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10/3/2009 23:36:00
Arremesso livre




Por Vera Americano



A poeta Vera Americano cursava Letras na Universidade de Brasília (UnB), quando, premiada pela União Brasileira de Escritores, teve o seu primeiro livro publicado. A hora maior motivou uma intensa e preciosa correspondência entre a autora e o filósofo português Agostinho da Silva, que afirmou: “A sua exactidão é um caminho para o divino, não um fim em si própria: o seu reino não é a oficina, mas um céu indistinguível da terra. A sua forma perfeita seria o hai-kai, o contado número de sílabas para conter o máximo de emoção. (...) E os há nos seus poemas.” No Rio de Janeiro, fez mestrado em Literatura Brasileira na PUC-RJ, época em que participou de movimentos como o Expoesia, enquanto incorporava aos seus interesses a questão da cultura brasileira, o que resultou no convite para integrar o grupo pioneiro do Centro Nacional de Referência Cultural (CNRC), sob a liderança da Aloísio Magalhães, no final década de 1970. O passo seguinte foi a gerência de projetos na Fundação Nacional pró-Memória. Nesse período, seus poemas freqüentaram antologias, suplementos literários e a revista “Poesia Sempre” da Biblioteca Nacional, voltando à edição em 2004, com Arremesso Livre, pela Relume Dumará, quando já exercia a atividade de consultora da área da cultura do Senado. Andou por sites (Máquina do Mundo, Casa das Musas, Diversos Afins) e atualmente prepara novo livro. De sua poesia, diz Chico Alvim no prefácio de Arremesso Livre: “A noção de lugar está muito viva na construção destes poemas. Não apenas do lugar em si, mas das relações que a idéia de lugar gera: o movimento no tempo e no espaço, a inércia, a mutabilidade e a imutabilidade, a fusão do real com o imaginário. Talvez essa intuição acerca de lugar, básica na poesia de Vera Americano, esteja na raiz da forte sensação de concretude e abstração que resulta da leitura de Arremesso livre.”  

                                                                  João Bosco Bezerra Bonfim

 

 



 

                   POEMAS DE ARREMESSO LIVRE

 

 

OBSIDIANA

 

Oh! Olhar de larva,

cinza muda,

pedra.

 

Olhar etíope

a cruzar o Eufrates

procurando o cerne.

 

Me olha de novo

do canto escuro

do teu olho preto:

te juro tudo,

de amor a mel.

 

 

 

 

CARA OU COROA

 

Indissolúveis

até

o desatino.

 

Somos

o sumo

e a mordida.

 

 

 

EXÍLIO

 

1.

Desconfio de mim

em outro lugar

a carpir saudades

jamais sentidas daqui.

 

2.

Esta árvore

é a árvore?

ou a ilusão fabricou

a sombra doméstica,

espinho do desterro?

 

 

 

 

FILME NOIR

 

Um silêncio oco, de catedral,

passos ressoam,

uma porta bate.

 

Se você não percebeu,

fui eu,

definitivamente.

 

 

 

SINAIS

 

1. Pura expiação:

te beijar a nuca

sem querer retorno

sem pedir perdão

deliberadamente

sem horizonte

ou pressa.

 

2. Vero tormento

o sutil sussurro

d’ água subterrânea

jorrando dentro de mim,

a correr para um só lado:

represa.

 

 

 

DUPLO MORTAL

 

Postar-se

no desvão

entre dois argumentos,

por dois segundos.

 

Respirar

economicamente

entre duas palavras,

duas ondas

muito crespas.

 

Decidir

em sânscrita ilusão:

viver

ou deixar para mais tarde.

 

 

 

 

                    *** 

 

 

 

 

POEMAS DE A HORA MAIOR

 

 

SUBMISSÃO

 

Um fogo agudo e medonho

me queimou.

(talvez eu tenha morrido

e não saiba que

minha sombra oblíqua na parede

é um retrato).

 

 

MOMENTO

 

(um telefone esquecido tocando longe)

 

Ásperas,

as nossas mãos se buscando

num desencontro assombrado

com medo de estrelas móveis,

sombras que o tempo comeu.

 

(o telefone insistindo)

 

Triste.

 

 

ISOLAÇÃO

 

Da vinda

da vida

só lembro

lamento:

preciso.

 

        

EPIGRAMA

 

O tempo que, derrubado,

restou

do teu perfume e amor,

trouxe,

ave fugitiva,

o velho laço atingido.



                   ***


POEMAS INÉDITOS

 

 

CRATERA

 

Daqui

pode-se ver:

a eternidade

termina

logo ali.

 

 

 

MAÇÃ

 

1.

a perfeição

vem

do rigor.

 

a doçura

subverte

o conjunto.

 

 

2.

sob a pele

hermética

o sabor do éden

negociável

a cada mordida.

 

 

3.

esmero

e lustro

suntuosamente

armados

sobre o prato.

 

os sentidos

hesitam:

repentina afeição.

 

 

 

4.

o fruto

silencioso

resgata a função

dos dentes.

 

na contramão,

o desassossego

pela ruptura iminente.

 

o nexo?

esse foi devorado,

em desatino.

 

 

 

 

O PODER ENFEITIÇADOR DA MIRAGEM

 

Era apenas

delicadeza

a enfeitar tua respiração

entre as palavras.

 

 

 

ESCASSEZ

 

Ah! o engano

a alimentar

a garganta esfolada

sem que verta o cântaro.

 

Porque toda véspera

é tensa

e pulsa

seu esforço ainda vazio.

 

A véspera

é pura sede. 

 

 

 

 

 

          AS QUATRO ESTAÇÕES

 

 

 

1.

Expor-se ao néctar

e ao aroma dos jasmins:

nada é tão violento

quanto a primavera.

 

2.

Dos verões

tudo se esquece.

Apenas

um certo azul

persiste

em tons de asa

e ressoa porta afora

prenunciando a chave

na ranhura.

 

3.

Errantes pernoites

trazidos pelo vento

denunciam

a indecisão:

nem bem verão

e já tão inverno.

 

4.

Aconchegante,

a falsa lareira

fabrica o frio.

Só o queixo treme

sutilmente

com medo do medo.

 

 

 

 

 

 

 

BODAS

 

A memória

desloca uma peça

e tudo muda:

o ar menos denso,

a garganta pronta

para a palavra mais terna.

 

A exclusão constrói.

 

 

 

 

 

ANEL

 

Estupendo fulgor

teu corpo exala

em torno da possibilidade:

soma-se ao aro

o ébrio diamante.

 

 

 

 

 

 

 

 

Vera Americano nasceu em Minas Gerais e residiu entre Goiás, Rio de Janeiro e, mais tarde, em Brasília. Estudou Letras na Universidade de Brasília (UnB), e fez mestrado em Literatura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ). Foi professora de teoria da literatura na Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro. Em Brasília, trabalhou no Centro Nacional de Referência Cultural (CNRC) e no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Atualmente, trabalha na Consultoria Legislativa do Senado Federal, na área de cultura e patrimônio histórico. Publicou os livros A hora maior e Arremesso Livre (Relume Dumará). E-mail: veraamericano@uol.com.br

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