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20/1/2009 16:29:00
Qual o poder da poesia? Um grito por Gaza



Por Jorge Elias Neto

 

Céu de bombas

Jorge Elias Neto 
                                 

 

Não interrompam o cotidiano das serpentes.

Elas não buscam no homem seu veneno.

 

Por que choras por mim meu pai?

 

Cumpri com o que me coube

nessa Gaza de feras.

 

Em cada criança morta, sacrificada,

um objetivo insano.

 

Despeço-me do dia

sob flashs e bombas.

 

Uma fome doentia

molhou teu corpo com meu sangue.

 

Estrelas dos profetas cruzaram os céus

e pulverizaram os créditos de minha infância.

 

A ambição de poder comeu meu destino.

Com a força, roubaram-me o sorriso.

 

Meu pai, nem sei perguntar por quê.

Não tive tempo para me nutrir de ódio.

 

Pensando bem, pai,

que as lágrimas partam.

 

Transpareça a indignação em teu rosto

nas telas indiferentes do Mundo.

 

Sobretudo crê, pai,

crê no triunfo do olhar de tua filha,

fosco de morte,

voltado para esse lindo céu,

reluzente de bombas,

nessa noite de um domingo de fúria.

 

 

***

 

 

O ex-deputado do Knesset (parlamento israelense), Uri Avnery (também ex-combatente que ajudou a fundar Israel em 1948 e que há décadas milita pela paz), afirmou que uma das frases mais sábias que ouviu em sua vida foi pronunciada por um general egípcio, em resposta ao questionamento do porquê de os egípcios terem conseguido surpreender Israel na guerra em outubro de 1973. A esse questionamento o general respondeu: “Em vez de ler relatórios dos serviços de inteligência, vocês deveriam ler nossos poetas.”

Ao longo da história muitos poetas alternaram momentos de puro lirismo com outros de completo envolvimento com causas nacionais. Poderíamos lembrar, entre outros,  Maiakóvski , Walt Whitman e o nosso Thiago de Mello.

Outros poetas, embora não diretamente envolvidos com temas sociais, produziram obras plenas de imagens voltadas para a realidade de sua coletividade. Basta lembrar  Drummond e seu livro Rosa do Povo.

É certo que não devemos ignorar que a história da civilização se confunde com a imposição do horror ao ambiente e às gentes, utilizando-se da barbárie para impulsionar o processo civilizatório. Adorno e Horkheimer frisam que a civilização – a qual nos ilude como um processo inteligente que busca beneficiar a sociedade e expandir o conforto e a segurança –, na realidade, possui várias facetas aterradoras, inclusive aquela que recalca ou revela “o desejo de destruição dos civilizados que jamais puderam realizar totalmente o doloroso processo civilizatório”. Para esses filósofos “não se pode abolir o terror e conservar a civilização. Afrouxar o primeiro já significa o começo da dissolução”.*

Mas onde se situaria o poeta e sua poesia nesse contexto?

Escrevi certa vez:

 

Caramelos.... Caramelos.

Seguem os poetas revirando a relva carbonizada

em busca de caramelos...

 

Muito se diz da inocência do poeta em crer no poder da poesia. Mas o que fazer quando há a clarividência do absurdo humano? Quando há uma indignação? ― Manter-se pusilânime?

Será o poema apenas uma “salmoura” para seu sofrimento e de seus eventuais leitores?

Luis Gama, poeta abolicionista, nascido de pai português com uma escrava, e vendido ilegalmente pelo próprio pai como escravo, escreveu que “ser poeta não era debruçar-se sobre si mesmo, num irremediável narcisismo, mas voltar-se para o mundo, medi-lo com olhos críticos, zurzir-lhe os erros, as injustiças, as falsidades”.

“A arte existe para que o homem não morra da verdade” – assim disse Nietzsche. Mas será só essa a força do poema?

Foi no papel da poesia em manifestar os sentimentos mais profundos de seu povo que pensou o general egípcio ao responder ao questionamento feito pelos soldados judeus. Não se deve ignorar a tradição de um povo, ainda mais de um povo com uma história milenar. E como disse Uri Avnery: “ Só onde se compreendam esses sentimentos pode haver verdadeira paz. A paz costurada pelos políticos não vale grande coisa, se não houver alguma paz entre os poetas e a emoção dos muitos que a poesia manifesta.”

Finalizo deixando minha homenagem ao poeta Mahmoud Darwich, considerado o “Poeta Nacional da Palestina”. “Nunca quis ser o poeta nacional. Não queria fazer poesia política; queria ser lírico, poeta do amor. Mas, para qualquer lado para o qual se virasse, o longo braço do destino dos palestinos o alcançava e o arrastava de volta.”

Deixo apenas um conselho final aos possíveis críticos: desarmem-se de seus conceitos teóricos e estilísticos diante de um poeta que sofre com seu povo – tentem apenas sentir com os olhos...

 

 

 

 

Confissão de um terrorista!

