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21/06/2012 16:29:00
Coisas de monstro



Por Edson Bueno de Camargo


inércia

sonho com escadas em ruínas
e que estas se decaem a olhos vistos
escadas de terra e barro vermelho de minha infância
escoradas com madeira e estacas
descem morro abaixo
barrancos precários
a mercê da chuva
e do medo do tombo
e de andar pela enxurrada
e a chuva escorrendo pelos óculos
embaçados

sonho com muros azuis fechando a rua
e o impedimento de voltar ao passado
a rua de minha meninice
porque dentes de aço brilhante
já devoraram o que não existe

e o quintal de minha solidão absoluta
de onde nunca mais sai de mim mesmo
o sítio onde eu era único
e só aos olhos da chuva eu era possível
e o onanismo da auto libido
não existe mais

e onde as bicas da água caiam
revelavam-se pedrinhas brilhantes
que um dia foram guardadas como tesouro
garimpeiro de sonhos perdidos
sonho com a estação antiga
e o trem que se vai
e junto comigo amigos também
perdidos
assistem ao comboio que vai embora

a passagem dos mortos me atormenta
suas vozes cada vez mais sonoras
e a descrença em tudo me atormenta
e a violência da paixão me abandona
e a ausência desta gera uma tortura
e que viver ainda
possa ser masoquismo
ou sadismo aos que me sobrevivem
ou uma vingança aos que não

e com inércia
a tudo respondo



nascem secos

homens nascidos
sob a lua minguante
ao beberem da água do nascimento
nascem secos como madeiro de esteio

vestidos de argamassa argilosa
são crus como adobe
secam ao sol
e se tornam duros
como terra batida de cupinzeiro
moldam-se ao vento
lutando contra sua direção
não se dobram
percorrem o seu desenho

no silêncio
falam línguas de fogo
e descansam nos olhos
anjos de cobre luzidio e flamejantes

aos que rebentam em julho
na procura por nuvens
quando ainda há pouca água nas cacimbas
e o calor do dia
tornam-se enigmáticos no frio da noite
quando se voltam a um ponto geográfico
como uma rosa dos ventos humana
profetas do tempo
determinam o lado que virá a chuva

e na velhice
estes seres
criaturas envenenadas pela palavra
passam a falar
a língua das bocas fechadas
e da fuligem dos fornos

arcam-se em reverências exacerbadas à terra
não morrem sem deixar nos pergaminhos
todos os seus possíveis epitáfios



transcendida

a cozinha
e os picumãs
da casa da madrinha de meu pai
dominavam a casa inteira

o fogão de lenha
queimava dia e noite
em culto profano e inconsciente a Héstia
a fumaça
enovelava o ambiente
sempre envolvidos em trevas entorpecidas
com fachos de luz
cruzando do vão das telhas às paredes

menino assustado
sentia a presença
de todas as mulheres daquela cozinha
que me falavam
na língua incompreensível dos espectros
acocorados no tempo
seus pitos
suas mezinhas
seus pés descalços

a madrinha de meu pai
tinha os cabelos cinza
de uma alquimista
que sabia do caldo da cana
ao poder doce do melaço
muitas vezes transmutada e transcendida
olhos brilhantes de santidade

a noite
meu medo infantil
confortava-se ao bruxulear
das lamparinas de querosene
no escuro
adivinhava a presença de meu tio
pela brasa do pito de palha
e a voz grave de meu pai

hoje
desta noite solitária
quarenta anos saltam para trás no tempo
ainda sou um menino tonto
livre como um cão na chuva a correr no pasto



guarda-chuvas coloridos

a chuva esparsa
pede guarda-chuvas coloridos
nesta primavera fria
de calçadas molhadas

as andorinhas que invernam em minha rua
chegaram semana passada
em seus pequenos peitos
trazem um continente
países que nunca saberei em uma vida

o gato branco ronrona e ronda
nos lóbulos elétricos de seu cérebro
um caçador está em alerta

as árvores pendem de flores
que caem com o vento
colorindo a rua de amarelo e branco
roxo claro
as pétalas da roseira brava do meu jardim
sua alma de cinza de carmim
como desejo de brasa escondida
e as pitangas vermelhas vivas
chamas do fogo roubado por Prometeu

ai de mim que amei o humano
além das forças
transformado em Titã
pela força das circunstâncias
e poeta por amargo ofício

:

fico meditando sob gotas finas
a despeito de tantos corações vegetais
do grito das plantas
embriagadas pela estação
e de como o amor ao Sol
dá-lhe vida
e nos doam a vida



coisas de monstro

cristalino perdido
dentre os dentes da alma
congelado à espera
onde se esconde o fogo

como Prometeu
esperei doar o fogo aos homens
e ao invés de calor
trouxe-lhes o frio

porque o ente humano
que caminha na certeza absoluta
torna-se um monstro
e faz coisas de monstro
e diz coisas de monstro
e será banido como tal

não espero mais o amor da humanidade
a paz celestial
ou cocanha eterna
troco por uma passagem para a nau dos insensatos

hoje
contento-me mais com uma migalha de desejo
uma velhice tranquila
meu neto correndo pela casa
e a luz de uns certos olhos



esboço

a partir
do esboço incompleto
de uma pessoa

pode se tomar
da linha inconclusa
o traço de um pássaro

será um humano pássaro
ou pessoa
que aprendeu a bater suas asas

?



