Descobrimento
No meio da mata fechada
a índia nua e virgem...
O português cristão
nunca amou tanto o próximo
como a si mesmo.
Inconsciente negro
A dor de ser crioulo sarará?
Visão além
Atrás do insólito,
acima do solo,
do sol.
A visão jamais vista.
Peleja
No Pelourinho pelava-se a pele.
Negro pelado,
sem cor.
Hoje no Pelourinho
só pelo lourinho.
Dilema da aranha
Não sabia ao certo onde tecer sua teia. Escolheu um cantinho de parede da cozinha. Acertou na mosca.
No divã
- O que te desperta a dor?
- O despertador.
- Fale mais sobre isso.
- Integro a maioria. Não sonho de olhos abertos.
Olho por olho, dente por dente
Ele, cego de um olho. Ela, toda banguela. De inveja, ele furou o olho dela e ela arrancou-lhe um a um os dentes. E foram felizes para sempre.
De lua
Preparou tudo para aquela noite. Trazia no bolso o anel e o discurso na ponta da língua. Uma imensa lua amarela resplandecia; lua de mel. Só não contava que ela fosse de lua.
O triste fim de um infante poeta
Aprendeu a ler num átimo e passou a devorar livros. Ao se deparar com a palavra diálogo, estremeceu. O medo de proferir a palavra “diabo” o impediu de seguir adiante.
Fé de barro
Sempre repugnou a ciência e exaltou a fé. Adoeceu, não foi à igreja, mas ao médico. Antes de dormir, rogava a Deus para que abençoasse aqueles comprimidos. Deus, ressentido, não lhe deu ouvidos.
* * *
Eryck Magalhães nasceu em Guaratinguetá-SP. Lançou em 2010 seu livro de estreia, Ecos e outros versos pela editora Multifoco - RJ. Recentemente seu microconto “Dilema da Aranha” foi premiado pela ABL (Academia Brasileira de Letras), em concurso realizado via twitter. Publica textos regularmente em seu blog “Vitrine Poética”: www.eryckmaga.blogspot.com
E-mail: eryckletrado@hotmail.com