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4/9/2005 21:55:00
Manuscrito descoberto entre os papéis do poeta, em envelope lacrado que ele, infelizmente, nunca chegou a abrir



Por Ruy Espinheira Filho






Não queremos, nem de longe,

pensar no que pode haver,

poeta Mário de Andrade,

se um dia você morrer.

 

Não queremos, porém como

impedir o pensamento

de se pensamentear?

Não morra nunca, poeta,

porque há sombras nas sombras

só esperando a sua morte

para assaltar os jornais,

submeter as revistas

e desterrar os poetas

(perigosos, subversivos,

capazes de qualquer coisa,

de acreditar em talento,

em lirismo, inspiração)

— e tudo será tristeza,

desamparo, solidão.

 

Eis que estão prontos e indóceis,

só aguardando a sua partida,

parnasianos tardios

armados de metros rijos,

estrofes sisudas (com

ou sem consoantes de apoio),

dicionários de rimas,

disciplina de cesuras,

iniludíveis sinéreses,

impecáveis hemistíquios,

implacáveis sinalefas

— para saltar desse escuro

e a alma nos arrancar!

 

 

Ah, não morra, Mário, poeta,

que o Sol pode se apagar!

Porque depois saltarão,

do escuro oculto no escuro,

cáfilas de não-poetas

gritando a morte do verso

em impudente algaravia,

concreção de logogrifos,

insalubres despoéticas

verbi-voco-visuais

contra o sonho e a poesia!

 

E ainda virão uns outros

em linhas irregulares,

reboantes, pantanosas,

ou em feição de diarréia

— que chamam de verso-livre,

como se o verso não fosse

o rigor que é sua vida!

E ainda virão mais uns

que trarão palavras frias,

sem música, pedregosas,

arquitetos do vazio,

construtivistas de nada.

Não resistiriam, todos,

aos combates de você,

poeta, mas vencerão,

se acaso você morrer!

 

Poeta Mário de Andrade,

não nos faça esse vexame,

não nos deixe abandonados

a apocalipses que tais,

como é o jargão espesso

dos professores-doutores

grávidos de metaplasmos,

poéticas objetais,

monósticos, semantemas,

afirmações axiais,

topos, vocóides, sememas

e outras disfunções letais!

Que ensinarão ser você

equívocos de você;

que aquilo que você disse,

em prosa ou verso, de fato

não disse; e o que você disse

traz profundas discordâncias

daquilo que você disse;

e, em suma, aquilo que disse

você, você nunca disse;

e o que você nunca disse

é exatamente o que disse,

ou que, ao menos no caso,

você queria dizer;

e muito provavelmente,

o que você disse, disse

porque disse o que não disse

quando dizia o que disse,

se disse mesmo o que disse;

se é que isso se deu — e se

você foi mesmo você

(e eis que, sob aplausos, cai

o pano: Magister dixit!)!

 

Por esses e outros motivos,

poeta Mário de Andrade,

não morra nunca jamais!

Porque, se você morrer,

será esse horror assim

— e o mundo pode acabar!

E se não se acaba o mundo,

depois que você morrer,

o que nos restar vai ser

bem difícil de agüentar!











Ruy Espinheira Filho é Jornalista, mestre em Ciências Sociais, doutor em Letras, professor de Literatura Brasileira do Departamento de Letras Vernáculas do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia, Ruy Espinheira Filho nasceu em Salvador, Bahia, em 1942. Publicou 11 livros de poemas: Heléboro (1974), Julgado do Vento (1979), As Sombras Luminosas (1981 — Prêmio Nacional de Poesia Cruz e Sousa), Morte Secreta e Poesia Anterior (1984), A Guerra do Gato ( infantil — 1987), A Canção de Beatriz e outros poemas (1990), Antologia Breve (1995), Antologia Poética (1996), Memória da Chuva (1996 — Prêmio Ribeiro Couto, da União Brasileira de Escritores), Livro de Sonetos (1998), Poesia Reunida e Inéditos (1998). Tem ainda publicados vários livros em prosa: Sob o Último Sol de Fevereiro (crônicas, 1975), O Vento no Tamarindeiro (contos, 1981); as novelas O Rei Artur Vai à Guerra (1987), O Fantasma da Delegacia (1988), Os Quatro Mosqueteiros Eram Três (1989); os romances Ângelo Sobral Desce aos Infernos (1986 — Prêmio Rio de Literatura, 1985), Últimos Tempos Heróicos em Manacá da Serra (1991), e o ensaio O Nordeste e o Negro na Poesia de Jorge de Lima (1990).

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