submersos os ossos, entupidas as veias – o colesterol
do poema impede a circulação do
sangue nas palavras (água salgada
a irrigar as estruturas do cérebro) –
*
pode bater o coração. pode bater.
sem a agilidade e o dinamismo das estruturas
e do pensamento, nada nem ninguém
conseguirá contudo evitar a síncope
das válvulas do sentido.
ou, pelo menos, o inchaço
dos membros inferiores
à espera da amputação
pela gangrena.
*
corrimento
as tábuas do balcão são de resina
contraplacado, pvc ou aparite.
o mármore (onde escorrem copos)
é prancha velha cujo cavername
lavrado pelo bicho da madeira
se revestiu de linóleo, de oleado.
cheira a vómito no canto da taberna.
não nego que alguns metros desse fluxo
dão ao ouvido corpo e luzimento –
mas a conversa (sem paralelismo)
que, de hora a hora, repete a mesma frase
com charros, cuspo, vinho-carrascão
invade o olfacto
dá uma volta ao estômago
e um vómito (odor e ladainha)
lança-nos fora, tira o apetite –
porque um canto sem tasca, sem taberna
não sabe que um longo passadiço
separa o esterco da estrumeira
que a merda e o estrume
não deixam sobre a terra
o mesmo adubo, a mesma voz (semente).
*
uma bebedeira não precisa de metáforas.
overdose e falta de equilíbrio
sujam o ritmo, as palavras, o olhar.
na taberna um canto (se) obscurece.
*
o cenário atrai,traz visitantes –
continuará sendo simulacro
à espera do ecoponto, do aterro.
pelo fogo passará (sem ignição).
e nem o crescimento das gramíneas
sobre o terreno, livre de cascalho
conseguirá ocultar, passados anos
à sonda perfurando o solo e o plástico
o entulho de um canto que se ouvia
a toda a hora – gonorreia – sem cessar.
*
fundição
corta. atravessa. une e divide
os ossos de uma mão cujo metal
sustenta a carne na lâmina
e no ventre – para que as vísceras
não espalhem sobre a laje
o ouro e o odor dos excrementos.
recolhe-se o fogo na fusão
do esqueleto. a faca corta
os músculos e os tendões, sem deixar
nos poros uma gota (apenas
uma gota) de água negra
ou verde, povoada.
a faca corta o fogo
e a distância. o fogo e a cinza
dessa madeira de deus
que a circulação divide
para melhor retalhar e poluir
o grito lançado no abate.
fogo e ignição dividem entre si
a contramina esfaqueada pela fome.
nesta viagem, a faca corta o fogo
e o espaço. lança na boca
o metal e o cimento, os resíduos
(que somos) desse forno
cuja abóbada caiu sobre as cabeças –
*
o fogo corta o fogo. a faca
corta a faca. fogo e faca
existem, coincidem, sobre o
corte que é faca, fogo – gente.
nada existe. tudo coexiste –
como a carne, os ossos e as vísceras
que o tempo liquefaz
ou a mão desmancha, separando
(e reunindo) os elementos.
congela-se o metal para que a chama
nascida na hora do incêndio
possa fundir (e difundir) o aço
sobre o molde de que renascemos.
e, na mesma hora, em retrocesso
escrevemos do fogo o que os olhos
não vêem nem poderão tocar.
porque o fogo só cortado adquire
a têmpera do vento e do minério.
só cortado (e cortado sobre a forja)
é expressão da estrutura que entreabre
o sopro sobre a voz, pelo abismo –
*
há símbolos sem têmpera. não cortam.
são escórias espalhadas sobre a terra.
não adubam – nem podem derreter-se
para talhar enxadas e forquilhas.
só no corte o fogo será fogo. só
no corte a faca será faca. faca e fogo
cortam este mundo. dividem. reunindo
multiplicam o globo que rolamos
sobre a terra. sem faca e sem fogo
comeríamos outro fogo sem luz, outra
presença que uma faca meteria entre as costelas.
assim, cortando o fogo com a faca
(ou a faca fundindo nesse fogo
que o fole alimenta na garganta)
fundimos entre os ossos o metal
que nos faz criaturas de madeira.
