Escutando jazz (e o agradável ruído da agulha sobre o vinil) na varanda, penso em um chá, um filme para ser assistido depois e nas miudezas da vida cotidiana. Numa corrente paralela: oscilações harmônicas em função do tempo. Também improvisações perfeitas. Meus desejos, agora, bem cuidados, não violentos e muito menos apoteóticos. A Vontade tranquila e inocentada por aquelas ilusões que já escoaram rio claro adentro. Águas vertentes. Nuvens passando sobre as palavras feitas de vento. A luz do Sol bem no meio, produzindo sombras do meu tamanho – jamais maiores do que eu. E estrelas nos pés.
Em linha torta
Fim de areia dourada – tarde. Morna água, verde água, azul água.
No tempo, distância, uma boa música latina, colorida, pausa: levando por tuas esquinas notas amareladas que descascam vagarosamente. Trazendo confortáveis palavras por ruas de margaridas com perfumes contaminados. Experimentando a calçada como quem experimenta o melhor dos poemas, a pureza dialogando com a intensidade que existe em ambos – não basta um olhar para compreender; mesmo depois, agora. O dia prometendo um ano novo, ainda que simplesmente
o mar como o que segue adiante.
Giselli Moreira
o poema
o poema devora minhas mãos (estou só) e a solidão é essa espécie de abrigo pela madrugada toda ela um pouco mais: o poema destrói minhas verdades como quem destrói mentiras devora minhas mãos como quem devora o meu corpo. o poema: o corpo que não é meu e não é seu e que salta da pele desses versos que /são seus também. o poema nunca inteiro, febril, me violentando a palavra o silêncio feito /quando te descubro tateando os meus pudores e atando cada parte ao /impossível de mim. o poema me empurra de um lugar a outro. é essa dor em nossos gestos, em nossas palavras, em nós dois. o poema é qualquer coisa de nós dois que ainda não sei dizer se nos despimos se nos despedimos se nos enredamos se, então, assim outra vez:
fragmento
Não se iluda com minha poesia barata, que não me iludo. Tenho versos que não são meus, tenho dores que não são minhas, faço cena e poesia. I don’t believe in love. Supreme? Antes sou chamariz, coisa louca. E te dedilhei no escuro secamente /– por prazer. Atuei em teu corpo e te preciso a cada hora. Em puro jazz: É teu cheiro insistindo em perturbar a minha pele enquanto meus dedos /roçam tua face e eu penso seja você: seja você, até que então. É você me tonteando, me apertando pelo avesso
– esqueço a fala e saio do palco como quem se despede de si mesmo.
Iara Barberena
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Noites claras Pálidas vinhas A beleza soluta já dorme. Aqui nós que voz aflige, seu berço já não te toma. Mais plácidas as hifas do ar fecham o vale por onde tu crer. Papel pautado!
noite do rapé
A mente menti inerte à verdade que parte no escorrer dos ponteiros que vão se completando.
A música, o prosear – às vezes dói – enfatiza a ferida que mina aberta supurando (pela janela o poste apagado torna negra a folha da figueira que dança, arranha, assobia pra lua gorda e pálida).
O trago alivia a carne após o coito, ainda trêmula; comemora o orgasmo e todo aquele suor antes doce, agora amargo: a vitória não foi justa.
O relógio ordena a ida – as vestes, que nem tempo tiveram pra troca de calor com o chão, tornam a cobrir a pele áspera.
Pensamentos disfarçados, um fervilho na cabeça à beira da saída, porém nada é relido além do adeus que paira com o bater da porta.
Morgana Gomes
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não há menos moral em silenciar um medo ainda que por nós confabulado se desejamos, pois, abnegá-lo não basta o furto da palavra equivocada esta é apenas o vestígio de uma postura que por mais exagerada não termina e embora ultrapassada ainda perdura
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há tempos deixei a torre de marfim e desde então trafego arriscados caminhos passo a passo sob noites desertas as ruas engolidas em anseio e coragem não me detêm temorosos palpites misteriosa alvorada que persigo e só a ti caberá a estranha sorte minha
metáfora do desejo prometido
fosse possível dissipar do corpo o calor que queima senão por fogo e depois de longo dias de uma concepção estéril arrisco versos fosse possível dissolver minha saudade sem matéria como quem simula um sutil contentamento forjando rimas construo castelos fosse preciso minha alma uma motivação alheia para exaltá-la festejando os velhos tempos de donzela adulterada até os novos feitos de guerreira desgarrada ah! doce taça de vinho que me embriaga!
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Sobre o coletivo
Candeeirocafe é uma possibilidade, um espaço aberto, um ponto de convergência. Há cerca de 2 anos, encontros têm acontecido quase que semanalmente na Praça da Pedra, na Lagoa das Bateias e em outros locais públicos da cidade (Vitória da Conquista, BA) onde conversas têm estimulado a produção individual e coletiva de todos os envolvidos. Uma vez por mês é realizado uma leitura de poemas num teatro de arena da região (Teatro Carlos Jehovah)."Endereço eletrônico: http://candeeirocafe.wordpress.com