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17/1/2010 19:54:00
Haicais à Guilherme de Almeida



Por Marcelo Tápia


Em dezembro realizei no Museu da Língua Portuguesa uma minioficina de haicais, na qual os participantes foram orientados a criarem poemas a partir do modelo proposto por Guilherme de Almeida para o haicai em português. Alguns dos resultados da produção são, agora, publicados pelo Cronópios, que também inclui alguns dos poemas criados em outra oficina ministrada no Sesc Campinas. A Casa Guilherme de Almeida encontra-se fechada à visitação, e, por isso, seu programa de cursos, oficinas e outros eventos está sendo realizado em outros locais, como a Casa das Rosas e o Museu da Língua Portuguesa. A reabertura da Casa está prevista para o final do mês de março.





Poemas realizados durante minioficina
no Museu da Língua Portuguesa




IMPASSE

Chuva violenta.
Agonia. Venta. Dia.
Tempo, escoa lento.

Doli de Castro Ferreira

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garoa no Bexiga
tocam Demônios, batucam
um samba da antiga



amor, prova d`água
sobre o guarda-chuva podre
sexo, dor e mágoa


Bruna Francelina de Lima e Éder Menegassi Borges

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chove essa garoa
tanto chia, cai em pranto
Que na telha entoa



leva o vento a folha
baila bela, e não falha
leve e livre voa



sem sono e no escuro
a lesma por ela mesma
meleca no muro


Ilton Lucas Silveira Rocha (heterônimo: Lívia Raviv)

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a neblina força
olhos cansados e alheios
tombam, vão à poça



a queda da chuva:
do alto vem e molha o asfalto
lama no pé gruda


Adilson Macial dos Santos

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BÊBADO

zunindo na bossa
pernilongo leva tombo
vai dormir na poça



OUTONO

garoa vem fina
molha uma folha e desfolha
o chão é sua sina



MALDITO

tecendo na luz
verso veneno lamento
cravado na cruz


Doli de Castro Ferreira, Patrícia Cicarelli e Eloisa Zeitlin

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Esperança, enfim!
O vento sopra tão lento
A cigarra o fim!


Lucinda Aparecida de Faria dos Anjos e Emilson Soares dos Anjos

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FIM DE TARDE

uma chuva cai
antenas do Datena
um prefeito sai


Gustavo & Edilene Vagli de Lourenzo

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no meio da chuva
um vai e vem de comuns
em cachos de uva



pois chega de chuva
e de beijo de chuveiro
que encharca e relaxa!



Estação da Luz
chuva lenta lenta chuva
rápida conduz


Josimara Tonella-Estigarribia e Bruno Pastori

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Vento no coqueiro
Balança as folhas em dança
Alegre e fagueiro


J. Rodolfo Lima e Regiana Santos

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chuva de verão
água ígnea, fogo e mágoa
choro de dragão



DOM QUIXOTE

O bêbado ao vento
vira e volta, volta e vira
pá de catavento


Rita de Cássia Ramos

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orvalho de prata
com jeito escorre no peito
suor da mulata


Cesar Luiz Veneziani e Rita de Cássia Ramos

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chove a chuva chata
o xamã chama num choro
temporal desata


 

garoa constante
apanhei o guarda-chuva
parou num instante




caju, doce engano,
trava a boca do fulano:
ô fruto mundano!


Juliana Corradini e Moira M. de Andrade

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A chuva na roça.
Coaxa o sapo que acha
um palco: sua poça.



Calor e umidade
que agite o “aedes aegypt”:
terror na cidade.



O bêbado ao vento
de tanto que oscila tonto
caminha bem lento



Fina está a garoa.
Na lama, andando reclama
nervosa patroa.


Cesar Luiz Veneziani

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misteriosa luz
véu escondido no céu
o enigma seduz


Hans Freudenthal, Patrícia Romiti e Gilberto Marassi

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Poemas realizados durante
minioficina no Sesc Campinas




OUTRO RETRATO

O ano fica velho?
No banheiro, o desespero:
A visão do espelho



E no fim nem festa:
o peru está cru, “glu-glu”
que cena indigesta!


Rafael Noris e Flá Perez

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FESTA

O Natal no teu
riso tão aflito e raso
racha ao meio o meu




Solidão do dia
quebrou-se a rima e calou:
fim do que caía.


Alan Carline e Luiz Contro

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Sigo rumo ao fim:
a rima que não termina
Segue viva em mim.


Heloisa Pisani

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Nada há de novo
As galinhas do quintal
Aguardam o ovo



O início do ano
Passa na rua de casa:
Vizinho ou fulano


Guilherme Salla e Dalva Saudo

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O tempo é assim:
Primavera retomada,
Um ciclo sem fim.


Dôra Lima

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Marcelo Tápia é escritor, tradutor, ensaísta e editor. Publicou os livros de poemas Primitipo (1982), O bagatelista (1985), Rótulo (1990), Pedra volátil (1996) e Valor de Uso (2009). Ministrante de cursos sobre poesia e tradução poética, é diretor do museu biográfico e literário Casa Guilherme de Almeida, em São Paulo, onde organiza um Centro de Estudos de Tradução Literária. E-mail: marcelotapia@superig.com.br

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