, muito da boa literatura portuguesa contemporânea. (Edson Cruz)

Ritmos
1.
Percorro a cidade sem frio sem fome
Ando como uma sombra diria: uma pequena sombra
um fragmento escuro entre automóveis carros
baratos carros de luxo
Um hiato de carne entre casas Moradias
onde nunca entrarei.
2.
Conheço-as há tantos anos as suas imagens enchem-me
Repleto sou uma pança de reconhecimento de meiguice
ó casas sem nome com nome Casas bonitas casas feias
As casas da cidade habitual
As vozes não entram em mim ocupam-me
As flores que não há repousam modestamente
no sítio do costume
As que há desafiam-nas para existirem paralelamente
Entram na minha sombra
ondeiam estralejam.
3.
Afinal a minha fome é diferente
Talvez pior que a dos bravos rapazes dos Assentos
ou do bairro anão dos marroquinos
que misturam a polícia trancam-na em monossílabos
sangue e ruínas pistachos guisados de borrego
“morte, onde está tua vitória?”
- como na Bíblia se diz -
visitam com o seu gáudio os parentes
Eles são os grandes avatares do momento.
4.
Vede é a calva dum tal qualquer
límpida como a lua límpida como um sol
e eu sem fome e eu sem sono
Desespero. Tenho de que me queixar desfaleço
O meu fato de sempre pende-me do esqueleto
ouço a música e espero como uma sombra espero
Algo passa vai para um planeta distante vai para
o mundo todo o mundo
no sítio do costume.

Afrodite
Chegar lentamente ao teu lugar preferido
Piscar-te o olho, sentir uma pequena mágoa
Sentir sede, dizer só para dentro
Deus proteja o meu riso, deus me dê um dicionário.
Saber quase ao acaso
que ardes como numa casa um suicidado
em agonia um animal por exemplo um canário
normalíssimo mas com um adejar suspeito
olhado de lado por alguém que não se lembrará de ti
Um corpo um cântico sugestivo profético
sobre uma cama que só há no poema por baixo
Contar-te longamente longamente
- fingir se fôr preciso a amargura das horas -
E contar-te de novo um bocado um fragmento
Linhas versos um trecho excepcionalmente amargo
Não apenas vinho. Mas também isso.
Ou água ardente. E sal e outras maravilhas.
Olhar-te como se olha um lenço velho
De pescoço ou um par de calças esfarrapadas.
No mar, receio dizer-te, não se encontram
Linhas de fuga, finos tecidos vogando sobre as ondas.
Cobrir-te lentamente os membros superiores
De negrume e de coisas tranquilas e secretas
num tempo devastado e inteiramente vago.
Informar-te assim como quem não sabe o que faz
Que mais ou menos há monstros e que há vozes a toda a volta.
Os perigos os remotos usos os lindos cabelos entre as páginas
Estão por aqui, por ali, e tu adormeces no seu conforto.

Fala do pastor no dia seguinte
Eu estava era de manhã quase junto ao casebre baixara-me
para desapertar a corda de esparto do pescoço da cabra
Não o vi chegar mas ele viera a pé
O assobio delicado entredentes quase um sopro
Retraído para que não me assustasse
Fiquei a olhá-lo era grande a minha tristeza no entanto
não sentia nem melancolia nem receio Apenas soltei um suspiro uma espécie de riso
um pouco talvez de divertido pasmo
Ao longe o sol de Março Ao longe o brilho de uma árvore
Piscou-me o olho O seu rosto estava na meia sombra
A cabra quedara-se como estátua agora roçava-se-lhe na perna
Segui-o Ele entrara na casa
Os meus passos como se ressoassem em chão de tábua.
Pousou a mão sobre a mesa um sobressalto de pó
erguera-se a um canto.
Não lhe olhei nem as mãos nem a testa requeimada
que um vinco de sangue sulcava
Sabes? perguntou com a voz enrouquecida
e todavia clara Um certo ar de perplexidade
Alguma daquela gente não era de facto gente de bem
Enchi um copo com o vinho que me sobrara da véspera
Sabes? disse-me então e limpava a boca com um dedo
Alguns deles não sabiam de facto o que diziam
Teriam sabido o que faziam?
Poderei doravante carregar este destino? pensei eu
E contudo a resposta já eu a conhecia.
E ali ficou sentado. As mãos abandonadas no regaço. E a amargura
entrou em mim.
Ao sair
olhei a cabrinha que se chegara trémula junto da porta
Olhei-a como se do seu pelo um clarão negro se soltasse
Olhei-a e senti o mundo parado para sempre.
E assim o vi eu depois que regressara de entre os mortos.
in “Escrita e o seu contrário”
Nicolau Saião (Monforte do Alentejo - Portalegre, 1946) é poeta, publicista, actor-declamador e artista plástico. Participou em mostras de Arte Postal em países como Espanha, França, Itália, Polónia, Brasil, Canadá, Estados Unidos e Austrália, além de ter exposto individual e colectivamente em lugares como Lisboa, Paris, Porto, Badajoz, Cáceres, Estremoz, Figueira da Foz, Almada, Tiblissi, Sevilha, etc. Organizou, com Mário Cesariny e C. Martins, a exposição “O Fantástico e o Maravilhoso” (1984) e, com João Garção, a mostra de mail art “O futebol” (1995). Tem colaboração diversa na imprensa cultural em vários países: “DiVersos” (Bruxelas), “Albatroz” (Paris), “Os arquivos de Renato Suttana”, “Agulha”, “Jornal de Poesia” (Brasil), Mele (Honolulu), Espacio/Espaço Escrito (Badajoz), TriploV, revista Bíblia, “Saudade”, “Callipolle”, “A cidade”, “Petrínea”, revista “Sílex”, “Colóquio Letras”, “Jornal de Poetas e trovadores”, “A Xanela” (Betanzos), “Revista 365”… Concebeu, realizou e apresentou o programa radiofónico “Mapa de Viagens”, na Rádio Portalegre (36 emissões), um dos mais conceituados e ouvidos no ranking do Alentejo. Fez para a “Black Sun Editores” a primeira tradução mundial integral de “Os fungos de Yuggoth” de H.P.Lovecraft (2002), que anotou, prefaciou e ilustrou, o mesmo se dando com o livro do poeta brasileiro Renato Suttana “Bichos” (2005). Organizou, coordenou e prefaciou a antologia internacional “Poetas na surrealidade em Estremoz” (2007). Com João Garção e R. Ventura coordenou “Fanal”, suplemento cultural publicado mensalmente no semanário alentejano ”O Distrito de Portalegre”, de Março de 2000 a Julho de 2003. Até se aposentar recentemente, foi durante 14 anos o responsável pelo Centro de Estudos José Régio, na dependência do município de Portalegre. E-mail: nicolau19@yahoo.com