MOZART
Il se lisent les grecs,
les suédois, allemands
ou la langue sucrée
de j` ne sais pas combien
de je ne sais pas qu`immobile morceau de page
clefs du soleil
peut-être le latin, l`alane, l`islandais
et c`est toujours le même musique
toujours comme une veine
dans une fleur épaisse obscène
Il dit un un épingle il dit autre
une vis
donc oui
une fine diffuse petit`chose presque morte
à moitié couchée
à moitié fermée
une intelligente chose muette
plus grande qu`un tir dans l`oreille
donc non
une espèce de porte
de douleur discrète.
Mon bon seigneur
regardez alors
dans les prairies, dans les tavernes
aux ermitages
aux armoires
un trace d`un chien
Dans les lunettes du premier violon
tout disparaît.
Avez vous sommeil, désir
de nouvelles saisons?
Avez vous des florins ?
Avez vous, par hasard, dans les jours passés
mains musicales, des signes
d`autres décès?
MOZART
Lêem-se os gregos
suecos, alemães
ou a doce língua
de não sei quantos
de não sei que imóvel pedaço de página
claves de sol
talvez o latim o alano o islandês
e é sempre a mesma música
sempre como um veio numa flor grossa obscena
Diz um um alfinete diz outro
um parafuso
pois sim
uma fina difusa coisinha semimorta
semi-deitada
semi-cerrada
uma inteligente coisa muda
maior que um tiro na orelha
pois não
uma espécie de porta
de dor discreta.
Meu bom senhor
olhai
nos prados nas tabernas
nos ermitérios
nos armários
um rasto de cão
Nos óculos do primeiro violino
tudo desaparece.
Tendes vós sono, desejo
de novas estações? Tendes florins?
Tendes, acaso, em dias
já passados
mãos musicais, sinais
de outras mortes?
***
L`HANNETON
Il retentit là dehors
et s`éparpille par la maison
dans la chaleur des arbres qui attendent
le plus court chemin
humain dans direction du ruisseau
l`hanneton son son de sonnette
de clochette
son astucieux repique et bientôt
des vagues souvenirs dans l`après-midi
un petit fil de mémoire dans les ouies
et c`est exact un être volant que dans
des tournoiements
il passe
par sur les roseraies
l`ombre raide des sens.
Un son d`harpe
de violons le notre regard réfléchi
dans les verres
de demain et d`aujourd`hui
Un geste maintenant
qui balbutie
un simple animal de métal en perçant l`après-midi
saisi bien saisi
de son talent
de son corps temporaire
souvenir de cieux éloignés
d`années repassées de poussière
d` heureux itinéraires.
O BESOURO
Soa lá fora
espalha-se pela casa
no calor das árvores que aguardam
o mais curto caminho
humano na direcção do ribeiro
o besouro o seu som de campainha
de sineta
astucioso repicar e logo
lembranças vagas na tarde
pequeno fio de memória nos nossos ouvidos
e é exacto um esvoaçante ser que em rodopios
perpassa
por sobre os roseirais
a sombra hirta dos sentidos.
Um harpejo
de violinos no nosso olhar reflectido
nos vidros
de hoje e amanhã
Agora um gesto um balbuceio
um simples animal de metal furando a tarde
seguro bem seguro
do seu talento da sua carne temporária
lembrança de céus distantes
de anos repassados de poeira
de roteiros felizes.
***
DOULEUR ET JOIE
Les amis qui sont
dans son pied de page
comme dans un cercueil fleuri
par les temps futurs
ils ont de nous le plus parfait des gestes -
un sourire tordu mais néanmoins vrai
et beaucoup de mains pour caresser des souvenirs
et beaucoup de dents en brillant pour créer l`été
et beaucoup de yeux dans repos pour dire que c`est tard
et beaucoup de cris pour dire que c`est tôt
et que c`est bien l`heure pour se réveiller
et de dormir par hasard
et de baller parmi les arbres
et de courir parmi les ombres
et la lumière qu` elles causent
et de souffrir un peu
un peu encore
comme des enfants sans remords et sans douleur
sans amertume
dans voyage à nouveau
sans efígie rêvée
et autre fois perdue.
