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7/2/2010 02:46:00
Há folhas caindo



Por Ângela Castelo Branco


 

1.

de tanto chamares, a palavra vem
o que espera
como folha reticente ao vento
neste ano arde em campo e selva

inventemos um deus
como a manhã sem planos
que fala antes da primeira
vez da intimidade vasta

eu não sou o mistério
o que morre, não está aqui
nesta clara noite
esfreguei as mãos nas paredes
encontrei a carnadura das casas

se morro hoje, nada guardo
avanço lentamente
por onde olho, vejo-me no que voa
e busco, no golpe preciso
o gosto da terra firme



2.

se todas as maçãs rolassem ladeira abaixo
e a menina naquele vestido de algodão
ousasse chutá-las contra a parede
eu aceitaria minha amada aparição
ou um volume dágua ultrapassando
o limite do corpo

-estou em acúmulo-

assusto-me com a ventania debaixo da mesa
com a boca avermelhada que morde a casca
há uma mulher nascendo
amansando os nãos do mundo
escolhendo como alimento
a polpa que excede a fruta



3.

as chuvas deste temporal movem-se sempre
ora são metais, ora são facas que falam
mas há um corpo cortante
que atravessa todas as noites inseguras
quando estou próxima dos silêncios
desdobro-me em lençóis
como quem acabou de chegar de viagem
o vento que agora comemora
lutava contra a pele dormente


se chego às margens
sinto vontade de levar os metais pesados à boca
minha natureza mole quer encontrar-se com as paredes
arrancar tudo o que não seja amor
e construir-se em cheiros trocados
deste paladar que não se cessa

tendes alimentado-se com o seu desejo?
consegues me dizer o que em ti retorna sempre?
tendes provas de que sois ?
acolho o vento das maternidades
e arranco-o das janelas frias
e ele se faz em brasa
a cada sopro teu



4.


há folhas caindo em meu copo
risos miúdos no travesseiro
há morada de pássaros azuis nos cantos do corpo
ou um nome só
acordado antes do sonho
consumindo-se em mordidas roubadas
vento nas coxas da moça
que distraidamente inicia a ladeira
sou um sendo
um gesto construído no teu
a juventude do seu amanhã
e vejo a natureza vindo
o inevitável do medo em estado de gozo
e sofro em ausências menores
o que agora me treme em certeza
-não serei menos que a única-



5.

como cumprir o tempo da existência
descobrir as passagens da casa antiga, e passar por elas,
não sê-las, não habitar nada que não nos pertence?
esquece tua malha gasta
tece as vestes da fragilidade
outrora, sendo o oposto da dor
itinerário dos heróis que lês na penumbra da sala
sonha com eles, pede que intercedam em nosso auxílio
se queres saber como se anda no meio-fio,
desces e cola-te na terra
arranha teu corpo no chão

os que se amam devem rosnar ao mundo
jamais o diálogo sucumbirá à morte
o rio se apequena quando não nascemos em voz
a ti, meu inocente sonho,
escreverei confissões em cima da cama
encarnarei no rosto
o destino que me convoca
pois não me parece fácil
aceitar o recuo da vida



6.

todo anjo é cinza e fumaça
nada pode a casa de batismo em chamas
o mar guarda os nomes que quer
e, então
afina suas horas para o dizer
o único corpo que não cessa



7.

Toma. Este é o meu desenho de ti
Todos os calores dissipam-se e ainda sinto o inflamável
vou acontecendo na epiderme
Mas sei da natureza quente que me põe em pé
e da luz, cinzas e penumbra
a cada sopro da voz partilhada
que em seus braços me quer



8.

fica conosco esta noite
tuas palavras são de carne
as minhas estão cheias de sal
vem, e amolece estas pedras bastardas
de puro silêncio



9.

quantas línguas cabem num único ato de amor
a fala é toada de cavalos
errância sem paragem
poço sem roldana
diante do ato que instaura

o descer mais além
marcas espirituais daquilo que ocultamos
do gesto inesperado
o vocabulário possível:
somos a voz em impulso e murmúrio




10.

haverá calhas secas
paredes úmidas
folhas amarelas na mesa
mas vá

contra a fome que chega
é a descrença que mata
queres tanto
se não te és?

morarás nos intervalos do que moves
e verás que nada altera-se em seu lugar
ao menos que digas o que lhe é próprio
e sempre cai
dentro de ti









 

Ângela Castelo Branco mora em São Paulo, é educadora e escritora. Possui um livro de poesias publicado pela editora Laser Print: “Orações” (2008) e dois livros independentes: “Oferenda” (2008) e “O que digo, O que me diz” (2009).
Blog: www.angelacastelobranco@blogspot.com    E-mail: angelacastelo@hotmail.com

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