"O sinal dos meus pés é invisivel agora...”
Mário de Andrade
O rio Anhangabaú
É um rio que não há:
Está sepulto debaixo
Do viaduto do Chá.
Tem outro rio no alto,
Rolando pra-lá-pra-cá:
A multidão está só
No viaduto do Chá.
Cada um com seu tributo,
Com seu toma-lá-dá-cá,
No passo de contradança
Do viaduto do Chá.
Talqual monções se aviando
Cada qual com seu pra-já
Por sobre um rio havido
Que não tinha mais lugar.
Meu rebanho turbulento
— Minhas alucinações! —
Vai relendo os mudamentes
Entalhados nas feições...
É ver novelos de rios
Desenrolando distâncias...
Assim vão pastando os anos,
Verdes pastos de esperança...
Sob trapos e molambos,
Bem debaixo dos narizes,
A miséria faz seu rancho
De viventes invisíveis...
Em vão esmolando olhos...
A esmo... Sonambulando...
Fantasmas que nem o rio,
Fantasma subterrâneo...
Vem chuva lavar o vale!
Fogem farrapos em farrancho.
Águas e ventos guaiando
Prantos por rios defuntos.
E a correnteza arremete,
Que seu lema é avanço,
Recomeça em todo braço,
Traça o rumo, risca o traço...
A multidão está só
No viaduto do Chá —
Cada um com seu minuto,
Cada qual com seu jamais.
Ronda que ronda, o rondó
Nunca acaba de acabar —
A multidão está só
No viaduto do Chá.
Luiz Roberto Guedes é poeta, publicitário e letrista de música popular.
E-mail: lrguedes@hotmail.com