Tutanos escorrem das paredes e sobre a bancada nasce uma poça de plasma que, por alguns instantes, esquenta o metal
Depois de analisados por facas raio-x os bois de carbono, como negativos no laboratório, pingam
Terminado o serviço, o açougueiro encosta-se na parte menos suja dos azulejos, de trás da orelha direita saca um bàli-hài de canela e, com as mãos trêmulas pela indelicadeza da rotina, acende o cigarro.
Do avental imundo tira o papel amassado e a caneta bic azul, com a qual põe-se a escrever palavras carnais marcadas com a digital púrpura da morte e do amor. Por fim, uma assinatura pactual seria mero detalhe.
2-
O acrobata
e a tentativa transcendental sobre a corda circular do tempo
Ecos o dia todo, palavras sem direção, como os braços de shiva, para atingir todos ou atingir ninguém. incômodo, como insetos no copo de leite, revestidos com a espessa nata do último lugar. olhos dentro do santuário, cujo portal é porta de vidro ofuscada pelo branco e lembra sempre que entre as entradas e saídas existe a palidez da incerteza e o risco tem a ver com percepção. dentro, tapetes empoeirados e nos cantos casacos que derretem todos os dias um pouco do bloco sólido de formol que envolve deus, que por sua vez não dança ao ritmo da fumaça om namah shivaya / om namah shivaya a alma inala prostrada diante da parede, formulando elipses para o alcance do nirvana meditacional, ainda que a posição lhe faça recordar castigo ou um cavalo de três patas a espera do sacrifício.
3-
O excesso do real num jogo ótico de luz e sombra
Um cavalo corre no campo cerebral de Muybridge
que captura suas articulações
por não aguentar a efemeridade do seu galope
congelando o movimento primórdio do animal
tecno-cientificamente classificado
como um eqüino imortalizado
Muybridge
a fim de descobrir a lógica no místico
eternizou o fascínio na luz da razão
a mesma razão que o enganou
quando apertou o gatilho da espingarda
contra o amante de sua mulher
como se além de ter capturado o corpo físico
tivesse guardado também
o instinto do objeto fotografado
cuja natureza era demasiado forte
para o seu intelecto visionário
de homem duplamente traído.
4-
Cronologia
Cronos é um palhaço maligno viciado em anfetamina. a velocidade da ação corrói carnes e ossos e nervos que ainda não são ligas de cobre. vivemos amparados pelas muletas da loucura enquanto a morte nos cerca os passos. ácaros da destruição, invisível terror psicológico.
A rapidez com que trocamos de máscaras diante dos espelhos dos outros, nos cega. somos reis acreditando ter poder e controle - já que estamos protegidos pelo manto quente das nossas verdades particulares - aplaudindo o bobo da corte sem sabermos que ele é o espião do tempo, encurralando-nos em armadilhas ilusionistas.
Caso o enviado das horas nos levasse para o topo de uma montanha e determinasse alguns minutos para respondermos quem somos... gastaríamos todos os minutos antes que terminássemos de contar os disfarces. seríamos, oficialmente, vítimas da sociedade do espetáculo e nossos corpos rolariam pelo abismo, caindo sobre um monte de esqueletos sem rosto.
5-
Limítrofe III
"A sociedade só vive de ilusões. Toda sociedade é uma espécie de sonho coletivo. Essas ilusões tornam-se perigosas quando começam a parar de iludir. O despertar desse tipo de sonho é um pesadelo." Paul Valéry
Para o solitário, a pior dor causada pelo seu isolamento ainda será mais suportável do que despir-se diante do julgamento moral-social, que impõe a ordem de fora para dentro, quando na verdade o que existe no homem é um caos intracorpóreo externando as suas vontades.
6-
Ginsberg de bolso
Quando teu Ginsberg de bolso pulou do oitavo andar para ensinar-te as lições do desapego você por desapego à vida (e não ao livro) pulou também.
Aberto sobre o teu livro aberto tipografia sanguínea escorrendo entre os paralelepípedos lirismos vermelhos surpreendendo os rostos dos passantes que arregalavam os olhos mas tiravam fotos da tua anatomia sincera teu corpo mais corpo do que nunca
Se você pudesse ver de fora não acreditaria na quantidade de sangue que te irrigava as idéias sorriria levando as mãos à boca depois aos ouvidos quando chegasse a ambulância de altíssima sirene.
