assim diz a lenda: jk povoou sua nova capital – brasília – com can dangos e também com um povo cego, surdo e mudo, os cratas buros, do qual não se tem
mais notícia
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brasília são as ruínas de machu picchu
invertidas, cuzco reconstruída, tiahuanaco
inacabada, pirâmide de teotihuacán
ao contrário, palácio do altiplanalto,
atlântida cerratense, cidade perdida
dos can dangos
a esfinge fita seu espelho: jk
as linhas do eixo monumental
são continuação das linhas de nazca
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desconstruir jk
reconstruir braxília
desbrasilianizar jk
rebraxilianizar brasília
rejuscelinizar braxilia
desjuscelinizar jk
reinventar a cidade inventada
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jk construiu brasília
os candangos ficaram olhando
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aquela é a estátua de teseu,
maior herói cerrantense
(sim, filho, maior que jk)
libertou brasília da opressão do burocrotauro,
um ser meio homem meio carimbo que vivia pelos labirintos dos ministérios, devorando lentamente qualquer fila que se formasse a sua frente
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areia sobre os automóveis do
setor comercial sul
(é o deserto chegando)
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brasília é uma cidade autoritária?
é sim! quer ver?
pra subir pra falar com o ministro
só de terno e gravata
pra descer
só nu
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can dangos que nunca chegaram
cidade não construída
transferência que não aconteceu
inauguração que não houve
(o cerrado intacto, de pedra)
a cidade que está por vir
saúda o poema inexistente
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em meio ao vazio do cerrado
construiu-se uma cidade vazia
habitada por pessoas vazias
que circulam por avenidas vazias
em carros vazios de pneus vazios
mas cheias do vazio de si mesmas
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jk não deixou descendentes
o segundo quinto império cerratense
foi então dividido em
pequenos reinos
minúsculos feudos
microscópicos castelos
invisíveis burocratas
Nicolas Behr(Nikolaus von Behr) nasceu em Cuiabá, Mato Grosso, em 1958. Estudou em Diamantino-MT, onde os pais eram fazendeiros. Mudou-se para a capital aos 10 anos e sonhava ser geólogo. Mora em Brasília desde 74. Em 77 lançou seu primeiro livrinho e “best seller” Iogurte com Farinha, impresso gloriosamente em mimeógrafo nas dependências do Colégio Setor Leste. De mão em mão vendeu 8.000 exemplares. Em 1978, após lançar Grande Circular, Caroço de Goiaba e Chá com Porrada, foi preso pelo DOPS por “posse de material pornográfico”. Foi redator em várias agências de propaganda da cidade. Em 1982 criou, juntamente com Zunga e Lacerda, o MOVE – Movimento Ecológico de Brasília – primeira ONG ambientalista da capital federal. Em 1987 morou em Washington DC, EUA, vindo a trabalhar na FUNATURA – Fundação Pró-Natureza de 1988 a 1990. De lá pra cá se dedica à produção e comercialização de mudas, seu antigo “hobby”, sendo pioneiro na produção de mudas de espécies nativas dos cerrados, especializando-se em palmeiras e em frutas e árvores raras. Voltou a publicar seus livros de poesia a partir de 1993, com Porque Construí Braxília. Sócio-Gerente da Pau-Brasília viveiro.eco.loja. E-mail: paubrasilia@paubrasilia.com.br