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21/1/2009 20:20:00
C.Ronald ou os fogos da noite



Por Nicolau Saião e C.Ronald




                     C. Ronald por Tércio da Gama


   
A voz dos deuses não é sempre que fala. Tal como a voz do poeta. Mas, quando isso sucede, há fogueiras na noite que se põem a tremeluzir. Contudo, a voz dos deuses é pouco segura, afasta-se para além de nós, oscila, cria espaços de sombra à escala do destino dos seus senhores: porque os deuses vão secularmente desaparecendo mas a medida dos homens é diferente, resiste e a sua sombra é mais humilde – como a dum gato, dum arbusto, duma oliveira. Duma pessoa, simplesmente.

   Recorra-se então à voz do poeta. Ela tem fracturas, o sangue estanca-se, a penumbra faz-se de súbito nuns olhos inquietos. Não importa, o sinal aí permanece, se propaga e entende. Alastra. Seja num descampado ou dentro duma casa, os sons ouvem-se, é inegável o eco despertado. Em redor da nossa cabeça cria-se como que um espaço de brusca realidade – e é então que as figuras e as palavras começam a aparecer: estranhas salas repletas de mesas e reposteiros onde passam claros e sóbrios vultos de mulheres, coisas simples aos cantos que tomam outro perfil, o som de flautas, de violões e até de guitarras espanholas. E de repente um silencio que se dilata mas fica ocupado por um grito reboante e claro, possivelmente feliz. O poeta interroga-se, mas não é tudo uma interrogação? Não é tudo a dúvida de quem, não sabendo, conhece todavia muito do que subjaz às frases? Evidentemente, é o mistério da poesia, essa florescida necessidade que tanto parte do acaso como a ele conduz, essa chama que o poeta acende com ramos e com papéis, com tecidos, com substancias inomináveis, com os próprios dedos e que deixam rastos de fogo nas paredes e, principalmente, nas páginas que se organizam em forma de livros.

   C.Ronald conhece bem os diversos rostos das palavras. Assim como conhece a face da alegria e do sofrimento, desse quotidiano que muitas vezes nos fere e nos angustia. 

   Conhece as ruas e a floresta, conhece o que há dentro duma cozinha e também dentro dum coração desconhecido, o que se esqueceu para sempre dentro dum quarto, o que se tem e teve, vulgar e por isso mesmo absolutamente belo, numa saleta que se recorda duma casa que amámos. Um rosto de velho ou de criança, as mãos dum amigo que se foi. Os ruídos do mar e o vozear da freguesia quotidiana num bar ou numa cidade que se visitou pela primeira vez.

   Nos seus poemas existe sempre uma busca do que é significativo, ele procura sempre aprofundar o conhecimento possível para que se entenda o como e o porquê da escuridão que por vezes envolve o mundo.

   A meu ver, este poeta de que tenho falado com empenho através da voz e da escrita é possuidor de um método de renovação da visão há mais de quarenta anos. E muitos o têm entendido.  

   Nos sons da sua poesia algo se prolonga e percebe-se neles a mais nobre e serena música, como num mundo que discreto se renova e se continua a ouvir através das páginas e dos campos onde as fogueiras iluminam a noite.

                                                                                                       Nicolau Saião



 

                                                *** 

 

 

 

P o e m a s   
C.Ronald          


O GAROTO STRAVINSKY

Lendo Carl Spitteler numa primavera horrível.
Não é possível ser grande
com tamanha tagarelice.
Stravinsky (o certo) descobriu isso
despindo-se (noutra). Passa a língua nas notas.
Dia maravilhoso nesse bar de praia e dizer:
estou em falta contigo, "a tragédia
não tem nada a haver com a sujeira que
deixa". Uma volta nos arrabaldes (lavam as
máquinas matricidas) póstumos entre colunas
gregas. Ah, nunca, antes
de estremecer no horário o ano vindouro com
novela numa TV idiota.
E parturientes de acéfalos
já desligados da casca. Ora!
Igor sustenta nosso futuro. Por aqui, tudo bem. Então discutem sem
definição alguma, encolhidos na alcova. Especialistas de
cemitério tampouco vi. Claro, somente coveiros,
mas estes nunca levaram a sério uma cova
e tampouco a própria.

