sonho com escadas em ruínas e que estas se decaem a olhos vistos escadas de terra e barro vermelho de minha infância escoradas com madeira e estacas descem morro abaixo barrancos precários a mercê da chuva e do medo do tombo e de andar pela enxurrada e a chuva escorrendo pelos óculos embaçados
sonho com muros azuis fechando a rua e o impedimento de voltar ao passado a rua de minha meninice porque dentes de aço brilhante já devoraram o que não existe
e o quintal de minha solidão absoluta de onde nunca mais sai de mim mesmo o sítio onde eu era único e só aos olhos da chuva eu era possível e o onanismo da auto libido não existe mais
e onde as bicas da água caiam revelavam-se pedrinhas brilhantes que um dia foram guardadas como tesouro garimpeiro de sonhos perdidos sonho com a estação antiga e o trem que se vai e junto comigo amigos também perdidos assistem ao comboio que vai embora
a passagem dos mortos me atormenta suas vozes cada vez mais sonoras e a descrença em tudo me atormenta e a violência da paixão me abandona e a ausência desta gera uma tortura e que viver ainda possa ser masoquismo ou sadismo aos que me sobrevivem ou uma vingança aos que não
e com inércia a tudo respondo
nascem secos
homens nascidos sob a lua minguante ao beberem da água do nascimento nascem secos como madeiro de esteio
vestidos de argamassa argilosa são crus como adobe secam ao sol e se tornam duros como terra batida de cupinzeiro moldam-se ao vento lutando contra sua direção não se dobram percorrem o seu desenho
no silêncio falam línguas de fogo e descansam nos olhos anjos de cobre luzidio e flamejantes
aos que rebentam em julho na procura por nuvens quando ainda há pouca água nas cacimbas e o calor do dia tornam-se enigmáticos no frio da noite quando se voltam a um ponto geográfico como uma rosa dos ventos humana profetas do tempo determinam o lado que virá a chuva
e na velhice estes seres criaturas envenenadas pela palavra passam a falar a língua das bocas fechadas e da fuligem dos fornos
arcam-se em reverências exacerbadas à terra não morrem sem deixar nos pergaminhos todos os seus possíveis epitáfios
transcendida
a cozinha e os picumãs da casa da madrinha de meu pai dominavam a casa inteira
o fogão de lenha queimava dia e noite em culto profano e inconsciente a Héstia a fumaça enovelava o ambiente sempre envolvidos em trevas entorpecidas com fachos de luz cruzando do vão das telhas às paredes
menino assustado sentia a presença de todas as mulheres daquela cozinha que me falavam na língua incompreensível dos espectros acocorados no tempo seus pitos suas mezinhas seus pés descalços
a madrinha de meu pai tinha os cabelos cinza de uma alquimista que sabia do caldo da cana ao poder doce do melaço muitas vezes transmutada e transcendida olhos brilhantes de santidade
a noite meu medo infantil confortava-se ao bruxulear das lamparinas de querosene no escuro adivinhava a presença de meu tio pela brasa do pito de palha e a voz grave de meu pai
hoje desta noite solitária quarenta anos saltam para trás no tempo ainda sou um menino tonto livre como um cão na chuva a correr no pasto
guarda-chuvas coloridos
a chuva esparsa pede guarda-chuvas coloridos nesta primavera fria de calçadas molhadas
as andorinhas que invernam em minha rua chegaram semana passada em seus pequenos peitos trazem um continente países que nunca saberei em uma vida
o gato branco ronrona e ronda nos lóbulos elétricos de seu cérebro um caçador está em alerta
as árvores pendem de flores que caem com o vento colorindo a rua de amarelo e branco roxo claro as pétalas da roseira brava do meu jardim sua alma de cinza de carmim como desejo de brasa escondida e as pitangas vermelhas vivas chamas do fogo roubado por Prometeu
ai de mim que amei o humano além das forças transformado em Titã pela força das circunstâncias e poeta por amargo ofício
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fico meditando sob gotas finas a despeito de tantos corações vegetais do grito das plantas embriagadas pela estação e de como o amor ao Sol dá-lhe vida e nos doam a vida
coisas de monstro
cristalino perdido dentre os dentes da alma congelado à espera onde se esconde o fogo
como Prometeu esperei doar o fogo aos homens e ao invés de calor trouxe-lhes o frio
porque o ente humano que caminha na certeza absoluta torna-se um monstro e faz coisas de monstro e diz coisas de monstro e será banido como tal
não espero mais o amor da humanidade a paz celestial ou cocanha eterna troco por uma passagem para a nau dos insensatos
hoje contento-me mais com uma migalha de desejo uma velhice tranquila meu neto correndo pela casa e a luz de uns certos olhos
esboço
a partir do esboço incompleto de uma pessoa
pode se tomar da linha inconclusa o traço de um pássaro
será um humano pássaro ou pessoa que aprendeu a bater suas asas
?
