O Laboratório de Criação Poética é um programa elaborado com o objetivo de apresentar conceitos teóricos sobre a poesia e desenvolver exercícios práticos de criação, com a aplicação de conceitos de Edgar Allan Poe, Charles Baudelaire, Stéphane Mallarmé, Ezra Pound, Vladimir Maiakovski, Haroldo de Campos e Paulo Leminski, entre outros autores. O curso, que pretende estimular os alunos a pensarem a poesia de maneira crítica e aprofundada, é dividido em vários módulos, em sequência continuada, e inclui bibliografia e apostilas, com apoio da internet para a divulgação de avisos e resumos das aulas, na página http://labcripoe.blogspot.com/. As aulas acontecem na rua Indiana, 238, Brooklin Novo, São Paulo (SP), mas podem ser ministradas também em outros espaços culturais que tenham interesse na proposta. O Laboratório de Criação Poética desenvolve ainda outras atividades além do ensino, como a organização de eventos literários (como o Festival Artimanhas Poéticas, que aconteceu nos dias 12 e 13 de junho no Rio de Janeiro), palestras e consultoria sobre projetos na área da literatura (livros, revistas, sites, blogues etc.). Confira abaixo uma mini-antologia com poemas escritos pelos alunos ao longo do curso:
Fabíola Ramon
CORPULAÇÃO (ESCRITURA DA CARNE)
Dentro de mim,
um, meio, desassossego sugado na areia que move e leva e traz.
Uivos-rouge abafados na carne
Penso alto, falo baixo.
Captadas as palavras perdidas na lixeira dos PCs; formam jogos, viram ouro.
Suspende corpo crepito; passos certos de uma dança sem intenção.
Esfrega dorso em seu oposto
Pêlo eriçado pelo desconhecido.
Se hospeda na invasão.
Deixa-se ir inteira, para além do pêlo, para além da carne.
Finca no azeite do bicho.
Jogo de palavras; lanço uma, duas, três..... Formam frases inteiras, mas nada muda quando faladas. Escritas, portam-se com outra intenção (Atention!).
Metamorfoseiam-se de escamas reflexas.
Cooptados, viram presas da imensidade.
(mais que frêmito)
única união ultrapassa cadacorpo (à corps perdu), cada qual, soprando o instinto natural de cada coisa: razão da ex-sistência?
Levanto-me para ver o que não escrevo.
- O que não vejo?
Atrás do vão, trincas de destino numa vastidão,
Rabiscos tatuados para fazer tua noite.
(já não mais bichos; balbuciam palavras)
Agora, mais que o nada: um sopro.
* * *
Bruno Trochman
1.
caminhando uma vez encontrei um cheiro bem doce, um silêncio quente de melão. O som de cortar, rachar um melão é bem reconhecível, como um uivo ou gemido. {Aluar
a pele tem tons esverdeados de melão, no verão todo a noite a pele é bem doce. o som da terra dormindo. {uma lua
tão aberta me lembro este dia. uma mancha linda e desfocada, leite de tigre. dissolvida no breu sem constelação alguma,
{aroma um entre um instante e outro
2.
o gosto de um cogumelo é um gosto de lama, madeira e chuva. envergonhado ou simplesmente fugidio, se revela no vapor.
Imagino se depois de uma chuva-
murmurar de verão a floresta cheira a sopa.
{claro que não
(uma vez vi um gato subir uma árvore e cair dum galho velho e quebrado, sem se machucar, a língua lilás lambeu a alma que tentou escapar-lhe pelo nariz.)
* * *
Luiz Ariston
TENTANDO JOÃO CABRAL
a Jussara Silveira
1. As gentes têm por invisível
comum, senão seu próprio vício,
haver, suas próprias, as artes
ou ser o próprio malas-artes,
que mesmo o canto, por exemplo,
escultura, vem de entre os dentes,
ao ouvido, é bem mais frágil
que o invisível vidro ao tato.
2. O sem-porquê do compromisso
relativo ao valor do ofício
mostra-se mais, mostra-se noite,
quando um suposto ouvinte afoito,
diante do quebra-cabeça,
elege, feito cabra-cega,
em meio a seus pedaços todos,
o menos importante: o autógrafo.
