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7/1/2009 20:10:00
Nova poesia portuguesa




Por Ruy Ventura

 

sangue

 

sangra-se a criatura.

introduzida entre os músculos

a faca (ou lança) encontra

imagens em dispersão, objectos

com bolor ou com ferrugem, mãos

cheias de sangue, folhas e

livros com nódoas de tinta e de gordura.

 

para que viva e permaneça

é necessário que o golpe rasgado

entre os ossos lance nos olhos

do criador alguns decilitros de água

salgada, nascida nas vísceras

de um corpo em que algumas manchas

na pele revelam úlceras

no estômago ou no duodeno.

 

apenas água – sal onde todos

os sedimentos (do tempo e do espaço?)

todas as secreções (da existência?)

se dissolveram para produzirem

uma luz branca que, tendo atravessado o prisma

das palavras, se multiplicou num espectro

 

sem limites –

 

 

*

 

 

aberta a ferida, o sangue pode alimentar

o criador, mas jamais sustentará a criatura.

guardado nos intestinos, permanece

até à solução nas entranhas

de quem se escreve e modifica.

em parte assimilado, em parte

defecado, poucos vestígios deixa

para além de uma memória

cujos fragmentos ninguém

consegue (ou deseja) registar –

 

 

*

 

 

nada resulta da análise do sangue

ou da água. colocados sobre lâminas de vidro

não deixam vestígios que permitam

ao criador avaliar a consistência

da criatura. glóbulos e plaquetas

depressa apodrecem, na insegurança

de um plasma sem capacidade

para resistir à erosão de algumas células

cujo núcleo se divide até à explosão do tempo.

 

numa das lamelas há contudo

pequenos cristais de cloro e de sódio.

regressada ao vapor do início

a água proveniente do tórax

entra de novo num ciclo

feito de fogo e de metamorfose.

mesmo sem espaço, volta a irrigar

quanto transcende a estrutura

de um edifício perfurado

pela faca ou pela lança –

 

 

*

 

 

sangra-se o poema. não sobrevive

se a água não circula pelas veias.

70 % do poema é apenas água

salgada – sal da terra. a mina sustenta

todas as formas de vida que povoam

e elevam a existência.

 

haverá células mortas (o ferro

evita a anemia, mas não impede a secura

e o apodrecimento das palavras).

o corpo permanece. com sangue

 

sem água, não passará no entanto

de um cadáver – múmia conservada

como pedra numa redoma de vidro.



*

 


obesidade

 

a gordura submerge os ossos – e o poema.

a anorexia (a que alguns chamam

“elegância” ou “concisão”)

impede os movimentos de um corpo

que precisa de músculos para subir até à boca

do vento ou do inferno – lugares

sem espaço nem semáforos

na circulação da alma.

 

é preciso que as glândulas funcionem

apenas o necessário. o excesso e o defeito

perturbam o equilíbrio do organismo –

 

 

*

 

 

o trânsito, nos intestinos, rejeita

uma vida sedentária. fibras

bífidus e muita água

sem aromas, da nascente, auxiliam a digestão

de um mundo com pés mergulhados

em óleo de fritura, comendo carne

e tubérculos sem qualquer capacidade

de dissolução na corrente que alimenta

os vasos sanguíneos.

 

submersos os ossos, entupidas as veias – o colesterol

do poema impede a circulação do

sangue nas palavras (água salgada

a irrigar as estruturas do cérebro) –

 

 

*

 

 

pode bater o coração. pode bater.

sem a agilidade e o dinamismo das estruturas

e do pensamento, nada nem ninguém

conseguirá contudo evitar a síncope

das válvulas do sentido.

 

ou, pelo menos, o inchaço

dos membros inferiores

à espera da amputação

pela gangrena.


*

 


corrimento

 

as tábuas do balcão são de resina

contraplacado, pvc ou aparite.

o mármore (onde escorrem copos)

é prancha velha cujo cavername

lavrado pelo bicho da madeira

se revestiu de linóleo, de oleado.

 

cheira a vómito no canto da taberna.

 

não nego que alguns metros desse fluxo

dão ao ouvido corpo e luzimento –

mas a conversa (sem paralelismo)

que, de hora a hora, repete a mesma frase

com charros, cuspo, vinho-carrascão

 

invade o olfacto

dá uma volta ao estômago

 

e um vómito (odor e ladainha)

lança-nos fora, tira o apetite –

porque um canto sem tasca, sem taberna

não sabe que um longo passadiço

separa o esterco da estrumeira

 

que a merda e o estrume

não deixam sobre a terra

o mesmo adubo, a mesma voz (semente).

