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10/06/2012 00:40:00
A pera e o inseto



Por Joaquim Cartaxo



ÁGORA

no momento silábico
a dor entre
a carne e o sabor da
saliva dos antepassados contém
o registro dos utensílios de fogo
a memória consensual da última poesia
a lenda do crepúsculo da caatinga
o degredo do marinheiro acidental

as anotações sobre
exercícios dominicais e o limiar da linha inaugural
justificam a culpa dos versos
no sangue do outono
no martírio dos pães
no cântico dos punhais

desde a sala da chácara até o portal dos segredos
nenhum murmúrio canino ou
som úmido de harpas
apenas o longo movimento dos guardiões da
idade do tempo na ágora paradisíaca




PRIMEIRO EXERCÍCIO DO POEMA PLATAFORMA

Sentinelas e heróis nas histórias marginais
Histórias e sobressaltos nas palavras vãs
Palavras e mistérios nas casas de esquina
Casas e cabeças nos livros incendiários
Livros e profetas nas catedrais operárias
Catedrais e aprendizes nas fotos tardias
Fotos e observadores nas varandas suburbanas
Varandas e insensatez nas opiniões diárias
Opiniões e dilemas nos inventários citadinos
Inventários e pânico nas últimas notícias sobre
O poema plataforma e
Seu final complexo
Sem rimas perenes
Sem título ou subtítulos indecifráveis
Sem emoções recentes
Apesar do álbum no centro da mesa e
Das lembranças do verbo acidental nos
Lábios suicidas
Silentes.



BANAL

os edifícios da
cidade oculta erguem-se
continua-
damente intactos.
entre eles o ar -
ora brisa,
ora ventania -
decompõe olhares
ansiosos,
firmes,
vesgos ou
de soslaio, que
saltam das
janelas para
as ruas e daí
perdem-se por becos
reconhecem-se entre pernas e
assustam-se diante de um suicídio banal.






A PERA E O INSETO

até que
ponto o
silêncio da pera
contém o
desafio do inseto em seu
voo incerto sobre a
mesa?

tudo por causa do
mito comum da
pera e do
inseto
incertamente



                                                 * * *

 

Joaquim Cartaxo é poeta, artista plástico e arquiteto mestre em planejamento urbano e regional. Vive em Fortaleza – CE. Email: cartaxo@hurb.com.br

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