3. Até se expor (e dar nas vistas?)
autografar-se alienígena,
recanto de um canto em um outro,
transplante de um obscuro órgão
de si para si, mas via alguém,
quesito e réplica através.
Anzol em peixe, aquele canto;
este, uma espinha na garganta.
* * *
Victor Brum Calaça
MOSAICA POROROCA
Ele Mamute tornado sequóia
Ela aurora tormenta pulsar
Ambos quasar condor delta mar
Cada um pedaço de nimbos que raiam em bóia
Ele bisão que restinga na estratosfera
Ela naja turfa quando magma
Ambos plâncton tempestade por nada
Cada um caatinga sua luta na serra
Ele eclipse hipopótamo que pisa em folha de erva
Ela ouriço que seriguela suas pérolas.
Ambos península onde fluem aguas diversas
Cada um ístmo de sua própria quimera
* * *
Angela Castelo Branco
Festejar seus mortos: tarefa que só os vivos
podem fazer. Morte e vida, nada mais que
revoluções internas.
* * *
O que se passa nesta matéria de memórias, anos
de permanência no mesmo lugar, aceitando a sua
condição de pedra? A força de uma rocha — eis
um mistério que a montanha sabia melhor que ele.
Tenho me movimentado muito desde que nasci.
Por acaso a rocha em mim não teria se manifestado?
* * *
Élida Lima
VOCAÇÃO
Ouvir tua respiração
me odiando na sala
me convoca de amor
profundamente.
CAMALEÔNICA TRISTE
As coisas em que eu poderia me transformar
são feias.
AMOR É PARA
Nosso amor não existe, descobri.
Numa carta que escreveste
para outra.
O meu amor, esse existe,
não o nego, que ele é meu
é meu é meu
e eu preciso dele para dar
para quem eu quiser.
* * *
Maria Alice Vasconcelos
AUTO-RETRATO
cores quentes
expressam a rotina instigante;
nos esfumaçados refratários
cores frias
viam cair a noite
minguada de estrelas
o negrume ofusca
o lume do dia
valores perdidos
diluindo-se nas ruínas
ruídos: gritos e gemidos
(múltiplos e marginais)
no estalar estonteante
tiroteiam túneis
transitam no tráfego
tinindo nas ruas
tísicas
trepidam os refratários
dos quadrados verticais
perturbam o repouso
dos fatigados
arrepia a espinha
num sono agitado
tinge-se de vinho tinto
uma fatia
de minha pintura
para encobrir meus
dejetos-delitos
a fatia apodrecida
do intestino fino
que foi infectado
olho o óleo na tela
de olho na trama
que urdi em arte crua
* * *
Laura Helena Sodré Ribeiro Torres
ARGILA
Amassa a fábula
a água clara
sujas as mãos
os dedos molhados
em signos
o quebra-cabeça
ensina
A massa, a estátua
no fluxo a textura
repassa a figura
o formato charada
gratifica ações
brincam os
enigmas
A massa na graça
a ideologia na peça
cria a modelagem
alegrias, emblemas
a lua vigia
a estrela na lida
o sol se põe
elucida
* * *
Maria Fátima
As folhas secas
unem-se umas às outras
última caminhada
* * *
o copo de leite
uma prece nos campos
aura branca ao céu
* * *
No corpo da praia
murmura gemendo o mar
abraçando a areia
* * *
Num xale branco
A menina adormece
boneca de trapo
* * *
Homem sujo
na poeira da estrada
a espera da chuva
* * *
Chove sem parar
borboleta pousa
na cortina branca
* * *
Sílvia Nogueira
SIBILO
são como são os desvios da cobra coral
são como são os caminhos da cobra coral
são como são os ovos o ninho o quente
antesmente rasteja
antesmente – de que em quando –
almando o corpo en-si-nuoso
o oeste da forma
e torta troncha esguia
na gastança do chão
nas andanças das curvas
sim não sim não sim não
a brevidade óssea
amalgamando o frio do corpo
depoismente se achega
se circula se curva
se aldeia se penteia
serpenteia se esgarça
se esgalha se tresmalha
o suor seco óleo do corpo
o inverno da forma
e a gastura do chão
se varre se entranha se suga
se enruga se turva se veia
se beija sê teia a serpente
sempresmente se sim se não
o céu do chão
* * *