 

 

*

 

 

uma bebedeira não precisa de metáforas.

overdose e falta de equilíbrio

sujam o ritmo, as palavras, o olhar.

 

na taberna um canto (se) obscurece.

 

 

*

 

 

o cenário atrai,  traz visitantes –

continuará sendo simulacro

à espera do ecoponto, do aterro.

 

pelo fogo passará (sem ignição).

e nem o crescimento das gramíneas

sobre o terreno, livre de cascalho

conseguirá ocultar, passados anos

à sonda perfurando o solo e o plástico

 

o entulho de um canto que se ouvia

a toda a hora – gonorreia – sem cessar.

 


*



fundição

 

corta. atravessa. une e divide

os ossos de uma mão cujo metal

sustenta a carne na lâmina

e no ventre – para que as vísceras

não espalhem sobre a laje

o ouro e o odor dos excrementos.

 

recolhe-se o fogo na fusão

do esqueleto. a faca corta

os músculos e os tendões, sem deixar

nos poros uma gota (apenas

uma gota) de água negra

ou verde, povoada.

 

a faca corta o fogo

e a distância. o fogo e a cinza

dessa madeira de deus

que a circulação divide

para melhor retalhar e poluir

o grito lançado no abate.

 

fogo e ignição dividem entre si

a contramina esfaqueada pela fome.

nesta viagem, a faca corta o fogo

e o espaço. lança na boca

o metal e o cimento, os resíduos

(que somos) desse forno

cuja abóbada caiu sobre as cabeças –

 

 

*

 

 

o fogo corta o fogo. a faca

corta a faca. fogo e faca

existem, coincidem, sobre o

corte que é faca, fogo – gente.

nada existe. tudo coexiste –

como a carne, os ossos e as vísceras

que o tempo liquefaz

ou a mão desmancha, separando

(e reunindo) os elementos.

 

congela-se o metal para que a chama

nascida na hora do incêndio

possa fundir (e difundir) o aço

sobre o molde de que renascemos.

 

e, na mesma hora, em retrocesso

escrevemos do fogo o que os olhos

não vêem nem poderão tocar.

porque o fogo só cortado adquire

a têmpera do vento e do minério.

só cortado (e cortado sobre a forja)

é expressão da estrutura que entreabre

o sopro sobre a voz, pelo abismo –

 

 

*

 

 

há símbolos sem têmpera. não cortam.

são escórias espalhadas sobre a terra.

não adubam – nem podem derreter-se

para talhar enxadas e forquilhas.

só no corte o fogo será fogo. só

no corte a faca será faca. faca e fogo

 

cortam este mundo. dividem. reunindo

multiplicam o globo que rolamos

sobre a terra. sem faca e sem fogo

comeríamos outro fogo sem luz, outra

presença que uma faca meteria entre as costelas.

assim, cortando o fogo com a faca

(ou a faca fundindo nesse fogo

que o fole alimenta na garganta)

 

fundimos entre os ossos o metal

que nos faz criaturas de madeira.

 

*


movimento

 

o ruído dos motores não impede a fixação

das imagens sobre a estrada. o movimento

acaba por lancetar cada uma das frases

deixando sobre a carne apenas o que lhe pertence

sem outros líquidos nascidos da decomposição

da fala. o ruído dialoga com a imagem

tal como a imagem, ao longo da tarde, vai destruindo

a essência dos motores. não há semáforos

que consigam suspender a poeira sobre a mesa.

nem os passos em que a sujidade

cerca os olhos sem sombra e as mãos cujas gretas

representam um excesso de sangue

na lembrança e na cativação dos dedos sob a pedra.

 

a erosão é tão só um efeito de linguagem

cujo freio não impede o transporte

dos resíduos, numa enxurrada cujo entulho

ocupa todos os caminhos disponíveis.

 

coberto o asfalto, nenhuma incisão será possível

sobre os ossos ou sobre a pele. dentro deles

um cérebro resiste à entrada das vozes

e à sua fixação na imagem. só o movimento

admite a entrada da sombra na circulação sanguínea.

sem verbo, o ruído afasta-se. dissolve-se

ao entrar nas páginas e ao ver-se confrontado

com outros sons cuja estrutura reforça

a dissemelhança da matéria.