múltiplas bocas
o céu carrega paradigmas para que se sustente sobre a cabeça dos homens antes da própria existência do ser
a vida tomará o lugar da vida em uma teimosia ímpar em uma bela certeza que sobre cadáveres brotarão flores
a morte para a natureza significa a continuação da vida simples mudança de forma e aproveitamento de energia
tudo está em tudo e como vida já experimentamos todas as coisas e estivemos em todos os lugares
o tempo monstro de múltiplas bocas a tudo e todos devora a transportar para o futuro
orgânica
a paisagem urbana se amarra ao por do sol em cabos elétricos e postes luminárias de fogos ardentes ao tomar ares de nave espacial venusiana
os fios costuram o céu em armações e nervuras como capilares sanguíneos que se enredam por toda cidade onde sangue de elétrons transportam movimento e números
as construções buscam a luz competem em devorar horizontes dia a dia jardins estéreis da babilônia recobrem a terra ao infinito
muralhas sem reboco babel que nunca termina devora cimento virado nas calçadas em manhãs de domingo fome insaciável de pedra e cal e lajotas vermelhas que nunca cobrem suas vergonhas
a cidade é orgânica monstro vivo e cada vez mais lento e somos os parasitas que habitam a sua barriga
nêsperas verdes
em gravidades raízes minerais da casa se afundam em uma alma de granito buscam o coração do leito argiloso
a casa adquire conotações vegetais e fractais de crescimento áureo matemática de ouvidos sonoros de esferas e música pitagórica
as estrelas se derramam sobre o quintal sem luz de interruptores fechados e nêsperas verdes
as crianças no escuro escondidos em olhos algozes com asas de corvos agourentos
as feridas cobertas com as penas rotas de ave jovem renovadas em tombos breves joelhos arruinados penitentes e cotovelos cascudos
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no calor das tardes de verão a luz que agredia os olhos era a grandiloqüência de deus em nossos corações e braços abertos no vento
mas tudo tem seu fim
contas de vidro
doses de amargo quebram as pétalas das flores em agridoce semelhança com a vida mas ainda assim desigual
pagar o dízimo das contas de vidro perdidas entre os dentes e caídas dos dedos senis e trêmulos
o amor é uma construção permanente o cimento que une o universo e há mais metafísica em olhares adolescentes apaixonados e seu brilho doentio do que nos arcanos das esferas orbitais de júpiter e contornos oculares de Galileu suas derradeiras ferramentas
o ósculo da matéria cinco segundos antes da destruição total nos revelará de vez a verdadeira verdade
mas ai será tarde
sombrinha de doze varas
1
sombrinha de doze varas sobre o pano dormem quinquilharias
"compra senhoro" a mulher tem cabelos brancos e sotaque romani
a cigana insiste guarda-chuva chinês de muitas cores buquês de flores transbordam cores na seda falsa
está caro penso não compro
"faz mais barato paga diferença depois"
já não ouço mais minha mente já está longe rouba o cinza do céu e dos olhos que me fitam uma certa indiferença
2
a árvore morta serve de moldura a fotografia que não tiro esta será só com os olhos
pequenos pássaros na distância parecem pretos hoje o dia está com pouca luz
3
flores de dente de leão pedem o sol que a tarde nos nega
sua cor destoa do que nossos olhos esperam
4
a mangueira tem tantas flores que lhe pendem os galhos
não sabe a planta não estar em um vale ensolarado do Ghanges ou do Indo
faz o papel ambíguo de florescer neste planalto frio a guardar o silêncio do horizonte esbranquiçado
5
nada muda o que sinto a tarde só fala o que está dentro de mim
* * *
Edson Bueno de Camargo é poeta, professor e fotógrafo. Publicou “cabalísticos” coleção Orpheu - Editora Multifoco, Rio de Janeiro 2010; “De Lembranças & Fórmulas Mágicas”, Edições Tigre Azul/ FAC Mauá 2007; ”O Mapa do Abismo e Outros Poemas” Edições Tigre Azul/FAC Mauá 2006, “Poemas do Século Passado-1982-2000”. Participou de algumas antologias poéticas e publicação literárias diversas. Participa do grupo poético/literário Taba de Corumbê da cidade de Mauá –SP. Foi premiado na Categoria Poesia Nacional 2010, no Concurso Literário de São Bernardo do Campo. Blog: http://umalagartadefogo.blogspot.com/ E-mai: camargoeb@ig.com.br
Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Edson Bueno de Camargo no Cronópios.