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4/9/2009 16:54:00
As gavetinhas escondidas no criado-mudo



Por Vanessa Campos Rocha

 


A casa

Há um lugar
.bem no centro de mim.
onde eu posso morar




Re-vela

a alma às vezes
se apaga
como um pequeno abajur
sem luz.




Para nós

Alguém muito delicado, acordou hoje disposto
à pintar de lilás
os cantinhos desbotados do céu.




Descoberta

As gavetinhas escondidas no criado-mudo estão se abrindo.
Contém:
novas direções, pílulas para se ouvir a música interna, diversos tipos de áureas e ainda um lindinho manual ilustrado de perdões.




Tempo

Ela sussurou debaixo dos lençois quentes: "As unhas não param de crescer e os dentes da menina continuam caindo".




A graça

a noite toda sorridente
com a boca cheia de dentes
enormes estrelas cadentes
gargalhando de contente.




Luz

Ela tinha uma idéia acesa da vida que alguém cismava em assoprar.



Fim

as pálpebras fecham suas cortinas sob os olhos,
para não se ver, nem ouvir nada.
Quebra-se o sino do peito.
Silêncio ou então: mais nada.




Nós - Gatos

As pessoas hoje unharam o chão duro e lamberam todo o pêlo do corpo. Depois dormiram enrolados em si mesmos e sonharam com longas conversas gostosas e engraçadas da qual não entenderam nada quando acordaram.




Decisão

Ela entrou pela porta da frente, com a testa larga e olhos comprimidos. Pediu água com açucar para a moça do balcão. Esperou batendo os dedos com força na madeira até tomar o copo nas mãos e virar tudo de uma vez. Só então: olhos nos olhos da moça. Disse que estava tudo acabado. Se virou bruscamente para a porta como quem sai da vida. A moça ficou. Mas não deixou de pensar no que podia ter acabado.




O encontro

Casa no mato, portinhas vermelhas, ninho, um carinho no coração, dois cafés bem quentes, vagas lembranças, decisões em pauta, solidão nos pés, rodelas pretas nos olhos, cansaço, sonhos sem companhia, nuvens tão brancas e um pedido de espaço azul. Livros na bagagem, encontro de dois, espírito santo dentro do arco-íris: qualquer decisão vale, truco seis, atraso, estrada branda, diálogo, três cigarros, um bom filme francês e uma noite com estrelas na cama.




Companhia

meu irmão veio
viramos três cartas
apertamos o peito por Cabíria
desviramos sete copos
e deixamos para próxima
os antigamentes.




Vontade

Qualquer noite acendo a lareira
e leio de novo
o mesmo livro de sempre.




Identidade

Trégua
Nega:

Estou passageira
Mas bem-vestida
(Seu Raul disse que meu número
também é 34)
e meu sapato é novo.




Presente

Em cima da mesa
de forma oval
suspira cansado
sem tempo para nada
transparente
O depósito de cinzas
de horas passadas
recém desconhecido
presente de gratidão
O cinzeiro
de vidro (bonito)
que meu amigo
me deu.




Colorir

Sabe-se que: as pessoas hoje acordaram com um lado iluminado, colocaram flores nas escolhas e encheram de água levemente doce os potes dos pensamentos. E pensaram que nem tudo é tão finito assim. Ah! Quantas portas tem o infinito!




Nós dois

Uma luz acesa no fim da rua, já basta para que entre nós haja vírgulas. Suspiro. Dois pontos: somos quase assim, reticentes um com o outro, para nunca haver um ponto final.


Eu duvido e você exclama, essa é a nossa combinação.

 


A vida

a manhã já tarde, entrou pelas beiradas do quarto
e foi se encostando nas pontas dos pés de Ana,
para que ela se lembrasse que estava viva.

ou então assim:

(o sol na ponta do dedo de ana
a ana na ponta dos pés da vida).






 

Vanessa Campos Rocha é escritora e psicóloga. Mora em uma chácara com o marido que é diretor de cinema e TV. Junto com ele participa de projetos como roterista. É autora dos livros “Pequeno Tempo” e “Cadeira de Balanço”. Blog: www.vanessacamposrocha.blogspot.com
E-mail:
vanacampos@yahoo.com.br

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