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21/1/2009 20:06:00
Nova poesia francesa




Por Jules Morot

 

MOZART

 

Il se lisent les grecs,

les suédois, allemands

ou la langue sucrée

de j` ne sais pas combien

de je ne sais pas qu`immobile morceau de page

clefs du soleil

peut-être le latin, l`alane, l`islandais

et c`est toujours le même musique

toujours comme une veine

dans une fleur épaisse  obscène

Il dit un   un épingle    il dit autre  

une vis

donc oui

une fine diffuse petit`chose presque morte

à moitié couchée

à moitié fermée

une intelligente chose muette

plus grande qu`un tir dans l`oreille

donc non

une espèce de porte

de douleur discrète.

 

Mon bon seigneur

regardez alors

dans les prairies, dans les tavernes

aux ermitages

aux armoires

un trace d`un chien

 

Dans les lunettes du premier violon

tout disparaît.

 

Avez vous sommeil, désir

de nouvelles saisons?

Avez vous  des florins ?

Avez vous, par hasard, dans les jours passés

mains musicales, des signes

d`autres décès?


 

MOZART

 

Lêem-se os gregos

suecos, alemães

ou a doce língua

de não sei quantos

de não sei que imóvel pedaço de página

claves de sol

talvez o latim o alano o islandês

e é sempre a mesma música

sempre como um veio numa flor grossa obscena

Diz um   um alfinete   diz outro

um parafuso

pois sim

uma fina difusa coisinha semimorta

semi-deitada

semi-cerrada

uma inteligente coisa muda

maior que um tiro na orelha

pois não

uma espécie de porta

de dor discreta.

 

Meu bom senhor

olhai

nos prados nas tabernas

nos ermitérios

nos armários

um rasto de cão

 

Nos óculos do primeiro violino

tudo desaparece.

 

Tendes vós sono, desejo

de novas estações? Tendes florins?

Tendes, acaso, em dias

já passados

mãos musicais, sinais

de outras mortes?

 

 

 

***

 

 

L`HANNETON

 

Il retentit là dehors

et s`éparpille par la maison

dans la chaleur des arbres qui attendent

le plus court chemin

humain    dans direction du ruisseau

l`hanneton   son son de sonnette

de clochette

son astucieux repique  et bientôt

des vagues souvenirs dans l`après-midi

un petit fil de mémoire dans les ouies

et c`est exact  un être volant que dans

des tournoiements

il passe

par sur les roseraies

l`ombre raide des sens.

 

Un son d`harpe

de violons   le notre regard réfléchi

dans les verres

de demain et d`aujourd`hui

Un geste   maintenant

qui balbutie

un simple animal de métal en perçant l`après-midi

saisi    bien saisi

de son talent

de son corps temporaire

souvenir de cieux éloignés

d`années repassées de poussière

 

d` heureux itinéraires.

 

 

 

O BESOURO

 

Soa lá fora

espalha-se pela casa

no calor das árvores que aguardam

o mais curto caminho

humano   na direcção do ribeiro

o besouro   o seu som de campainha

de sineta

astucioso repicar  e logo

lembranças vagas na tarde

pequeno fio de memória nos nossos ouvidos

e  é exacto  um esvoaçante ser que em rodopios

perpassa

por sobre os roseirais

a sombra hirta dos sentidos.

 

Um harpejo

de violinos no nosso olhar reflectido

nos vidros

de hoje e amanhã

Agora um gesto  um balbuceio

um simples animal   de metal furando a tarde

seguro   bem seguro

do seu talento  da sua carne temporária

lembrança de céus distantes

de anos repassados   de poeira

 

de roteiros felizes.

 

***

 


DOULEUR ET JOIE

 

Les amis qui sont

dans son pied de page

comme dans un cercueil fleuri

par les temps futurs

ils ont de nous le plus parfait des gestes -

 

un sourire tordu   mais néanmoins vrai

et beaucoup de mains pour caresser des souvenirs

et beaucoup de dents en brillant pour créer l`été

et beaucoup de yeux dans repos pour dire que c`est tard

 

et beaucoup de cris pour dire que c`est tôt

et que c`est bien l`heure pour se réveiller

et de dormir par hasard

et de baller parmi les arbres

et de courir parmi les ombres

et la lumière qu` elles causent

et de souffrir un peu

un peu encore

comme des enfants sans remords  et sans douleur

sans amertume

dans voyage à nouveau

 

sans efígie rêvée 

et autre fois perdue.