 

  (in Como Pesa!, 1993) (a)

 

***

 

 

Eis a porta que range com aquele que entra:

domínio da incerteza para mais de um corpo

e o silêncio desfeito. A terra depois disto

e o tamanho inexato daquele que a tenta

 

como parente estranho que nem era homem

entregue ao acaso com a visão atiçada

no acúmulo de cartas quando pesa o nada

na permanência inútil e no lugar dos nomes.

 

Mãos em coisas pequenas só alargam a morte

no que consomem do outro. Mas o verbo firma-se

em cada grito de antes sendo ainda mais forte.

 

Ai, meus Senhores, funde-se o pressentimento.

Não sois nada, nem há folha fora dessa bíblia

que não seja virada e lida cada noite...

 

 

(in Gemônias, 1982) (a)

 

***

 

 

NA CANTINA DO BOSQUE

 

 

Recebendo o presente dos amigos, começo

uma idade nova sem mudar os hábitos.

Eu, animal ainda não notado na natureza.

Pronunciem um nome que a identidade se apresenta.

Não é um local apropriado para a alma

a realidade que os adultos inventam.

 

Qualquer lugar deste país, embrutece.

As aves choram o vermelho da terra esfolada.

Ah, regato perfeito, a voz humana

só é percebida depois de perdidas as palavras.

A sordidez é toda a História e ali

qualquer lembrança pode ser rival dos sentidos.

 

De certo há muita coisa a nos integrar.

Uma bela italiana a nos servir.

A alma rústica não sabe o que é pensar

antes que nos roubem, rápido, sua essência.

No cardápio o avesso foi escrito por alguém:

“Temos que comer o que nos é dado olhar”.

 

(in A Cadeira de Édipo, 1993) (a)

 

 

***

 

Um dia vês o quanto o rosto pode mudar do amor que está por baixo dele.
Há sons da destruída força. O íntimo revelado da caça após aberta
num cenário silvestre; e não havia relevo de montanha que a adornasse.
O rosto caçador de olho na mira contra si mesmo, sempre!
E sempre errando na distância humana que o espírito deixou.
Tudo aparece e não desvia o angustiado conjunto no infinito.
Sem alma nesse aumento então se altera, procura soluções
na semelhança "com o que é da terra e a terra canta".

 

(in Cuidados do Acaso, 1995) (a)

 

 

***

 

 

Para estar na paisagem

 

Assim que entro, a casa estabelece as regras,

o apoio da terra, as mãos como duas naturezas

juntas e algo que não fui quando chego à cozinha:

algoz e vítima, alimento e gosto, amor e ódio

sobre o mesmo fogo. Tu estavas distante

dessa história, iluminada e nua. Débil eco

para quem precisa do encanto, das coisas antigas

e das novas. Ainda uma vez mais os sonhos tentam

o existido com o que fica dos mortos. O hábito

com que provo o tempo nessa noite de chuva.

Acima de nós, beleza e verdade confundem

a liturgia das raízes, o manancial dos enigmas

a graduar o acaso por tudo que tivemos juntos

entre frutos e flores.

