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4/12/2008 16:36:00
Quadro ao contrário de Magritte



Por Ana Paula Ferraz



Eu vejo pelos ombros o caminhante percorrendo as montanhas.

 

Ele quer o doce e escuro poço

 

e encontra

 

e molha os dedos

 

                                      e abre

 

                                      o pequeno orifício

 

que atravessa rompendo, em rompantes

acariciando copas, apalpando o fruto

invadindo os pomares

atrás do vale.

 

Tudo ele toma, em mergulho, até que a terra arde.

 

Assim descubro, fundamente

 

(já são suaves as mãos de sombra –

ele é quase folha caída)

 

: amar é uma brutalidade.


 

                                         ***



porque os tempos são de guerra e a pista é vazia

desejei o colo do tanque

do canhão.

 

e assim amei o imoldável

até descolar pele de metal e perceber

os curtos braços

o longo asfalto

a pouca vista.

 

ficou em lugar algum minha luta

, que era outra.

 

blindado não abraça

e fui esmagada de cima dos trilhos.



                                         ***
 


 

Numa esquina do seu pescoço

sua maciez de pão

me cortou

os dentes.

 

Rente, encarei

que a nuca é sem rosto

e, ali, nem a solidão

existe.

 

Ficou claro -

o amor não passa

de um quadro ao contrário

de Magritte.


 

                                         ***

 

sou feita de profundezas

gargantas íntimas, uterinas

e grito –

estou de ecos até o pescoço.

 

nessas estreitezas de quente/frágil

sublimes vapores se adensam

ao toque

de amígdalas e estalagmites.


 

                                         ***

 

 

aqui molhamos os pés na areia -

somos uns secos bancos brancos

cabisbaixos, desmergulhados

que confundem suas costas rasas

a de baleias.



                                         ***
                                                         

 

Vulcão

 

Suava como pedra

durante o sono de montanha.

 

Já são quase onze -

em brasa negra ele ainda dorme.

 


                                         ***

 

Indelével

 

Numa manhã seguinte

o sempre do sopro do corpo

de lençol de nuvens

onde fui imensa de azul

infinita e sem brisas.

 

Numa manhã seguinte

o eterno vagueia

pelo ar sem correntes.


 

                                         ***

 

Geométricas

 

I

O triângulo amoroso é

um círculo vicioso.

 

II

De um ângulo agudo, ela perguntou:

- de que lado você está?

 

III

O amor é assimétrico.


 

                                         ***

 

Contos de fodas

 

I. Princesa

 

Chorou pelos cantos

até ficar desencantada

 

MCXXI. Plebéia

 

Entrou pelos canos                 

até ficar desencanada.


 

                                         ***

 

Ser tão

 

Big bang de carne explodida

eram só céu arreitado de estrelas.

 

E ele disse na língua ardida:

- Fundo buraco negro.


 

                                         ***

 

Bomba anatômica

 

Luz azul num sofa radioativo:

pele-antena

pêlos ligados

ruídos para a comunicação

ais uis ais (je suis).

 

Onde estariam as tomadas?

amor sem vias, perdidos satélites.

 

Transmissão de (bem) dados

transa-míssel (i missed you)

transa-missão  (i miss you a lot).

 

 

                                         ***



 

Bula*

 

Disse-me um conta gotas,

sem medir lágrimas:

 

- O amor é uma pomada

para uso

utópico.

 

Aplicável em camadas

para sintomas

típicos.

 

*Efeitos co-laterais

laterais e trans

versais

desejáveis.

 

 

                                         ***

 

!

 

Há ruas vazias

e ruas enfeitadas

de gente.

 

Há ruas vazias

e ruas só com um

pingente.


 

                                         ***

 

Se até a água tem

osso

como saio do fim

do poço?

 

 


 


 

 

 

Ana Paula Ferraz é poeta paulistana da safra 1979. Participa do Coletivo Vacamarela, responsável pelo jornal O Casulo de Literatura Contemporânea e pela FLAP!, entre outros eventos literários. E-mail: anapaulaferraz3@gmail.com

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