 

 

O LUTO A ALEGRIA

 

Os amigos que estão

no seu pé de página

como em caixão florido

pelos tempos futuros

têm de nós o gesto mais perfeito -

 

um sorriso transido mas mesmo assim

verdadeiro

e muitas mãos para afagar lembranças

e muitos dentes luzindo para criar o verão

e muitos olhos  em repouso para dizer   que é tarde

 

e muitos gritos para dizer que é cedo

e que é a hora de acordar

e de dormir porventura

e de bailar entre as árvores

e de correr entre as sombras

e a luz que elas provocam

e de sofrer um pouco

um pouco ainda

como crianças sem remorso  sem dor  sem amargura

de novo em viagem

 

sem efígie sonhada 

e já desaparecida.

 

   

in “Le mardi-gras” (Honfleur – 2003/8)

Trad. Nicolau Saião

 

 

***

 


COMMOTION DE NOËL 

 

Je suis un espion plus que parfait

mes yeux mes mains ma silhouette

tout ce que j`ai appris tout ce que j`ai oublié

tout ce que j`ai vu Seigneur après votre décès

même les cuillères de bois et l`assiette brute

du dîner

au commencement de la nuit

même les chaussettes avec des trous de mon cousin

même la chemise en lambeaux de mon père

et les joyeux yeux tristes de ma mère

et ce qui nous achetons sans le paiement

et sans un dieu lui paye

 

Tout cela je garde dans mon coeur.

 

Dans les nuits les jours de mon adolescence

quand je m`asseyais à méditer

dans la roche peinte de blanc

au moyen du potager de la petite Armandine

qui m`offrait des marrons cuits quand c`était l`automne

et nettoyait mon front avec un mouchoir de lin

en regardant ma sueur de sang.

 

Tout cela est mon trésor

pour vous cher Monsieur pour vos anges

pour vos assistants dans la forêt céleste

pour les notaires de votre auguste Père

sans oublier le petit que vous avez été

et même le mendiant qui vous a aidé

à monter sur le petit âne

qu`il vous a transporté jusqu` à la porte Suse

ce jour lá de Pâques.

 

Ainsi, Seigneur, pardonne moi

mes défauts

mes brusques joies

mes étranges silences

 

et  tous les poèmes que j`ai seulement pensé.

 

(2008)

 

 

 

COMOÇÃO DE NATAL

 

Sou um espião mais do que perfeito

os meus olhos as minhas mãos a minha silhueta

tudo o que aprendi tudo o que esqueci

tudo quanto vi Senhor depois da vossa morte

até as colheres de madeira e o prato rude

ao jantar

no começo da noite

mesmo as peúgas com buracos do meu primo

mesmo a camisa esfarrapada do meu pai

e os alegres tristes olhos da minha mãe

e quanto compramos sem pagarmos

e sem que alguém o pague

 

Tudo isso guardo no meu coração.

 

Nas noites nos dias da minha adolescência

quando me sentava a meditar

na pedra pintada de branco

no meio da horta da pequena Armandine

que me oferecia castanhas cozinhas no tempo de Outono

e me limpava a cara com um lenço de linho

olhando o meu suor de sangue.

 

Tudo isso é o meu tesouro

para si caro Senhor para os vossos anjos

para os vossos assistentes na floresta celestial

para os notários do vosso augusto Pai

sem esquecer o pequeno que vós fostes

e mesmo o mendigo que vos ajudou

a subir para o burrinho

que vos transportou até à porta Susa

naquele dia da Páscoa.

 

Perdoai-me assim, Senhor,

as minhas faltas

as minhas súbitas alegrias

os meus estranhos silêncios

 

e todos os poemas que ficaram só no pensamento.

 

(2008)

Tradução Ruy Ventura

                                                    

 

 

 

 

 

 

Jules Auguste de Minvelle Morot nasceu em 1973 em Alc-le-Courtnay (Loire). Poemas dispersos em jornais e revistas, nomeadamente interactivas, agrupados sob o título de “Le mardi-gras” (alguns dos quais saídos em Portugal na “DiVersos – revista de poesia e tradução”). Em prosa deu a lume “La chambre engloutie”, relatos e reflexões novelizadas (tradução de NS na Agulha). Licenciado em biologia, exerce o professorado. E-mail: morojules@yahoo.fr

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Publicações de um autor no Cronópios
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Martins Fontes - A livraria do Cronópios