7-
I- retrocesso do ser é acreditar que tudo já foi visto, quando tudo está em constante movimento e a mutabilidade é o moinho.
II- imprimir formas fixas ao objeto é matar, naquele instante, o objeto. é romper seu elo com o mundo. mais do que um estado de animação suspensa, é um empalhamento.
III- um ato fotográfico (ou outra forma de representação) seria o último suspiro da reprodução, a última evolução, ainda que capturada com extrema semelhança.
IV- a lembrança do objeto inanimado seria mais palpável do que o próprio objeto em vida.
V- o que foi confunde-se com o que agora é. real e imaginário.
8-
quero um alasca artificial com neve sintética como gotas circulares em slow motion sobre os corpos dos ursos bipolares
6 meses sem sol holofotes nos pescoços das focas submersas iluminam como ronda policial de tempos em tempos passando nos olhos semi-cerrados
rave esquimó ácidos de gelo drinks exóticos à base de vodka e pirimplimplim
rostinhos glaciais da sabedoria aparecem nas janelas dos iglus neon trocam dialetos inuktitut e eu não compreendo coisa alguma absolutamente sorrio sob os efeitos dos goles indecifráveis
tem uma montanha cujo topo mede um everest e mais umas jardas espero uma avalanche porque somos mesmo pinos de boliche ártico strikes certeiros no meio de nós tudo que do branco nasce ao branco retorna e que da ressaca se faça a renovação - aparentemente limpa como gelo -
9.
na casa ao lado espiritos inquietos sobem e descem escadas como se o melhor a fazer fosse subir e descer escadas
são 3:47 o sono das 3:00 já foi perdido agora no ponto dos conscientes espero a dormência dos sentidos
calem esses passos como calaram as almas dentro da casa escura amarrem esses pés como fizeram com as vozes na gaiola da mordaça tirem seus valiuns das gavetas e entrem nas sombras dos cobertores
morfeu, acuda esta gente! dardos com soníferos no centro das testas areia movediça ao redor das camas e uma injeção de sonhos mudos na espiral dos meus ouvidos.
10-
o homem nu como quem entra no banho nu como quem chora mira os olhos do reflexo no espelho até que se embacem as retinas
máscaras e alter egos passam como num filme super 8 desfocado projetado em vidro rachado nas quatro pontas
a realidade entra pelo ralo do banheiro escorre pelos azulejos suados enquanto as mãos desenham cenários de paraíso e pandora com sabonete e carvão
a água contaminada da torneira cai como cascatas pelas frestas as poças no chão seguem a direção do rádio bem posicionado a voz de nick cave ecoa gravemente:
` the good son the good son the good son `
11-
ferro-via abandonada destila caos apagado dissolvido em verniz sem validade existe verde, bem como oxigênio abrindo-se em infinito cercando a eletricidade desativada abaixo dos pés e, apesar dos movimentos, existe a sensação de congelamento o tempo é cansado aqui, nenhum relógio marca a hora certa os sinos são gárgulas no vão das igrejas pacto matrimonial com o silêncio os pássaros definham diante do vago abrindo asas sem alçar vôo abrindo bicos sem emitir som mudos como o nada que habita os que dormem e não sonham.
12-
uns 67 anos em forma de homem encostado no obstáculo de cimento na calçada apoiado nas muletas desgastadas a perna direita não existia segurava um papel acenava um papel que ninguém via no início fervor nos gestos dos braços depois o cansaço com as horas passadas e o único ânimo que cabia nos olhos desejava as pernas dos transeuntes.
a radioatividade se espalha através da visão bloqueada.
Camila Vardaracnasceu no Rio de Janeiro, em 1987. Observadora por natureza, escritora por impulsão – pela necessidade (recorrente) de expressar-se em prosa e poesia. Voyeur da realidade e de suas representações, encontrou no cinema um meio de materializar suas idéias no continuum do espaço-tempo, desconstruindo-se em impressões. E-mail: camilaexpressa@gmail.com
Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Camila Vardarac no Cronópios.