*
movimento
o ruído dos motores não impede a fixação
das imagens sobre a estrada. o movimento
acaba por lancetar cada uma das frases
deixando sobre a carne apenas o que lhe pertence
sem outros líquidos nascidos da decomposição
da fala. o ruído dialoga com a imagem
tal como a imagem, ao longo da tarde, vai destruindo
a essência dos motores. não há semáforos
que consigam suspender a poeira sobre a mesa.
nem os passos em que a sujidade
cerca os olhos sem sombra e as mãos cujas gretas
representam um excesso de sangue
na lembrança e na cativação dos dedos sob a pedra.
a erosão é tão só um efeito de linguagem
cujo freio não impede o transporte
dos resíduos, numa enxurrada cujo entulho
ocupa todos os caminhos disponíveis.
coberto o asfalto, nenhuma incisão será possível
sobre os ossos ou sobre a pele. dentro deles
um cérebro resiste à entrada das vozes
e à sua fixação na imagem. só o movimento
admite a entrada da sombra na circulação sanguínea.
sem verbo, o ruído afasta-se. dissolve-se
ao entrar nas páginas e ao ver-se confrontado
com outros sons cuja estrutura reforça
a dissemelhança da matéria.
com violência, as imagens sobrepõe-se.
esfaqueiam quanto as rodeia.
só assim impõem nas artérias
toda a água necessária para inundar – e
salgar – o mundo, cuja passagem
nos destrói e modifica.
*
[encontro c/ Mário Cesariny, 26/27.11.2006]
é impossível passar por entre as árvores.
a mão já não escreve, não pinta. suspende
o movimento, no encadeamento das luzes
que sustentam o universo.
a impureza dos astros compõe
o firmamento. o poeta entra de burro
na cidade, deixando pelas ruas o estrume
das palavras. resíduos de palha e de verdura
fermentam na calçada, fazendo romper
por entre as casas
línguas de fogo que queimam o rosto
e os cabelos.
o odor do estrume incomoda os transeuntes.
com a mão no nariz, abanam a cabeça
não percebendo que o gás libertado
aqueceria o interior da casa onde habitam.
*
batem latas do lado do rio. afugentam
os abutres que tentam debicar a madeira
do poeta. não seria necessário. ao seu lado
os corvos resguardam a impureza do corpo
onde brilha ainda a memória dos navegantes
e de outro esperma lançado sobre as sílabas.
o navio reflecte a terra inteira. os espelhos
trazem de dentro todo o sangue
que enobrece a madrugada.
há risos e fumo cortando o horizonte.
as ondas agasalham a montanha. trazem de longe
o asfalto pisado e as imagens estranhas
que povoam a forja onde fundiram
a imperfeição dos sonhos.
*
nada subsiste no corpo do poeta.
ossos, cabelo, tripas, veias, pele e outras vísceras
irão participar da podridão
dos mortos. os átomos dispersar-se-ão.
se o outro disse a verdade, reviverão
nas árvores, na pedra, noutros pedaços
da madeira de deus (alguns, talvez, abutres
como os de agora).
o estrume do poeta reverdecerá
de outro modo. em ervas daninhas
que nunca alimentarão
o estômago de um anjo ou de uma besta
mas guiarão os olhos até à justiça da sombra
permitindo a constante e discreta movimentação
do vento, que levará – sem pressas –
sementes igualmente daninhas
até aos confins da terra.
(Os cinco primeiros poemas pertencem a Parábolas e Alegorias, livro em preparação. O último faz parte de Vale dos Homens, livro inédito.)
Ruy Ventura (Portalegre, 1973) é professor na península da Arrábida, a trinta quilómetros de Lisboa. Publicou, em poesia, Arquitectura do Silêncio (Lisboa, 2000; Prémio Revelação de Poesia, da Associação Portuguesa de Escritores), sete capítulos do mundo (Lisboa, 2003), Assim se deixa uma casa (Coimbra, 2003), Um pouco mais sobre a cidade (Villanueva de la Serena, 2004) e O lugar, a imagem(Badajoz, 2006); em 2009 editará o original Chave de ignição, com edição simultânea em Portugal (edições Cosmorama) e em Espanha (Littera Libros). Organizou as antologias Poetas e Escritores da Serra de São Mamede (Vila Nova de Famalicão, 2002), Contos e Lendas da Serra de São Mamede (Almada, 2005), Em memória de J. O. Travanca-Rêgo e Orlando Neves (na revista Callipole, nº 13, Vila Viçosa, 2005) e o livro José do Carmo Francisco, uma aproximação (Almada, 2005). Traduziu a antologia 20 Poetas Espanhóis do Século XX (Coimbra, 2003) e os livros de poemas Dias, Fumo, de Antonio Sáez Delgado (Coimbra, 2003), Jola, de Ángel Campos Pámpano (Badajoz, 2003) e A Árvore-das-Borboletas, de Anton van Wilderode (Badajoz, 2003). É colaborador de várias revistas nacionais e estrangeiras, nomeadamente espanholas, brasileiras e americanas. Poemas e/ou livros seus estão traduzidos em castelhano, francês, inglês e alemão. Como ensaísta, tem escrito sobre Poesia Contemporânea, Literatura Tradicional e/ou Oral e Toponímia.