múltiplas bocas

o céu carrega paradigmas
para que se sustente
sobre a cabeça dos homens
antes da própria existência do ser

a vida tomará o lugar da vida
em uma teimosia ímpar
em uma bela certeza
que sobre cadáveres brotarão flores

a morte para a natureza
significa a continuação da vida
simples mudança de forma
e aproveitamento de energia

tudo está em tudo
e como vida
já experimentamos todas as coisas
e estivemos em todos os lugares

o tempo
monstro de múltiplas bocas
a tudo e todos devora
a transportar para o futuro



orgânica

a paisagem urbana
se amarra ao por do sol
em cabos elétricos e postes
luminárias de fogos ardentes
ao tomar ares de nave espacial venusiana

os fios costuram o céu
em armações e nervuras
como capilares sanguíneos
que se enredam por toda cidade
onde sangue de elétrons
transportam movimento e números

as construções buscam a luz
competem em devorar horizontes
dia a dia
jardins estéreis da babilônia
recobrem a terra ao infinito

muralhas sem reboco
babel que nunca termina
devora cimento virado nas calçadas
em manhãs de domingo
fome insaciável de pedra e cal
e lajotas vermelhas
que nunca cobrem suas vergonhas

a cidade é orgânica
monstro vivo e cada vez mais lento
e somos os parasitas
que habitam a sua barriga



nêsperas verdes

em gravidades
raízes minerais da casa
se afundam em uma alma de granito
buscam o coração do leito argiloso

a casa adquire
conotações vegetais e fractais
de crescimento áureo
matemática de ouvidos sonoros
de esferas
e música pitagórica

as estrelas se derramam
sobre o quintal sem luz
de interruptores fechados
e nêsperas verdes

as crianças no escuro
escondidos em olhos algozes
com asas de corvos agourentos

as feridas cobertas com as penas rotas
de ave jovem
renovadas em tombos breves
joelhos arruinados penitentes
e cotovelos cascudos

:

no calor das tardes de verão
a luz que agredia os olhos
era a grandiloqüência de deus
em nossos corações
e braços abertos no vento

mas tudo tem seu fim



contas de vidro

doses de amargo
quebram as pétalas das flores
em agridoce semelhança com a vida
mas ainda assim desigual

pagar o dízimo
das contas de vidro perdidas
entre os dentes
e caídas
dos dedos senis e trêmulos

o amor é uma construção permanente
o cimento que une o universo
e há mais metafísica
em olhares adolescentes apaixonados
e seu brilho doentio
do que nos arcanos
das esferas orbitais de júpiter
e contornos oculares de Galileu
suas derradeiras ferramentas

o ósculo da matéria
cinco segundos antes da destruição total
nos revelará de vez
a verdadeira verdade

mas ai será tarde




sombrinha de doze varas

1

sombrinha de doze varas
sobre o pano
dormem quinquilharias

"compra senhoro"
a mulher tem cabelos brancos
e sotaque romani

a cigana insiste
guarda-chuva chinês de muitas cores
buquês de flores
transbordam cores na seda falsa

está caro
penso
não compro

"faz mais barato
paga diferença depois"

já não ouço mais
minha mente já está longe
rouba o cinza do céu
e dos olhos que me fitam
uma certa indiferença


2

a árvore morta
serve de moldura
a fotografia que não tiro
esta será só com os olhos

pequenos pássaros
na distância parecem pretos
hoje o dia está com pouca luz


3

flores de dente de leão
pedem o sol
que a tarde nos nega

sua cor destoa
do que nossos olhos esperam


4

a mangueira
tem tantas flores
que lhe pendem os galhos

não sabe a planta
não estar em um vale
ensolarado do Ghanges ou do Indo

faz o papel ambíguo
de florescer neste planalto frio
a guardar o silêncio do horizonte esbranquiçado


5

nada muda o que sinto
a tarde só fala o que está dentro de mim




                                                 * * *
 

Edson Bueno de Camargo é poeta, professor e fotógrafo. Publicou “cabalísticos” coleção Orpheu - Editora Multifoco, Rio de Janeiro 2010; “De Lembranças & Fórmulas Mágicas”, Edições Tigre Azul/ FAC Mauá 2007; ”O Mapa do Abismo e Outros Poemas” Edições Tigre Azul/FAC Mauá 2006, “Poemas do Século Passado-1982-2000”. Participou de algumas antologias poéticas e publicação literárias diversas. Participa do grupo poético/literário Taba de Corumbê da cidade de Mauá –SP. Foi premiado na Categoria Poesia Nacional 2010, no Concurso Literário de São Bernardo do Campo. Blog: http://umalagartadefogo.blogspot.com/ E-mai: camargoeb@ig.com.br

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