Em dezembro realizei no Museu da Língua Portuguesa uma minioficina de haicais, na qual os participantes foram orientados a criarem poemas a partir do modelo proposto por Guilherme de Almeida para o haicai em português. Alguns dos resultados da produção são, agora, publicados pelo Cronópios, que também inclui alguns dos poemas criados em outra oficina ministrada no Sesc Campinas. A Casa Guilherme de Almeida encontra-se fechada à visitação, e, por isso, seu programa de cursos, oficinas e outros eventos está sendo realizado em outros locais, como a Casa das Rosas e o Museu da Língua Portuguesa. A reabertura da Casa está prevista para o final do mês de março.

Poemas realizados durante minioficina
no Museu da Língua Portuguesa
IMPASSE
Chuva violenta.
Agonia. Venta. Dia.
Tempo, escoa lento.
Doli de Castro Ferreira
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garoa no Bexiga
tocam Demônios, batucam
um samba da antiga
amor, prova d`água
sobre o guarda-chuva podre
sexo, dor e mágoa
Bruna Francelina de Lima e Éder Menegassi Borges
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chove essa garoa
tanto chia, cai em pranto
Que na telha entoa
leva o vento a folha
baila bela, e não falha
leve e livre voa
sem sono e no escuro
a lesma por ela mesma
meleca no muro
Ilton Lucas Silveira Rocha (heterônimo: Lívia Raviv)
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a neblina força
olhos cansados e alheios
tombam, vão à poça
a queda da chuva:
do alto vem e molha o asfalto
lama no pé gruda
Adilson Macial dos Santos
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BÊBADO
zunindo na bossa
pernilongo leva tombo
vai dormir na poça
OUTONO
garoa vem fina
molha uma folha e desfolha
o chão é sua sina
MALDITO
tecendo na luz
verso veneno lamento
cravado na cruz
Doli de Castro Ferreira, Patrícia Cicarelli e Eloisa Zeitlin
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Esperança, enfim!
O vento sopra tão lento
A cigarra – o fim!
Lucinda Aparecida de Faria dos Anjos e Emilson Soares dos Anjos
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FIM DE TARDE
uma chuva cai
antenas do Datena
um prefeito sai
Gustavo & Edilene Vagli de Lourenzo
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no meio da chuva
um vai e vem de comuns
em cachos de uva
pois chega de chuva
e de beijo de chuveiro
que encharca e relaxa!
Estação da Luz
chuva lenta lenta chuva
rápida conduz
Josimara Tonella-Estigarribia e Bruno Pastori
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Vento no coqueiro
Balança as folhas em dança
Alegre e fagueiro
J. Rodolfo Lima e Regiana Santos
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chuva de verão
água ígnea, fogo e mágoa
choro de dragão
DOM QUIXOTE
O bêbado ao vento
vira e volta, volta e vira
pá de catavento
Rita de Cássia Ramos
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orvalho de prata
com jeito escorre no peito
suor da mulata
Cesar Luiz Veneziani e Rita de Cássia Ramos
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chove a chuva chata
o xamã chama num choro –
temporal desata
garoa constante
apanhei o guarda-chuva
parou num instante
caju, doce engano,
trava a boca do fulano:
ô fruto mundano!
Juliana Corradini e Moira M. de Andrade
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A chuva na roça.
Coaxa o sapo que acha
um palco: sua poça.
Calor e umidade
que agite o “aedes aegypt”:
terror na cidade.
O bêbado ao vento
de tanto que oscila tonto
caminha bem lento
Fina está a garoa.
Na lama, andando reclama
nervosa patroa.
Cesar Luiz Veneziani
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misteriosa luz
véu escondido no céu
o enigma seduz
Hans Freudenthal, Patrícia Romiti e Gilberto Marassi
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Poemas realizados durante
minioficina no Sesc Campinas
OUTRO RETRATO
O ano fica velho?
No banheiro, o desespero:
A visão do espelho
E no fim nem festa:
o peru está cru, “glu-glu”
que cena indigesta!
Rafael Noris e Flá Perez
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FESTA
O Natal no teu
riso tão aflito e raso
racha ao meio o meu
Solidão do dia –
quebrou-se a rima e calou:
fim do que caía.
Alan Carline e Luiz Contro
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Sigo rumo ao fim:
a rima que não termina
Segue viva em mim.
Heloisa Pisani
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Nada há de novo
As galinhas do quintal
Aguardam o ovo
O início do ano
Passa na rua de casa:
Vizinho ou fulano
Guilherme Salla e Dalva Saudo
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O tempo é assim:
Primavera retomada,
Um ciclo sem fim.
Dôra Lima
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Marcelo Tápia é escritor, tradutor, ensaísta e editor. Publicou os livros de poemas Primitipo (1982), O bagatelista (1985), Rótulo (1990), Pedra volátil (1996) e Valor de Uso (2009). Ministrante de cursos sobre poesia e tradução poética, é diretor do museu biográfico e literário Casa Guilherme de Almeida, em São Paulo, onde organiza um Centro de Estudos de Tradução Literária. E-mail: marcelotapia@superig.com.br