 

(in As coisas simples, 1986) (a)

 

 

***

 

65

Vidas divergentes e vinho aberto

não é o mesmo que vinho tomado às pressas

Após a insistência do nada entre várias horas

pergunto em quanto tempo o sonho é necessário

A rigidez de certo bicho sobre a presa

já é o antecedente da cópia perigosa

nos limites do homem alguma coisa interior

é uma vida sem nada

esta ou aquela foto em mil pedaços

ele sem uma parte do rosto ao lado de uma rosa

sabe quais são os defeitos da morte

vê a criança brincando com a mentira

atados os dois finais de diferentes modos

 

(in Ocasional Glup, 1999) (b)

 

 

***

 

25

o interesse de enterrar o pescoço para vê-lo de novo

há sempre um outro passo próximo do desespero

a piedade permanece em dúvida

quando todos escutam a sinfonia do instinto

 

é terrível quanto mais terrestre é o mergulho

do homem até o sangue ele complica a realidade

misturando tudo do êxito e até motores

incorrigíveis quando o filho execra

 

a tarefa de pensar no mundo

tirando cera do ouvido ou espremendo

a espinha da testa

 

(in A Razão do Nada, 2001) (b)

 

 

***

 

280

verso não se parece a nada

nódoa sobre ele só com

tinta

referente ao verso sem palavra

deixa o mais urgente

na exceção que inscreve

o gesto notável do lado esquerdo

do braço quando não há corpo

não há gente para compensar

o peso do osso

o aval da tortura

talvez a poltrona

quem sabe a relatividade

do objecto colocado ali como número

lido

já que não é verbal a água

a referência carregada de uso

os paradoxos mexidos no exemplo

ou deixar o lugar fora dos

costumes

 

(in Os Sempre, 2003) (b)

 

 

***

 

 

REGATOS

 

        Como posso organizar minha agonia? Pão pela metade soando justo na mão do pobre. No fio da cimitarra a areia fica com o sangue judeu. E sou metade judeu, a outra parte não condiz com as sílabas metálicas de uma lua acima da idéia que Cristo lembrou.

        Noite sem movimento. O cativeiro permanece ao lado da bravura em que há bichos luminosos nas roldanas do parque. Há o nascimento perturbado do outono e as árvores fogosas descontentam os ventos que parecem leves para os figurantes da ópera da aldeia. Longas madeixas incendiadas das matutas arqueadas sobre as lages do riacho, esfregando a morte.

        Ah, barrigudas na devolução deviam causar fumaça em cada sombra árida ou sulco no barro, misturando moral e língua fora da boca.

         Eram tantos os nascimentos...

 

(in Caro Rimbaud, 2006) (b)

 

 

 

***

 

 

67

Morrer imitando o teu jeito de morrer

é possível se no meu corpo trago o teu encanto

Horas oblíquas do fim que surge da sombra

familiar abaixo do anjo prematuro e veemente

Tudo pode voltar e dar nome ao que senti sempre

A solidão virá modificada e a ausência não será

a mesma nem as coisas dadas por engano

Morrer no teu silêncio amando essa conjunção

que não havia ainda dentro ou fora do tempo

A terra tornou-se outra vez o sentido diferente

do teu corpo submisso ao meu tormento

Que coragem para resistir e emboscar a existência

Afortunada representação do lado novo e antigo

dos sentidos com a inocência feita por si mesma

Mas haja memória na galeria humana dos descrentes

que tudo oferece de mal ou bem no pior silêncio

 

 

(in “Ocasional Glup”) (c)

 

 

***

 

 

135

quero o sentido não o corpo que vai

depressa o murmúrio dos anjos

que já ouviste a vontade matinal

do domingo em sua cápsula de vidro

quero o não-querer que foi ouvinte

de um amor sem razão para si mesmo

aquela coisa caida ou aquela

visão sem jeito para ser da vida

meu anjo sem dever de bondade

pelo que desejo sempre e desejaria antes

do tempo inexistente com amor tão grande

para ouvir uma palavra que não encerrasse

tudo e no entanto bastasse eternamente

 

 

(in “A Razão do Nada”)  (c)

 

 

*** 

 

 

275

vai

fomenta o riso com a delicadeza

do argumento

depois disso teu cérebro

é apoteose do principal

e canta exato

no colo da imagem

frustra o rude mas

não impede o frio em abril

 

