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25/11/2009 02:29:00
O acaso é feito de pequenos dentes



Por Sérgio Graciotti


 

       Domingo deserto
       Num rádio ao longe
       Um jogo
       Num muro
       Um gato se espreguiça








 

       No limpador do parabrisa
       Uma formiga corre
       Dedilhando as pernas
       Ao som trinado
       De Recuerdos de Alhambra

 






 

       Sabiás ciscam na terra
       Depois da chuva
       Minhocas contorcionistas






 

       Raio no céu
       Clarão luz na terra
       A chuva cai na alma









       Acaso





       O acaso é feito de pequenos dentes,
       Imperceptíveis ganchinhos, fiapos,
       Gotinhas de óleo ou de água,
       Penhascos, cola, engrenagens,
       Ventos, tráfego e viagens.
       Não existe acaso, ou existe?
       Será a nossa incapacidade de percebê-lo
       Que só nos mostra aquilo
       Que seja maior que um pelo?




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       As antenas de TV espetam
       fantasmas de passagem.
       As pessoas, sentadas nos sofás,
       percebem a variação na tela.

       Os gatos, nos já escassos muros,
       temem o espectro das grades.
       E todos os súditos dos três reinos,
       têm simultâneos sonhos pardos.

                                  (Sérgio Graciotti e Pipol)



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Sérgio Graciotti
Por Pipol, porque ele não gosta mais de falar de si mesmo
e quase não usa nem o nome

Sérgio Graciotti é uma lenda da publicidade brasileira. Comandou por muito tempo a maior maior agência de propaganda do país e uma das 50 maiores do mundo até então, a MPM. Foi responsável pela conquista de muitos prêmios internacionais e colocar o Brasil no mapa mundial da propaganda. Em 1995 eu fiz um estágio em sua agência de publicidade (não mais a MPM e sim, a Graciotti Comunicação) e nos tornamos amigos pela afinidade e gosto poético. Mostrei o livrinho de poemas que eu estava escrevendo, me entreguei, disse que estava usando o Mac da agência para editorar o meu livro - eu não tinha computador na época. Ele achou engraçado e mostrou os poemas dele também. Numa outra ocasião, o Sérgio me revelou que fazia mapa astral também, como o Fernando Pessoa pensei eu, só que num programa de computador. Achei esquisito aquilo, mas passei as minhas coordenadas após leve insistência da parte dele. Zimb, zumb, zum, saiu da impressora o meu destino. O Sérgio ficou em silêncio uns minutos olhando para o papel... depois perguntou se eu tinha um bom relacionamento com minha esposa, se estava tudo bem em casa. Eu disse que sim e sim, que pergunta?! ... Daí o Sérgio apontou um símbolo no mapa enroscado em outro símbolo que já estava embolado com um terceiro … e disse que o meu casamento estava para terminar ... Deu três meses e realmente foi o que aconteceu. Depois disso, nunca mais acreditei em mapa astral.

 

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