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Antologia Poenocine
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4/4/2009 23:32:00
Poesia radioativa



Por Camila Vardarac

 

1-

 

Tutanos escorrem das paredes
e sobre a bancada
nasce uma poça de plasma
que, por alguns instantes,
esquenta o metal

Depois de analisados
por facas raio-x
os bois de carbono,
como negativos no laboratório,
pingam

Terminado o serviço, o açougueiro encosta-se na parte menos suja dos azulejos, de trás da orelha direita saca um bàli-hài de canela e, com as mãos trêmulas pela indelicadeza da rotina, acende o cigarro.

Do avental imundo tira o papel amassado e a caneta bic azul, com a qual põe-se a escrever palavras carnais marcadas com a digital púrpura da morte e do amor. Por fim, uma assinatura pactual seria mero detalhe.

 

 

 

2-

 

O acrobata

e a tentativa transcendental sobre a corda circular do tempo  

 

Ecos o dia todo, palavras sem direção, como os braços de shiva, para atingir todos ou atingir ninguém. incômodo, como insetos no copo de leite, revestidos com a espessa nata do último lugar. olhos dentro do santuário, cujo portal é porta de vidro ofuscada pelo branco e lembra sempre que entre as entradas e saídas existe a palidez da incerteza e o risco tem a ver com percepção. dentro, tapetes empoeirados e nos cantos casacos que derretem todos os dias um pouco do bloco sólido de formol que envolve deus, que por sua vez não dança ao ritmo da fumaça om namah shivaya / om namah shivaya a alma inala prostrada diante da parede, formulando elipses para o alcance do nirvana meditacional, ainda que a posição lhe faça recordar castigo ou um cavalo de três patas a espera do sacrifício.

 

 

3-

 

O excesso do real num jogo ótico de luz e sombra

 

Um cavalo corre no campo cerebral de Muybridge

que captura suas articulações

por não aguentar a efemeridade do seu galope

congelando o movimento primórdio do animal

tecno-cientificamente classificado

como um eqüino imortalizado

 

Muybridge

a fim de descobrir a lógica no místico

eternizou o fascínio na luz da razão

a mesma razão que o enganou

quando apertou o gatilho da espingarda

contra o amante de sua mulher

 

como se além de ter capturado o corpo físico

tivesse guardado também

o instinto do objeto fotografado

cuja natureza era demasiado forte

para o seu intelecto visionário

de homem duplamente traído.

 

 

 

4-

 

Cronologia

 

Cronos é um palhaço maligno viciado em anfetamina.
a velocidade da ação corrói carnes e ossos e nervos que ainda não são ligas de cobre. vivemos amparados pelas muletas da loucura enquanto a morte nos cerca os passos. ácaros da destruição, invisível terror psicológico.


A rapidez com que trocamos de máscaras diante dos espelhos dos outros, nos cega. somos reis acreditando ter poder e controle - já que estamos protegidos pelo manto quente das nossas verdades particulares - aplaudindo o bobo da corte sem sabermos que ele é o espião do tempo, encurralando-nos em armadilhas ilusionistas.

Caso o enviado das horas nos levasse para o topo de uma montanha e determinasse alguns minutos para respondermos quem somos... gastaríamos todos os minutos antes que terminássemos de contar os disfarces. seríamos, oficialmente, vítimas da sociedade do espetáculo e nossos corpos rolariam pelo abismo, caindo sobre um monte de esqueletos sem rosto.

 

 

 

5-

 

Limítrofe III

 

"A sociedade só vive de ilusões. Toda sociedade é uma espécie de sonho coletivo. Essas ilusões tornam-se perigosas quando começam a parar de iludir. O despertar desse tipo de sonho é um pesadelo." Paul Valéry


Para o solitário, a pior dor causada pelo seu isolamento ainda será mais suportável do que despir-se diante do julgamento moral-social, que impõe a ordem de fora para dentro, quando na verdade o que existe no homem é um caos intracorpóreo externando as suas vontades.

 

 

 

6-

 

Ginsberg de bolso

 

Quando teu Ginsberg de bolso
pulou do oitavo andar
para ensinar-te as lições do desapego
você
por desapego à vida (e não ao livro)
pulou também.

Aberto sobre o teu livro aberto
tipografia sanguínea
escorrendo entre os paralelepípedos
lirismos vermelhos surpreendendo
os rostos dos passantes
que arregalavam os olhos
mas tiravam fotos da tua anatomia sincera
teu corpo mais corpo do que nunca

Se você pudesse ver de fora
não acreditaria na quantidade de sangue
que te irrigava as idéias
sorriria levando as mãos à boca
depois aos ouvidos
quando chegasse a ambulância de altíssima sirene.

