Café Literário Cronópios











O direito à poesia
por Marcos Siscar






 

2012: Emoção Artificial 6.0
- modern portrait

por Guto Lacaz




Esboços e reveses
por Darlan M. Cunha




Cavalo Azul
por Flávio Viegas Amoreira




Terça-feira
por Clarice Linden




De Clarice para Clarice
por Jorge Miguel Marinho




Seleta Twitter - Desvairados inutensílios
por Silas Corrêa Leite




Haikai coletivo
por Gustavo Felicíssimo




Uma porta (entre)
por Vagner Muniz




Dilema da aranha
por Eryck Magalhães




Servicinho extra!
por JC.Pompeu




Adeus cativeiro da métrica
por Gerson Chagas




Poesia para dançar
por Karen Debértolis







 
28/1/2010 08:57:00
Mulheres do Candeeirocafe



Por Charles Ribeiro



    Fotografia


                                                   Bárbara Garden 

  




                                                         Na varanda






                                                                Sexy






                                                        Nouvelle Vague






                                                       Liv apaixonada






                                                Meus olhos de Liv Ullmann






                                                     O perfume na janela






                                                              Psiu!





                                                  * * *




    Poemas 



                                                     Caroline C.


Equilibre

Escutando jazz (e o agradável ruído da agulha sobre o vinil) na varanda, penso em um chá, um filme para ser assistido depois e nas miudezas da vida cotidiana.
Numa corrente paralela: oscilações harmônicas em função do tempo. Também improvisações perfeitas. Meus desejos, agora, bem cuidados, não violentos e muito menos apoteóticos. A Vontade tranquila e inocentada por aquelas ilusões que já escoaram rio claro adentro. Águas vertentes. Nuvens passando sobre as palavras feitas de vento. A luz do Sol bem no meio, produzindo sombras do meu tamanho – jamais maiores do que eu. E estrelas nos pés.

Em linha torta

Fim de areia dourada – tarde. Morna água, verde água, azul água.

No tempo, distância, uma boa música latina, colorida, pausa: levando por tuas esquinas notas amareladas que descascam vagarosamente. Trazendo confortáveis palavras por ruas de margaridas com perfumes contaminados. Experimentando a calçada como quem experimenta o melhor dos poemas, a pureza dialogando com a intensidade que existe em ambos – não basta um olhar para compreender; mesmo depois, agora. O dia prometendo um ano novo, ainda que simplesmente

o mar como o que segue adiante.






                                                Giselli Moreira


o poema

o poema devora minhas mãos (estou só) e a solidão
            é essa espécie de abrigo pela madrugada
toda ela um pouco mais: o poema
destrói minhas verdades como quem destrói mentiras
devora minhas mãos como quem devora o meu corpo. o poema: o corpo
que não é meu e não é seu e que salta da pele desses versos que 
                                              /são seus também.
o poema nunca inteiro, febril, me violentando a palavra o silêncio feito
                                              /quando
te descubro tateando os meus pudores e atando cada parte ao
                                              /impossível de mim.
o poema me empurra de um lugar a outro. é essa dor em nossos gestos,
em nossas palavras, em nós dois.
o poema é qualquer coisa de nós dois que ainda não sei dizer
se nos despimos se nos despedimos se nos enredamos
se, então, assim
outra vez:

 

fragmento

Não se iluda com minha poesia barata, que não me iludo.
Tenho versos que não são meus, tenho dores que não são minhas,
faço cena e poesia. I don’t believe in love. Supreme?
Antes sou chamariz, coisa louca. E te dedilhei no escuro secamente
                                              /– por prazer. Atuei
em teu corpo e te preciso a cada hora. Em puro jazz:
É teu cheiro insistindo em perturbar a minha pele enquanto meus dedos
                                              /roçam tua face e eu
penso seja você: seja você, até que então. É você me tonteando, me apertando pelo avesso

esqueço a fala
e saio do palco como quem se despede de si mesmo.






                                                
Iara Barberena


...

Noites claras
Pálidas vinhas
A beleza soluta já dorme.
Aqui nós
que voz aflige,
seu berço já não te toma.
Mais plácidas as hifas do ar
fecham o vale por onde tu crer.
Papel pautado!


 

noite do rapé

A mente menti inerte à verdade que parte no escorrer dos ponteiros que vão se completando.

A música, o prosear – às vezes dói – enfatiza a ferida que mina aberta supurando (pela janela o poste apagado torna negra a folha da figueira que dança, arranha, assobia pra lua gorda e pálida).

O trago alivia a carne após o coito, ainda trêmula; comemora o orgasmo e todo aquele suor antes doce, agora amargo: a vitória não foi justa.

O relógio ordena a ida – as vestes, que nem tempo tiveram pra troca de calor com o chão, tornam a cobrir a pele áspera.

Pensamentos disfarçados, um fervilho na cabeça à beira da saída, porém nada é relido além do adeus que paira com o bater da porta.






                                               Morgana Gomes

...

não há menos moral em silenciar um medo
ainda que por nós confabulado
se desejamos, pois, abnegá-lo
não basta o furto da palavra equivocada
esta é apenas o vestígio de uma postura
que por mais exagerada não termina
e embora ultrapassada ainda perdura

...

há tempos deixei a torre de marfim
e desde então trafego arriscados caminhos
passo a passo sob noites desertas
as ruas engolidas em anseio e coragem
não me detêm temorosos palpites
misteriosa alvorada que persigo
e só a ti caberá a estranha sorte minha



metáfora do desejo prometido

fosse possível dissipar do corpo
o calor que queima
senão por fogo
e depois de longo dias
de uma concepção estéril
arrisco versos
fosse possível dissolver minha saudade
sem matéria
como quem simula um sutil contentamento
forjando rimas
construo castelos
fosse preciso minha alma
uma motivação alheia
para exaltá-la
festejando os velhos tempos de donzela
adulterada
até os novos feitos de guerreira
desgarrada
ah! doce taça de vinho
que me embriaga!



                                               * * *


Sobre o coletivo

Candeeirocafe é uma possibilidade, um espaço aberto, um ponto de convergência. Há cerca de 2 anos, encontros têm acontecido quase que semanalmente na Praça da Pedra, na Lagoa das Bateias e em outros locais públicos da cidade (Vitória da Conquista, BA) onde conversas têm estimulado a produção individual e coletiva de todos os envolvidos. Uma vez por mês é realizado uma leitura de poemas num teatro de arena da região (Teatro Carlos Jehovah)."Endereço eletrônico: http://candeeirocafe.wordpress.com  



Charles Ribeiro é um dos mantenedores do coletivo Candeeirocafe. E-mail: candeeirocafe.jazz@gmail.com

  Licença Creative Commons

Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Candeeirocafe no Cronópios.