como quem cultiva orquídeas, samambaias
marias-sem-vergonha
eu cultivo poesia
A GENTE NÃO QUER SÓ COMIDA
um cão roendo
um osso
uiva pra lua
DELICADEZA
uma flor em teus cabelos, mariazinha
torna mais bela a flor
(seja cravo, rosa, ou margaridinha)
MENINA & MOÇA
verde ainda, como a onda que não ganhou a praia
POEMA QUE QUASE NASCEU
quando a chuva inventa uma canção mais desesperada...
CRISTAL
teu desejo na ponta de um beijo
DESVELOS
passarinhos cantam nos fios
(de teus cabelos)
LÍRICA
me prendi nos laços de teu amor
(me solta, ó flor)
ORQUÍDEA
- boba!
-boba?
- a vida...
MURAL
(o sol na vitrine)
- compra, mãe!
- deus não vende, filhinho
- e se a gente fosse anjo?
VINHO
pássaros no céu
(muito sol, amigo)
toma o meu chapéu
NOTURNO
- estrelinha do céu, conta pra mim um segredo?
- qual?
- qualquer um...
INFÂNCIA
os brincos vermelhos da dora
que os passarinhos bicavam
pensando que fossem amoras
CONCRETISMO
o o da aurOra
é o sol lá fora!
CIRCUNSTÂNCIAS
tropecei num sapato, dei um passo à frente
(tropeçasse num pássaro, eu voava?)
CREPÚSCULO
quando o céu se incendeia
(o céu é o inferno?)
DOS DESEJOS
o passarinho quando voa
pensa que pode cair?
e se não pensa
pensa aonde quer ir?
QUEM
pensa
que pensa
pensa?
DA DÚVIDA
para kamilla e raissa
peixe bebe água?
(e todos os peixes bebem toda a água?)
INCONSEQUÊNCIA
para tiaguinho
O rio e os peixes brincam de nadar
o rio nada nos peixes
o medo que os peixes têm
(de o rio se afogar)
PRIMAVERA
a chuva chove no jardim público
sem saber que as plantinhas
(coitadinhas)
estão todinhas resfriadas
OURO PRETO
tropecei na rua
do aleijadinho
e dei com a boca
num
diamante!
DAS PAIXÕES SECRETAS
no organdi azul da tarde
um bem-te-vi
(não-me-vê)
NUDEZ
a maçã
cor tada ao
mei/o
expõe seu
silêncio
RESTOS DE GUERRA
um cão roendo
um osso
(osso do moço)
uiva pra lua
PRECE
a aurora que eu falo
não é essa aurora que nasce não
nem essa aurora mulher
é a aurora santa
santa aurora
(rogai por nós que estamos nas trevas)
HORA PATÉTICA
cessou a banda de música
(o sotaque inglês rege o universo)
MORAL DA VELOCIDADE
7 comerciais
7 segundos
7 corpos nus
BÍBLIA
olhai os lírios do campo
mas não os afagueis
(eles podem murchar em vossas mãos)
FÉ
tem lá no rio de janeiro
o cristo redentor
(de mãos vazias)
AZUL
(se não houvesse céu não haveria limites)
PROPAGANDA
(tudo vai melhor com coca cola?)
DOS SILOGISMOS
o educador não pode ter colégio particular
o educador é universal
(o colégio
é particular)
DAS ILUSÕES
continuava passando antisardina no rosto
(ignorando que o câncer não tem cura)
VIA CRUCIS
o seu mané carroceiro
em quem a criançada
tacava pedras
e xingava de velho manco
morreu
(ontem à noite)
HAICAITANEANDO
entre o inseto e o inseticida
o poeta fica com a vida
MEMENTO MORI
um cão roendo
um osso
uiva pra lua
(osso da mão tua)
DA ESPIRITUALIDADE
n’osso osso
é a única eternidade
que temos
(meditemos)
PETIT FINALE
Fure a lua cheia
com um cabo de vassoura
baby
eu deixo
* * *
Luiz Vitor Martinello é poeta e professor de Literatura em Bauru – SP. É autor dos livros de poesia “Mãos nos bolsos”, “Os anjos mascam chiclete”, “Lixeratura”, “Me apaixonei por mim mas não fui correspondido” e dos infanto-juvenis “O sapato que sabia andar” e “O penuginha”. E-mail: vitormartinello@uol.com.br