O LUTO A ALEGRIA
Os amigos que estão
no seu pé de página
como em caixão florido
pelos tempos futuros
têm de nós o gesto mais perfeito -
um sorriso transido mas mesmo assim
verdadeiro
e muitas mãos para afagar lembranças
e muitos dentes luzindo para criar o verão
e muitos olhos em repouso para dizer que é tarde
e muitos gritos para dizer que é cedo
e que é a hora de acordar
e de dormir porventura
e de bailar entre as árvores
e de correr entre as sombras
e a luz que elas provocam
e de sofrer um pouco
um pouco ainda
como crianças sem remorso sem dor sem amargura
de novo em viagem
sem efígie sonhada
e já desaparecida.
in “Le mardi-gras” (Honfleur – 2003/8)
Trad. Nicolau Saião
***
COMMOTION DE NOËL
Je suis un espion plus que parfait
mes yeux mes mains ma silhouette
tout ce que j`ai appris tout ce que j`ai oublié
tout ce que j`ai vu Seigneur après votre décès
même les cuillères de bois et l`assiette brute
du dîner
au commencement de la nuit
même les chaussettes avec des trous de mon cousin
même la chemise en lambeaux de mon père
et les joyeux yeux tristes de ma mère
et ce qui nous achetons sans le paiement
et sans un dieu lui paye
Tout cela je garde dans mon coeur.
Dans les nuits les jours de mon adolescence
quand je m`asseyais à méditer
dans la roche peinte de blanc
au moyen du potager de la petite Armandine
qui m`offrait des marrons cuits quand c`était l`automne
et nettoyait mon front avec un mouchoir de lin
en regardant ma sueur de sang.
Tout cela est mon trésor
pour vous cher Monsieur pour vos anges
pour vos assistants dans la forêt céleste
pour les notaires de votre auguste Père
sans oublier le petit que vous avez été
et même le mendiant qui vous a aidé
à monter sur le petit âne
qu`il vous a transporté jusqu` à la porte Suse
ce jour lá de Pâques.
Ainsi, Seigneur, pardonne moi
mes défauts
mes brusques joies
mes étranges silences
et tous les poèmes que j`ai seulement pensé.
(2008)
COMOÇÃO DE NATAL
Sou um espião mais do que perfeito
os meus olhos as minhas mãos a minha silhueta
tudo o que aprendi tudo o que esqueci
tudo quanto vi Senhor depois da vossa morte
até as colheres de madeira e o prato rude
ao jantar
no começo da noite
mesmo as peúgas com buracos do meu primo
mesmo a camisa esfarrapada do meu pai
e os alegres tristes olhos da minha mãe
e quanto compramos sem pagarmos
e sem que alguém o pague
Tudo isso guardo no meu coração.
Nas noites nos dias da minha adolescência
quando me sentava a meditar
na pedra pintada de branco
no meio da horta da pequena Armandine
que me oferecia castanhas cozinhas no tempo de Outono
e me limpava a cara com um lenço de linho
olhando o meu suor de sangue.
Tudo isso é o meu tesouro
para si caro Senhor para os vossos anjos
para os vossos assistentes na floresta celestial
para os notários do vosso augusto Pai
sem esquecer o pequeno que vós fostes
e mesmo o mendigo que vos ajudou
a subir para o burrinho
que vos transportou até à porta Susa
naquele dia da Páscoa.
Perdoai-me assim, Senhor,
as minhas faltas
as minhas súbitas alegrias
os meus estranhos silêncios
e todos os poemas que ficaram só no pensamento.
(2008)
Tradução Ruy Ventura
Jules Auguste de Minvelle Morot nasceu em 1973 em Alc-le-Courtnay (Loire). Poemas dispersos em jornais e revistas, nomeadamente interactivas, agrupados sob o título de “Le mardi-gras” (alguns dos quais saídos em Portugal na “DiVersos – revista de poesia e tradução”). Em prosa deu a lume “La chambre engloutie”, relatos e reflexões novelizadas (tradução de NS na Agulha). Licenciado em biologia, exerce o professorado. E-mail: morojules@yahoo.fr