de tanto chamares, a palavra vem o que espera como folha reticente ao vento neste ano arde em campo e selva
inventemos um deus como a manhã sem planos que fala antes da primeira vez da intimidade vasta
eu não sou o mistério o que morre, não está aqui nesta clara noite esfreguei as mãos nas paredes encontrei a carnadura das casas
se morro hoje, nada guardo avanço lentamente por onde olho, vejo-me no que voa e busco, no golpe preciso o gosto da terra firme
2.
se todas as maçãs rolassem ladeira abaixo e a menina naquele vestido de algodão ousasse chutá-las contra a parede eu aceitaria minha amada aparição ou um volume dágua ultrapassando o limite do corpo
-estou em acúmulo-
assusto-me com a ventania debaixo da mesa com a boca avermelhada que morde a casca há uma mulher nascendo amansando os nãos do mundo escolhendo como alimento a polpa que excede a fruta
3.
as chuvas deste temporal movem-se sempre ora são metais, ora são facas que falam mas há um corpo cortante que atravessa todas as noites inseguras quando estou próxima dos silêncios desdobro-me em lençóis como quem acabou de chegar de viagem o vento que agora comemora lutava contra a pele dormente
se chego às margens sinto vontade de levar os metais pesados à boca minha natureza mole quer encontrar-se com as paredes arrancar tudo o que não seja amor e construir-se em cheiros trocados deste paladar que não se cessa
tendes alimentado-se com o seu desejo? consegues me dizer o que em ti retorna sempre? tendes provas de que sois ? acolho o vento das maternidades e arranco-o das janelas frias e ele se faz em brasa a cada sopro teu
4.
há folhas caindo em meu copo risos miúdos no travesseiro há morada de pássaros azuis nos cantos do corpo ou um nome só acordado antes do sonho consumindo-se em mordidas roubadas vento nas coxas da moça que distraidamente inicia a ladeira sou um sendo um gesto construído no teu a juventude do seu amanhã e vejo a natureza vindo o inevitável do medo em estado de gozo e sofro em ausências menores o que agora me treme em certeza -não serei menos que a única-
5.
como cumprir o tempo da existência descobrir as passagens da casa antiga, e passar por elas, não sê-las, não habitar nada que não nos pertence? esquece tua malha gasta tece as vestes da fragilidade outrora, sendo o oposto da dor itinerário dos heróis que lês na penumbra da sala sonha com eles, pede que intercedam em nosso auxílio se queres saber como se anda no meio-fio, desces e cola-te na terra arranha teu corpo no chão
os que se amam devem rosnar ao mundo jamais o diálogo sucumbirá à morte o rio se apequena quando não nascemos em voz a ti, meu inocente sonho, escreverei confissões em cima da cama encarnarei no rosto o destino que me convoca pois não me parece fácil aceitar o recuo da vida
6.
todo anjo é cinza e fumaça nada pode a casa de batismo em chamas o mar guarda os nomes que quer e, então afina suas horas para o dizer o único corpo que não cessa
7.
Toma. Este é o meu desenho de ti Todos os calores dissipam-se e ainda sinto o inflamável vou acontecendo na epiderme Mas sei da natureza quente que me põe em pé e da luz, cinzas e penumbra a cada sopro da voz partilhada que em seus braços me quer
8.
fica conosco esta noite tuas palavras são de carne as minhas estão cheias de sal vem, e amolece estas pedras bastardas de puro silêncio
9.
quantas línguas cabem num único ato de amor a fala é toada de cavalos errância sem paragem poço sem roldana diante do ato que instaura
o descer mais além marcas espirituais daquilo que ocultamos do gesto inesperado o vocabulário possível: somos a voz em impulso e murmúrio
10.
haverá calhas secas paredes úmidas folhas amarelas na mesa mas vá
contra a fome que chega é a descrença que mata queres tanto se não te és?
morarás nos intervalos do que moves e verás que nada altera-se em seu lugar ao menos que digas o que lhe é próprio e sempre cai dentro de ti
Ângela Castelo Branco mora em São Paulo, é educadora e escritora. Possui um livro de poesias publicado pela editora Laser Print: “Orações” (2008) e dois livros independentes: “Oferenda” (2008) e “O que digo, O que me diz” (2009). Blog: www.angelacastelobranco@blogspot.com E-mail: angelacastelo@hotmail.com
Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Ângela Castelo Branco no Cronópios.