A poeta Vera Americano cursava Letras na Universidade de Brasília (UnB), quando, premiada pela União Brasileira de Escritores, teve o seu primeiro livro publicado. A hora maior motivou uma intensa e preciosa correspondência entre a autora e o filósofo português Agostinho da Silva, que afirmou: “A sua exactidão é um caminho para o divino, não um fim em si própria: o seu reino não é a oficina, mas um céu indistinguível da terra. A sua forma perfeita seria o hai-kai, o contado número de sílabas para conter o máximo de emoção. (...) E os há nos seus poemas.” No Rio de Janeiro, fez mestrado em Literatura Brasileira na PUC-RJ, época em que participou de movimentos como o Expoesia, enquanto incorporava aos seus interesses a questão da cultura brasileira, o que resultou no convite para integrar o grupo pioneiro do Centro Nacional de Referência Cultural (CNRC), sob a liderança da Aloísio Magalhães, no final década de 1970. O passo seguinte foi a gerência de projetos na Fundação Nacional pró-Memória. Nesse período, seus poemas freqüentaram antologias, suplementos literários e a revista “Poesia Sempre” da Biblioteca Nacional, voltando à edição em 2004, com Arremesso Livre, pela Relume Dumará, quando já exercia a atividade de consultora da área da cultura do Senado. Andou por sites (Máquina do Mundo, Casa das Musas, Diversos Afins) e atualmente prepara novo livro. De sua poesia, diz Chico Alvim no prefácio de Arremesso Livre: “A noção de lugar está muito viva na construção destes poemas. Não apenas do lugar em si, mas das relações que a idéia de lugar gera: o movimento no tempo e no espaço, a inércia, a mutabilidade e a imutabilidade, a fusão do real com o imaginário. Talvez essa intuição acerca de lugar, básica na poesia de Vera Americano, esteja na raiz da forte sensação de concretude e abstração que resulta da leitura de Arremesso livre.”
João Bosco Bezerra Bonfim
POEMAS DE ARREMESSO LIVRE
OBSIDIANA
Oh! Olhar de larva,
cinza muda,
pedra.
Olhar etíope
a cruzar o Eufrates
procurando o cerne.
Me olha de novo
do canto escuro
do teu olho preto:
te juro tudo,
de amor a mel.
CARA OU COROA
Indissolúveis
até
o desatino.
Somos
o sumo
e a mordida.
EXÍLIO
1.
Desconfio de mim
em outro lugar
a carpir saudades
jamais sentidas daqui.
2.
Esta árvore
é a árvore?
ou a ilusão fabricou
a sombra doméstica,
espinho do desterro?
FILME NOIR
Um silêncio oco, de catedral,
passos ressoam,
uma porta bate.
Se você não percebeu,
fui eu,
definitivamente.
SINAIS
1. Pura expiação:
te beijar a nuca
sem querer retorno
sem pedir perdão
deliberadamente
sem horizonte
ou pressa.
2. Vero tormento
o sutil sussurro
d’ água subterrânea
jorrando dentro de mim,
a correr para um só lado:
represa.
DUPLO MORTAL
Postar-se
no desvão
entre dois argumentos,
por dois segundos.
Respirar
economicamente
entre duas palavras,
duas ondas
muito crespas.
Decidir
em sânscrita ilusão:
viver
ou deixar para mais tarde.
***
POEMAS DE A HORA MAIOR
SUBMISSÃO
Um fogo agudo e medonho
me queimou.
(talvez eu tenha morrido
e não saiba que
minha sombra oblíqua na parede
é um retrato).
MOMENTO
(um telefone esquecido tocando longe)
Ásperas,
as nossas mãos se buscando
num desencontro assombrado
com medo de estrelas móveis,
sombras que o tempo comeu.
(o telefone insistindo)
Triste.
ISOLAÇÃO
Da vinda
da vida
só lembro
lamento:
preciso.
EPIGRAMA
O tempo que, derrubado,
restou
do teu perfume e amor,
trouxe,
ave fugitiva,
o velho laço atingido.
***
POEMAS INÉDITOS
CRATERA
Daqui
pode-se ver:
a eternidade
termina
logo ali.
MAÇÃ
1.
a perfeição
vem
do rigor.
a doçura
subverte
o conjunto.
2.
sob a pele
hermética
o sabor do éden
negociável
a cada mordida.
3.
esmero
e lustro
suntuosamente
armados
sobre o prato.
os sentidos
hesitam:
repentina afeição.
4.
o fruto
silencioso
resgata a função
dos dentes.
na contramão,
o desassossego
pela ruptura iminente.
o nexo?
esse foi devorado,
em desatino.
O PODER ENFEITIÇADOR DA MIRAGEM
Era apenas
delicadeza
a enfeitar tua respiração
entre as palavras.
ESCASSEZ
Ah! o engano
a alimentar
a garganta esfolada
sem que verta o cântaro.
Porque toda véspera
é tensa
e pulsa
seu esforço ainda vazio.
A véspera
é pura sede.
AS QUATRO ESTAÇÕES
1.
Expor-se ao néctar
e ao aroma dos jasmins:
nada é tão violento
quanto a primavera.
2.
Dos verões
tudo se esquece.
Apenas
um certo azul
persiste
em tons de asa
e ressoa porta afora
prenunciando a chave
na ranhura.
3.
Errantes pernoites
trazidos pelo vento
denunciam
a indecisão:
nem bem verão
e já tão inverno.
4.
Aconchegante,
a falsa lareira
fabrica o frio.
Só o queixo treme
sutilmente
com medo do medo.
BODAS
A memória
desloca uma peça
e tudo muda:
o ar menos denso,
a garganta pronta
para a palavra mais terna.
A exclusão constrói.
ANEL
Estupendo fulgor
teu corpo exala
em torno da possibilidade:
soma-se ao aro
o ébrio diamante.
Vera Americano nasceu em Minas Gerais e residiu entre Goiás, Rio de Janeiro e, mais tarde, em Brasília. Estudou Letras na Universidade de Brasília (UnB), e fez mestrado em Literatura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ). Foi professora de teoria da literatura na Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro. Em Brasília, trabalhou no Centro Nacional de Referência Cultural (CNRC) e no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Atualmente, trabalha na Consultoria Legislativa do Senado Federal, na área de cultura e patrimônio histórico. Publicou os livros A hora maior e Arremesso Livre (Relume Dumará). E-mail: veraamericano@uol.com.br