Apresento aqui uma tradução dum poema de Paul Celan. Existem já traduções dessa poesia, mas essa nova versão chama a atenção para outros aspectos do poema. Um exemplo é o título “Morte em fuga” (Todesfuge, no original alemão). Todos os tradutores nomearam o poema “Fuga da morte”. De fato, “Fuge” é fuga e “Tod” é morte. Mas em português há um duplo sentido da palavra “fuga” que não há no original. Em português, pensamos primeiro em fuga no sentido de fugir, mas a palavra, em alemão, sem duplo sentido, é uma clara referência do poeta à arte da fuga de Bach. Esse é um aspecto fundamental dessa poesia, já que a dança e a música têm papel determinante no poema como um todo e penso que fica perdido na tradução para “Fuga da Morte”. Por isso, preferi chamar o poema de “Morte em fuga”, que além de contemplar o “sentido musical” de “fuga”, respeita a métrica original. Temos duas sílabas fortes em alemão “Tod” e “fu”, ou se preferir dois troqueus, assim como em Morte em fuga – Mor / te em/ Fu/ ga, coisa que se perde completamente com Fu/ga/da/mor/te. Há muitos outros aspectos, mas creio que esse já exemplifica a plausibilidade de outra tradução.
Morte em fuga
de Paul Celan
Tradução de Flavio Quintale
Leite negro da aurora bebemos de noite
Bebemos de tarde e de manhã e bebemos de madrugada
Bebemos e bebemos
Cavamos uma cova nos ares lá não se deita apertado
Um homem vive na casa ele brinca com as serpentes ele escreve
Ele escreve quando escurece na Alemanha teu cabelo dourado Margarete
Ele escreve e sai da casa e a blitz das estrelas ele assobia para virem seus cães
Ele assobia para irem seus judeus deixem cavarem uma cova na terra
Ele nos manda agora toquem para dançar
Leite negro da aurora bebemos-te de madrugada
Bebemos-te de manhã e de tarde e bebemos-te de noite
Bebemos e bebemos
Cavamos uma cova nos ares lá não se deita apertado
Um homem vive na casa ele brinca com as serpentes ele escreve
Ele escreve quando escurece na Alemanha teu cabelo dourado Margarete
Teu cabelo em cinzas Sulamita cavamos uma cova nos ares não se deita apertado
Ele brada cavem a terra mais fundo vocês aí vocês ali cantem e toquem
Ele agarra o trabuco na cinta ciranda-o seus olhos são azuis
Enfiem as pás mais fundo vocês aí vocês ali continuem tocando para dançar
Leite negro da aurora bebemos-te de madrugada
Bebemos-te de tarde e de manhã bebemos-te de noite
Bebemos e bebemos
Um homem vive na casa teu cabelo dourado Margarete
Teu cabelo em cinzas Sulamita ele brinca com as serpentes
Ele brada toquem mais doce a morte a morte é um mestre da Alemanha
Ela branda enfiem a mão nos violinos e subam como fumaça no ar
E recebam suas covas nas nuvens lá não se deita apertado
Leite negro da aurora bebemos de madrugada
Bebemos-te de tarde a morte é um mestre da Alemanha
Bebemos-te de noite e de manhã bebemos e bebemos
A morte é um mestre da Alemanha seu olho é azul
Ele te acerta com uma bala de chumbo ele te acerta em cheio
Um homem vive na casa teu cabelo dourado Margarete
Ele incita seus cães sobre nós ele nos dá uma cova no ar
Ele brinca com as serpentes e sonha a morte é um mestre da Alemanha
Teu cabelo dourado Margarete
Teu cabelo em cinzas Sulamita
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Flavio Quintale é ítalo-brasileiro. Nasceu em 1976 em São Paulo. Os Peppini é seu romance de estreia. Estudou e viveu em várias cidades da Europa. Atuou como jornalista e lecionou no Brasil e em França. Reside no interior da Alemanha com a mulher e os filhos.
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