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por Karen Debértolis







 
5/10/2009 12:36:00
Poesia é risco em Constança Lucas



Por Lau Siqueira




A poesia se revela sempre despida e vestida por todas as linguagens. Quando menos esperamos, lá está ela. E é algo que nos espeta as áreas de abandono do coração e da mente. Poesia é, na verdade, o elemento condensador de todas as linguagens. Uma arte que é o pulsar da existência humana na sua total densidade. É esse o meu olhar sobre a poesia que habita o traço desta artista nascida na lusitana Coimbra que, para sorte dos brasileiros, decidiu colocar seu atelier e sua morada em algum lugar da imensa São Paulo. De lá ela faz arte para o mundo. Circula seu trabalho em diversos países. Tem publicação em catálogo e participou de exposição, por exemplo, na Coréia, no Japão. Isso nos mostra o peso da poesia enquanto linguagem, em qualquer outro suporte, seja estético, seja estilístico, seja humano.

As imagens concebidas por
Constança Lucas têm algo de palavra não silenciada. O não dito é mostrado. Cada expressão calcula o espaço pela delicadeza e pelo peso do braço da resistência às culturas que não dialoguem com a atemporalidade da arte. O detalhe do provocado e do ato suprimido. Tudo isso leva o leitor da obra visual dessa artista a uma leitura da palavra pétala quando o desenho é arbusto. Ou seja, há uma lírica paisagem por trás de um diálogo profundo com a existência, com as causas humanistas e de paz. É desta forma que Constança Lucas dialoga com o mundo. Trafegando de forma libertária entre o abstrato e o figurativo. É a “poesia como objeto do olhar”, conforme o baiano Almandrade classifica a Poesia Visual.




As cores são delicadamente escolhidas. Quando não é o preto que domina sobre um branco imponente, compondo o cenário vivo da criação. Sentimos que a artista persegue algo que talvez possamos chamar de transposição do cotidiano e do épico. Tudo num mesmo tempo/espaço do branco/leque de sensações quentes, úmidas, doloridas, coloridas, ocas, profundamente vividas. Sobretudo, na experiência de colher suavidade numa arte que se impõe pela universalidade e pela capacidade de dialogar com a diferença. Algo que nos permite continuar sonhando com a realidade, dentro e fora dela.

Tem participado de salões de artes plásticas pelo país inteiro e por algumas dezenas de países. Militante ainda da arte-correio, a artista nos provoca permanentemente o dilema do útil e inútil, da arte e da vida, do estudo e da criação. É uma criadora que reflete muito profundamente sobre tudo que produz. Por isso busca sustentação teórica na academia para suas certezas mais primitivas. Uma estudiosa dos caminhos da arte no Brasil e no mundo. Mantém um diálogo vigoroso com a Europa, com países do oriente e das Américas.
Constança Lucas dispensa apresentações. Sua arte criou seus próprios espaços, com talento e sapiência.





Uma arte que seduz o imaginário de quem se permite um olhar sem dolo, num tempo global que não nos permite conceber uma estética predominante. (Se é que em algum tempo alguma foi.)
Constança dialoga muito bem obrigado com a tradição e com a modernidade. Sua arte comunica numa perspectiva futurista. Ela reconhece todas as linguagens nos duelos da luz com as sombras. Fator de risco imprescindível para uma arte íntegra e integral. Uma arte que não se poupa diante da beleza e não se rende aos modismos. Uma arte que despe e conduz o espetáculo de um cotidiano rico em plasticidade. Algo pulsante, vibrando as artérias de um público que sente o que pensa.

Ou seja: não se trata de uma relação glacial com quem a observa atentamente. A arte de
Constança Lucas nos provoca calorosos debates íntimos sobre as percepções de infinito que existem nas impermanências conceituais. No entanto, algo longe do que se poderia classificar como diluição. Sobretudo porque é de uma suavidade que estilhaça nosso senso de transgressão. Ela constrói metáforas em traços. Seja com lápis, pincel ou mouse.




Constança Lucas construiu uma trajetória na arte que se sustenta com os próprios pés. Uma trajetória que não desperdiça a acelerada pontuação das horas no dia que passa. É uma artista que sabe reconhecer seus mestres. Sabe respeitar a história dos seus iguais e dos ícones das artes no mundo. Sua aparente calma é um eterno movimento. Uma volúpia de uma arte viva presente nos salões, nas galerias e nos espaços alternativos que ainda abrem suas portas para um conceito de grande arte que passa, diretamente, pela construção de uma identidade, de um estilo absolutamente singular. Assim penso a arte de
Constança Lucas, cujo nome no Google, apresenta uma fartura de belas imagens que vale a pena conferir. É a poesia em estado de risco!






 

Lau Siqueira nasceu em Jaguarão-RS e reside atualmente em João Pessoa-PB. Publicou quatro livros de poemas, participou de algumas antologias, entre elas “Na virada do século – poesia de invenção no Brasil”, publica anualmente seus poemas no Livro da Tribo e mantém o blog Poesia Sim (www.poesia-sim-poesia.blogspot.com). E-mail: lausiqueira@gmail.com

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