 

 

 

7-

 

I- retrocesso do ser é acreditar que tudo já foi visto, quando tudo está em constante movimento e a mutabilidade é o moinho.

II- imprimir formas fixas ao objeto é matar, naquele instante, o objeto. é romper seu elo com o mundo. mais do que um estado de animação suspensa, é um empalhamento.

III- um ato fotográfico (ou outra forma de representação) seria o último suspiro da reprodução, a última evolução, ainda que capturada com extrema semelhança.

IV- a lembrança do objeto inanimado seria mais palpável do que o próprio objeto em vida.

V- o que foi confunde-se com o que agora é. real e imaginário.

 

 

 

8-

 

quero um alasca artificial
com neve sintética
como gotas circulares em slow motion
sobre os corpos dos ursos
bipolares

6 meses sem sol
holofotes nos pescoços das focas submersas
iluminam como ronda policial
de tempos em tempos passando nos olhos
semi-cerrados

rave esquimó
ácidos de gelo
drinks exóticos à base de vodka
e pirimplimplim

rostinhos glaciais da sabedoria
aparecem nas janelas dos iglus neon
trocam dialetos inuktitut
e eu não compreendo coisa alguma
absolutamente sorrio
sob os efeitos dos goles indecifráveis

tem uma montanha
cujo topo mede um everest e mais umas jardas
espero uma avalanche
porque somos mesmo pinos de boliche ártico
strikes certeiros no meio de nós
tudo que do branco nasce ao branco retorna
e que da ressaca se faça a renovação
- aparentemente limpa como gelo -

 

 

 

9.

 

na casa ao lado
espiritos inquietos sobem e descem escadas
como se o melhor a fazer fosse
subir e descer escadas

são 3:47
o sono das 3:00 já foi perdido
agora no ponto dos conscientes
espero a dormência dos sentidos

calem esses passos
como calaram as almas dentro da casa escura
amarrem esses pés
como fizeram com as vozes na gaiola da mordaça
tirem seus valiuns das gavetas
e entrem nas sombras dos cobertores

morfeu, acuda esta gente!
dardos com soníferos no centro das testas
areia movediça ao redor das camas
e uma injeção de sonhos mudos na espiral dos meus ouvidos.

 

 

 

10-

o homem
nu como quem entra no banho
nu como quem chora
mira os olhos do reflexo no espelho
até que se embacem as retinas

máscaras e alter egos passam
como num filme super 8 desfocado
projetado em vidro
rachado nas quatro pontas

a realidade entra pelo ralo do banheiro
escorre pelos azulejos suados
enquanto as mãos desenham cenários
de paraíso e pandora
com sabonete e carvão

a água contaminada da torneira
cai como cascatas pelas frestas
as poças no chão
seguem a direção do rádio bem posicionado
a voz de nick cave ecoa gravemente:

` the good son
the good son
the good son `

 

 

 

11-

 

ferro-via abandonada
destila caos apagado
dissolvido em verniz sem validade
existe verde, bem como oxigênio
abrindo-se em infinito
cercando a eletricidade desativada abaixo dos pés
e, apesar dos movimentos,
existe a sensação de congelamento
o tempo é cansado
aqui, nenhum relógio marca a hora certa
os sinos são gárgulas no vão das igrejas
pacto matrimonial com o silêncio
os pássaros definham diante do vago
abrindo asas sem alçar vôo
abrindo bicos sem emitir som
mudos como o nada
que habita os que dormem e não sonham.

 

 

 

12-

 

uns 67 anos em forma de homem
encostado no obstáculo de cimento na calçada
apoiado nas muletas desgastadas
a perna direita não existia
segurava um papel
acenava um papel
que ninguém via
no início fervor nos gestos dos braços
depois o cansaço com as horas passadas
e o único ânimo que cabia nos olhos
desejava as pernas dos transeuntes.

a radioatividade se espalha através da visão bloqueada.

 

 

 

 

 

 

 

Camila Vardarac nasceu no Rio de Janeiro, em 1987. Observadora por natureza, escritora por impulsão – pela necessidade (recorrente) de expressar-se em prosa e poesia. Voyeur da realidade e de suas representações, encontrou no cinema um meio de materializar suas idéias no continuum do espaço-tempo, desconstruindo-se em impressões. E-mail: camilaexpressa@gmail.com

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