Mahmoud Darwich

 

Ocuparam minha pátria

Expulsaram meu povo

Anularam minha identidade

E me chamaram de terrorista

 

Confiscaram minha propriedade

Arrancaram meu pomar

Demoliram minha casa

E me chamaram de terrorista

 

Legislaram leis fascistas

Praticaram odiada apartheid

Destruíram, dividiram, humilharam

E me chamaram de terrorista

 

Assassinaram minhas alegrias,

Sequestraram minhas esperanças,

Algemaram meus sonhos,

Quando recusei todas as barbáries

 

Eles... mataram um terrorista!

 

 

*** 

 

 

Chamada da Tumba

Mahmoud Darwich

 

Em memória do massacre de Kafr Kassem*

 

I

Minha morte aconteceu há oito anos

Tenho a mesma idade de meu pai

Chamamos a todos os viventes

A todos os que querem viver por muito tempo

Sobre a terra

Não debaixo dela

A todos os que querem

Que a trigo madure em seu campo

Semear e colher

Que a massa fermente em seus lares

Fazer o pão e comê-lo

Nós lhes pedimos: não durmam

Se querem viver por muito tempo

Sobre a terra

Não debaixo dela

Montem guarda... aqui o sol é de barro e miséria

Nossa idade se conta em anos de morte

Minha morte aconteceu há oito anos

Tenho a mesma idade de meu pai

 

II

Dizemos-lhes

Não queremos sobre nossas tumbas

Nem água nem flores

Nada está vivo aqui

Apenas os casulos de víbora e os vermes

Dizemos-lhes

Não queremos roupas de luto

Não há na tumba outra cor

Que a preta

Dizemos-lhes

Não queremos canções tristes

Intermináveis

Dormimos aqui

E nosso retorno é impossível

Dizemos-lhes

Cantem pela terra que permanece

Rebelem-se

Ensinem nossa história sombria

Aos filhos

A fim de que nosso sangue

Permaneça na bandeira dos criminosos

Como sinal de catástrofe

Pedimos-lhes

Protejam os fracos das balas

Para que os que vivam fiquem salvos

E os que nascerão no futuro

Ainda goteja a fonte do crime

Obstruam-na

E permaneçam vigilantes

Prontos para o combate

 

*Cidade convertida em santa após o massacre de 29 de Outubro de 1956.

 

***

 


Árvore dos salmos

Mahmoud Darwich

 

No dia em que minhas palavras forem terra…

Serei um amigo para o perfilhamento do trigo

No dia em que minhas palavras forem ira

Serei amigo das correntes

No dia em que minhas palavras forem pedras

Serei um amigo para represar

No dia em que minhas palavras forem uma rebelião

Serei um amigo para terremotos

No dia em que minhas palavras forem maçãs de sabor amargo

Serei um amigo para o otimismo

Mas quando minhas palavras se transformarem em mel…

Moscas cobrirão

Meus lábios!…


 

***

 

 

EU SOU DE LÁ

Mahmoud Darwich

 

Eu venho de lá e recordo

que nasci como todo mundo nasce, tenho uma mãe

e uma casa com muitas janelas,

tenho irmãos, amigos e uma prisão.

Tenho uma onda marinha que a gaivota arrebatou

tenho uma visão de mim mesmo e uma folha de capim

tenho uma lua passada no auge das palavras

tenho uma comida divina de pássaros e uma oliveira

além da quilha do tempo

atravessei a terra antes que espadas tornassem

os corpos banquetes.

 

Eu venho dali.

Eu faço o céu retornar à sua mãe

quando por sua mãe o céu chorar,

e eu choro querendo o retorno de uma nuvem

para me conhecer.

Eu aprendi as palavras de tribunais manchados de sangue

de forma a quebrar as regras.

Eu aprendi e desmantelei todas as palavras

para construir uma única: Lar.

 

 

 

***

 

 

A praça

Jorge Elias Neto

 

Estaria reservado no escaninho dos deuses

tão impensada tormenta?

 

Movimento primevo:

revoada dos pombos.

 

Quebrado o instante,

brancas penas restaram na praça.

 

Crianças absortas,

festejando o dia,

imaginaram dragões e fadas.

 

Anciões se entreolharam

e cismaram do céu...

 

Ato contínuo:

zunido, estrondo,

perplexidade.

 

Malfadado encontro:

pó e silêncio.

 

Os primeiros gritos,

embotados pela poeira do subentendido.

 

O som antecipou

a imagem suspeitada.

 

Fez-se a desolação

nos rostos que se ergueram.

 

Os primeiros gestos, lentos,

não acompanharam o frenesi do pensamento.

 

Desespero.

 

– Como é possível

minar tanta água

desses rostos de areia?

 

Coube ao acaso

a seleção dos fortes

(que recolheram os corpos).

 

Ao poema cabe

despejar sobre o chão,

e na cara dos facínoras,

uma resma de dúvidas.

 

De algum ponto,

cabe o recomeço.

 



* Benjamin Rodrigues Ferreira Filho. A técnica de destruição e o sofrimento humano. Em “Ver e entrever a comunicação – Sociedade, mídia e cultura”. Arte e Ciência Editora – 2008.

 

 

 

 

 

 

Jorge Elias Neto (1964) é médico cardiologista, pesquisador e poeta. Capixaba, reside em Vitória ES. Livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. - 2007), Rascunhos do absurdo (inédito). Participações com poemas em vários blogs e na revista eletrônica Diversos-afins.
Blog
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