Ai de ti, Haiti! Cloaca da miséria a perguntar ao mundo se Deus existe. Entulho da morte, pátria do caos. Ai de ti, carniça viva a dar azia em urubu. Nação a mando do diabo, do açúcar acre, do carvão sem cinza, do exército cômico para deleite de Guerrit Verschuur, da vida a menos de um dólar, da única universidade soterrada no desconhecimento de sua fragilidade sísmica. Ai de ti, cemitério a céu aberto como seus esgotos, suas heresias no Palácio dos Milagres, suas feridas abertas na História, suas dinastias que Papa e Baby DOCumentam o horror da desgraça que não cessa, seu jugo estrangeiro a quem em inglês, francês, espanhol ou vudu exauriu seu solo, furtou seu pouco de nada, anulou seu futuro. O inferno pó-moderno teve seu apocalipse trêmulo e chama-se Haiti. Subserviência sob domínio da fome, Terra morta por terremoto, entre saques e violência, povo sem sinapse com o real, em fuga sem para onde, aeroporto sem destino, Porto Príncipe sob a realeza mundo-cão. Que os seus mortos adubem a esperança, que seus políticos de mentira aprendam com a finitude, que suas ajudas humanitárias reconstruam o que seu povo nunca teve, que suas ruínas ensinem a ouvir entre vozes de concreto o apelo de barrigudinhos-catarrentos, que seu cheiro pútrido chegue aos salões de festa, às mesas fartas, aos bunkers dos G8, aos cultos e aos discursos dos poderosos. Ai de ti, Haiti! Agora que a Natureza te riscou do mapa e abalou o alicerce do planeta, e que o mundo, solidário ao seu castigo por existir escravo de tudo e todos, possa, Haiti, vingar como veneno tardio a única certeza de Deus não morrer antes de um dia te ver feliz.
Márcio Almeida é mestre em Literatura, professor universitário, jornalista, autor e crítico de raridades. E-mail: marcioalmeidas@hotmail.com
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