 

com violência, as imagens sobrepõe-se.

esfaqueiam quanto as rodeia.

só assim impõem nas artérias

toda a água necessária para inundar – e

salgar – o mundo, cuja passagem

nos destrói e modifica.

 

*

 

[encontro c/ Mário Cesariny, 26/27.11.2006]

 

é impossível passar por entre as árvores.

a mão já não escreve, não pinta. suspende

o movimento, no encadeamento das luzes

que sustentam o universo.

 

a impureza dos astros compõe

o firmamento. o poeta entra de burro

na cidade, deixando pelas ruas o estrume

das palavras. resíduos de palha e de verdura

fermentam na calçada, fazendo romper

por entre as casas

línguas de fogo que queimam o rosto

e os cabelos.

 

o odor do estrume incomoda os transeuntes.

com a mão no nariz, abanam a cabeça

não percebendo que o gás libertado

aqueceria o interior da casa onde habitam.

 

 

*

 

 

batem latas do lado do rio. afugentam

os abutres que tentam debicar a madeira

do poeta. não seria necessário. ao seu lado

os corvos resguardam a impureza do corpo

onde brilha ainda a memória dos navegantes

e de outro esperma lançado sobre as sílabas.

 

o navio reflecte a terra inteira. os espelhos

trazem de dentro todo o sangue

que enobrece a madrugada.

há risos e fumo cortando o horizonte.

as ondas agasalham a montanha. trazem de longe

o asfalto pisado e as imagens estranhas

que povoam a forja onde fundiram

a imperfeição dos sonhos.

 

 

*

 

 

nada subsiste no corpo do poeta.

ossos, cabelo, tripas, veias, pele e outras vísceras

irão participar da podridão

dos mortos. os átomos dispersar-se-ão.

se o outro disse a verdade, reviverão

nas árvores, na pedra, noutros pedaços

da madeira de deus (alguns, talvez, abutres

como os de agora).

 

o estrume do poeta reverdecerá

de outro modo. em ervas daninhas

que nunca alimentarão

o estômago de um anjo ou de uma besta

mas guiarão os olhos até à justiça da sombra

permitindo a constante e discreta movimentação

do vento, que levará – sem pressas –

sementes igualmente daninhas

 

até aos confins da terra.

 

 

 

 

(Os cinco primeiros poemas pertencem a Parábolas e Alegorias, livro em preparação. O último faz parte de Vale dos Homens, livro inédito.)

 

 

Ruy Ventura (Portalegre, 1973) é professor na península da Arrábida, a trinta quilómetros de Lisboa. Publicou, em poesia, Arquitectura do Silêncio (Lisboa, 2000; Prémio Revelação de Poesia, da Associação Portuguesa de Escritores), sete capítulos do mundo (Lisboa, 2003), Assim se deixa uma casa (Coimbra, 2003), Um pouco mais sobre a cidade (Villanueva de la Serena, 2004) e O lugar, a imagem  (Badajoz, 2006); em 2009 editará o original Chave de ignição, com edição simultânea em Portugal (edições Cosmorama) e em Espanha (Littera Libros). Organizou as antologias Poetas e Escritores da Serra de São Mamede (Vila Nova de Famalicão, 2002), Contos e Lendas da Serra de São Mamede (Almada, 2005), Em memória de J. O. Travanca-Rêgo e Orlando Neves (na revista Callipole, nº 13, Vila Viçosa, 2005) e o livro José do Carmo Francisco, uma aproximação (Almada, 2005). Traduziu a antologia 20 Poetas Espanhóis do Século XX (Coimbra, 2003) e os livros de poemas Dias, Fumo, de Antonio Sáez Delgado (Coimbra, 2003), Jola, de Ángel Campos Pámpano (Badajoz, 2003) e A Árvore-das-Borboletas, de Anton van Wilderode (Badajoz, 2003). É colaborador de várias revistas nacionais e estrangeiras, nomeadamente espanholas, brasileiras e americanas. Poemas e/ou livros seus estão traduzidos em castelhano, francês, inglês e alemão. Como ensaísta, tem escrito sobre Poesia Contemporânea, Literatura Tradicional e/ou Oral e Toponímia.

Coordena o blogue Estrada do Alicerce (www.alicerces1.blogspot.com). E-mail: ventura.1973@gmail.com

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