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16/12/2008
Brasiliada



Por Nicolas Behr

 

a profecia dizia que quando jk

visse uma coruja buraqueira,

pousada num cupinzeiro,

devorando um rato

que segura um carimbo,

aí seria o sítio ideal

para erguer sua capital

 

e assim se fez

 

***

 

assim diz a lenda: jk povoou sua nova capital – brasília – com can dangos e também com um povo cego, surdo e mudo, os cratas buros, do qual não se tem

mais notícia  

 

***

brasília são as ruínas de machu picchu

invertidas, cuzco reconstruída, tiahuanaco

inacabada, pirâmide de teotihuacán

ao contrário, palácio do altiplanalto,  

atlântida cerratense, cidade perdida

dos can dangos

 

a esfinge fita seu espelho: jk

 

as linhas do eixo monumental

são continuação das linhas de nazca

 

***

desconstruir jk

reconstruir braxília

desbrasilianizar jk

rebraxilianizar brasília

rejuscelinizar braxilia

desjuscelinizar jk

 

reinventar a cidade inventada

 

***

jk construiu brasília

 

os candangos ficaram olhando

 

***

aquela é a estátua de teseu,

maior herói cerrantense

(sim, filho, maior que jk)

 

libertou brasília da opressão do burocrotauro,

um ser meio homem meio carimbo que vivia pelos labirintos dos ministérios, devorando lentamente qualquer fila que se formasse a sua frente

 

***

areia sobre os automóveis do

setor comercial sul

 

(é o deserto chegando)


***

brasília é uma cidade autoritária?

é sim! quer ver?

 

pra subir pra falar com o ministro

só de terno e gravata

 

pra descer

só nu


***

can dangos que nunca chegaram

cidade não construída

transferência que não aconteceu

inauguração que não houve

(o cerrado intacto, de pedra)

 

a cidade que está por vir

saúda o poema inexistente


***

em meio ao vazio do cerrado

construiu-se uma cidade vazia

habitada por pessoas vazias

que circulam por avenidas vazias

em carros vazios de pneus vazios

mas cheias do vazio de si mesmas


***


jk não deixou descendentes

 

o segundo quinto império cerratense

foi então dividido em

pequenos reinos

minúsculos feudos

microscópicos castelos

invisíveis burocratas


 

 


 

 



Nicolas Behr (Nikolaus von Behr) nasceu em Cuiabá, Mato Grosso, em 1958. Estudou em Diamantino-MT, onde os pais eram fazendeiros. Mudou-se para a capital aos 10 anos e sonhava ser geólogo. Mora em Brasília desde 74. Em 77 lançou seu primeiro livrinho e “best seller” Iogurte com Farinha, impresso gloriosamente em mimeógrafo nas dependências do Colégio Setor Leste. De mão em mão vendeu 8.000 exemplares. Em 1978, após lançar Grande Circular, Caroço de Goiaba e Chá com Porrada, foi preso pelo DOPS por “posse de material pornográfico”. Foi redator em várias agências de propaganda da cidade. Em 1982 criou, juntamente com Zunga e Lacerda, o MOVE – Movimento Ecológico de Brasília – primeira ONG ambientalista da capital federal. Em 1987 morou em Washington DC, EUA, vindo a trabalhar na FUNATURA – Fundação Pró-Natureza de 1988 a 1990. De lá pra cá se dedica à produção e comercialização de mudas, seu antigo “hobby”, sendo pioneiro na produção de mudas de espécies nativas dos cerrados, especializando-se em palmeiras e em frutas e árvores raras. Voltou a publicar seus livros de poesia a partir de 1993, com Porque Construí Braxília. Sócio-Gerente da Pau-Brasília viveiro.eco.loja. E-mail: paubrasilia@paubrasilia.com.br

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