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9/3/2009 16:24:00
Lavra palavra




Por João Bosco Bezerra Bonfim

 

n feito (Ed. do autor, 2009)

 

in feito

 

I

 

hoje eu quero dizer

um poema que não vem da palavra

uma poema que - antes de tudo -

vem da voz sem palavras

 

uma voz que é um aboio

um canto, um choro animal

por isso, tanto sentir

guarda esse poema primal

 

não é que negue o abrigo

que as palavras-leito me dão

é que não vejo mais nelas

a de minha vida expressão

perdido que fui pelo engano

de tanta tanta razão

 

 

 

II

 

meu poema, pois, sem palavras,

só chora e só ri

só voa e cai

só dança e sofre

 

meu poema – como a folha –

não sabe por que nasceu

nem porque, vento frio,

da árvore se desprendeu

 

 

 

III

 

entanto nem Maiakóvski nem Quintana

o acompanham em sua sina tirana

de mal nascer, e já morto,

livre das palavras

não ter rio em que escorrer

 

 

 

IV

 

o meu silêncio não é feito

de abismo de palavras

é, sim, de montes e escarpas

nos quais não ouso escalada

 

de abismo só compartem

a sombra e a escuridão

de verbos exilados

de cartório e de canção

 

e se ouso uma só soltar

soa grotesca e flamejante

a ferir vista e ouvido

lume gutural atordoante

 

se me fogem símile aladas

aves trôpegas esquisitas

pousam, agouras,

anticânticos proscritos

 

selem-se, pois

- mil correntes! –

caverna e pena dessa voz

condoreira ou algoz?

 

 

 

V

 

o inverso do espelho

mostra bruta a cara

de quem se oculta, felino

na obscuridade mais clara

 

roda da fortuna

 

na rota roda dos enjeitados

em que a música cessa e dispara

qual ciranda no jogo das cadeiras

quando a sorte se faz mais avara

 

assim, no quadro negro, os poetas

e grafiteiros sutis de amuradas

quedam e avançam, ao descompasso

da lenta música, ou acelerada

 

e nem bem impingem sinal no muro

com néscio pedacinho de verdade

lá vem o jato da Limpeza Urbana

 

apagando –  mas só pela metade –

para que se lembrem que são o tudo

que o nada invade sem alarde

 

.... 

 

 

amador amador (Ed. do autor, 2001)

(ver também www.lavrapalavra.com.br)

 

 

 

Quem vela

e quem revela

o oculto sonho?

senão o papel

que esconde

e mostra

quando quer

o incontido desejo

o desejado querer

num jogo de sombra

e luz que desvela

e que seduz

 

 

.....


24 horas

 

o amor é a

soma de

milhões

de esquecimentos

e uma lembrança

 

.....

 


barcos do rio vermelho

 

quero um amor feito

barco

a ondear mansidão

sem prumo

a passear na escuridão

tempestades

e a voltar ao ponto como

um arco

 

quero amoroso este

barco

em minhas tristes tardes

mirar

quando sem terra

sem mar

me apego à fina dor do

remorso

 

quedo em seus vãos

vagaroso

em tortos pensamentos

qual fosse

leme pela tortura dos ventos

guiado

 

que é deste barco

que foge?

que é deste barco

que adia?

ora louca onda

sacode

ora vela em 

calmaria

 

quero a este barco

amoroso

me abraçar de

madrugada

qual fosse náufrago

saudoso

que não lembrasse

de nada

 

......

capim

a dor

fere

– lâmina

 

capim 

a dor

arde

        em pelo

 

capim 

a dor

acarinha

– orvalho

 

capim

a dor

queima

– seco

 

.......

 

memória

 

tinha cá

guardadas

umas pedras

que colhi

 

viraram areia

e escorreram

ladeira abaixo

tão discretas

que nem vi

 

também uns

frescores

de banho

de cachoeira

decerto

evaporaram

 

e agora

de tardezinha

faz  tanto

calor na

minha lembrança

que esqueço

o quanto

me embalaram

 

mas o que

fazem aí

esses olhos

me fitando

feito quem

fere?

se os

despedi

– faz anos –

da minha

cansada

vista?

 

 

 

e o que faz

esse cheiro,

forte e nada

        sumitivo ?–

se, faz anos,

dessenti

esse olor?

 

 

 

tinha cá umas

lâminas

ferindo

até o vento,

mas dissolvi

em espumas

e fiz bolhas

de sabão

 

mas o que faz

esse medo

de encontrar

esse cheiro

esses olhos

se – faz séculos –

perenizei

um desencontro?

 

tinha cá uns

gelos resfriando

impulsos e pulsos

mas transmudaram

em travesseiro

que me adormecem

em diurnos desejos

e noturnos despejos

 

 

então não sei

o que faz

esse calor só

de lembrar

na palma da mão

aquele toque?

 

 

....

 

 

Poemas de Pirenópolis pedras janelas quintais (Ed. Plano, 2003)

 

 

quintais

 

quem não os

conhece

(e é quase

ninguém)

nada sabe

nada vê

nada sente

nada crê

de Pirenópolis

 

 

é da natureza

dos quintais

a reserva

 

ali as famílias

plantam fruteiras

enterram mágoas

criam galinhas

guardam segredos

 

 

é do ser quintal

ser amplo e vasto

(mesmo os mais

exíguos)

já que quintal

é mundo

universo

aos primeiros

olhos formado

 

 

gigantescas mangueiras

jaboticabas sem fim

abacateiros ao céu

laranjeiras estreladas

do próprio éden jardim

 

 

mas é também

dos quintais

ser assombro

esconder bichos

noite chegada

 

monstros insondáveis

a velar pelo sossego

das desassossegadas mães

 

mas de dia

domados

pelo cantar dos

galos

bichos pra que

te quero

é nosso reino

o quintal

outra vez

 

 

 

é dos quintais

acolher

é dos quintais

esconder

segredos que o

nunca mais

ser encarrega de

resolver

 

 

e é no jogo

de esconder-esconder

que ocultam-se

os quintais

das casas

de Pirenópolis

de sedutoras

janelas

atrás 

 

mas – de vez em

nunca –

nos é dado

conhecer

um que outro

segredo

de quintal

pelos muros

de adobe

corroídos pelo

tempo

 

 

mas o que se

vê ali?

será choro

de criança

abandonada?

lamento de mulher

do marido

apartada?

soluço de desamado

marido?

será lembrança

de amor partido?

sombra de riqueza

tragada?

nada não

pura ilusão

pois o quintal

bom confidente

   revela

–reticente 

nosso próprio

segredo

que, por sua vez,

está guardado

em nosso mesmo

quintal em

inalcançado

degredo

 

 

 

 

 

 

 

 

João Bosco Bezerra Bonfim nasceu em Novo Oriente, CE, em 1961. Mudou-se para Brasília em 1972. Formou-se em Letras, com mestrado em Linguística e doutoramento em curso. É pesquisador da poesia popular, a qual homenageou em versos no livro Romance do Vaqueiro Voador (LGE, 2004) e No Reino dos Preás, Rei Carcará (Elementar, 2009). Publicou em torno de 20 livros. Outros livros: A fome que não sai no jornal, Chronica de Dona Maria Quitéria dos Inhamuns, O Jipe Cangaceiro na Chapada dos Veadeiros, Era uma vez uma Maria Farinha, São Chiquinho ou O Rio Quando Menino. Site: www.lavrapalavra.com.br E-mail: jbbbonfim@gmail.com

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