 

permanecer com o bem não é

muito simples

sem qualquer refeição

não se chega ao prato

a abstração chega perto do céu

para treinar com Deus

e equilibra o silêncio

na mulher

no museu

na memória

depois

eu limpo tudo

 

 

(in “Os Sempre”) (c)

 

 

 

(a)  Escolhidos por NS

(b)  Escolhidos por Ruy Ventura

(c)  Escolhidos pelo Autor

 

 

 

 

 

 

 

Nicolau Saião (Monforte do Alentejo - Portalegre, 1946) é poeta, publicista, actor-declamador e artista plástico. Participou em mostras de Arte Postal em países como Espanha, França, Itália, Polónia, Brasil, Canadá, Estados Unidos e Austrália, além de ter exposto individual e colectivamente em lugares como Lisboa, Paris, Porto, Badajoz, Cáceres, Estremoz, Figueira da Foz, Almada, Tiblissi, Sevilha, etc. Organizou, com Mário Cesariny e C. Martins, a exposição “O Fantástico e o Maravilhoso” (1984) e, com João Garção, a mostra de mail art “O futebol” (1995). Tem colaboração diversa na imprensa cultural em vários países: “DiVersos” (Bruxelas), “Albatroz” (Paris), “Os arquivos de Renato Suttana”, “Agulha”, “Jornal de Poesia” (Brasil), Mele (Honolulu), Espacio/Espaço Escrito (Badajoz), TriploV, revista Bíblia, “Saudade”, “Callipolle”, “A cidade”, “Petrínea”, revista “Sílex”, “Colóquio Letras”, “Jornal de Poetas e trovadores”, “A Xanela” (Betanzos), “Revista 365”… Concebeu, realizou e apresentou o programa radiofónico “Mapa de Viagens”, na Rádio Portalegre (36 emissões), um dos mais conceituados e ouvidos no ranking do Alentejo. Fez para a “Black Sun Editores” a primeira tradução mundial integral de “Os fungos de Yuggoth” de H.P.Lovecraft (2002), que anotou, prefaciou e ilustrou, o mesmo se dando com o livro do poeta brasileiro Renato Suttana “Bichos” (2005). Organizou, coordenou e prefaciou a antologia internacional “Poetas na surrealidade em Estremoz” (2007). Com João Garção e R. Ventura coordenou “Fanal”, suplemento cultural publicado mensalmente no semanário alentejano ”O Distrito de Portalegre”, de Março de 2000 a Julho de 2003. Até se aposentar recentemente, foi durante 14 anos o responsável pelo Centro de Estudos José Régio, na dependência do município de Portalegre. E-mail: nicolau19@yahoo.com  

 

 

C.Ronald, nome literário de Carlos Ronald Schmidt, nascido em 1935 no estado de Santa Catarina (Brasil), é uma das mais discretas e mais importantes vozes da poesia contemporânea de língua portuguesa. A sua obra, como refere Mário Pereira, “é feita de material permanente, que o poeta-pensador extraiu das percepções e vivências para construir seu mundo surpreendente e inquietante. [...] Abstrata, complexa, de uma racionalidade tão aguda que atropela a lógica formal com a visão surrealista e despreza tudo o que é circunstancial, exige entrega para ser desfrutada”. Publicou os seguintes livros: As Origens (Rio de Janeiro, 1971), Ânua (São Paulo, 1975), Dettagli dell’ Assenza (Itália, 1975), Dias da Terra (São Paulo, 1978), Gemônias (Florianópolis, 1982), As Coisas Simples (Rio de Janeiro, 1986), Como Pesa! (Florianópolis, 1993), A Cadeira de Édipo (São Paulo, 1993), Cuidados do Acaso (São Paulo, 1993), Todos os Atos (São Paulo, 1997), Ocasional Glup (São Paulo, 1999), A Razão do Nada (São Paulo, 2001), Os Sempre (Florianópolis, 2003) e Caro Rimbaud (Florianópolis, 2006). E-mail: poeta@cronald.com.br

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