Escasso infinito
Quando os gestos regressarem ao local das mãos, descasca gotas de água como se fossem gomos de amor abandonados à beira da cama.
Não pendures palavras em varandas de papel enquanto não aprendermos a despentear o sono com pingos de ar fresco.
Quando os gestos regressarem, por favor, abre as mãos e multiplica por trezentos e sessenta graus de infinito, o prazo que te deram para ser feliz.
FOTO POEMAS










Omnipoético
Agarrou o poema com os lábios e pronunciou beijos que nem sequer eram palavras. Endireitou a voz por dentro. Foi buscar fôlego ao fundo dos pulmões para pedir à chuva que tombasse aguamente sobre o chão que lhe fugia das mãos.
Ao regressar. Subiu como os pássaros ao telhado das árvores. Lançou asas pela distância íngreme que vai do sentimento à escrita. Depois. Ajustou o sono ao fuso horário do infinito. Com a ponta dum fósforo construiu diques imaginários contra a insónia e pendurou-a por fios de lume para não se apagar.
Dezembro-me como se fosse hoje. Flocos de lenha derretiam-se na lareira tentando calar o frio. Lá fora os ramos sacudiam o vento perante a dança inquieta das folhas. Assobios pingavam em forma de música como se cada gota pudesse remunerar o coração com sopros mágicos de lume. Em troca de nada.
Leitor. Pergunta-lhe agora mesmo em que parte do corpo a ausência das palavras tem a força de uma multidão? A que distância os gomos de neve se deixam morder pelo sol quando nos faltam garfos para levar o sono à boca? E já agora leitor diz-lhe que o poema não se agarra com os lábios. Que os nossos passos embora dançados de cansaço hão-de sacudir sorrisos em véspera de poesia. Em toda a parte.
* * *
Heduardo Kiesse nasceu a 5 de Março de 1978 em Angola. Actualmente vive em Portugal. Após a passagem pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, decidiu-se pela Filosofia. Actualmente encontra-se a terminar a licenciatura em Filosofia, na mesma Universidade. Escreve para passear no tempo. Ainda não tem obra lançada, limita-se a lançar palavras no chão dos poemas a fim de ver germinar um livro com trezentos e sessenta graus de silêncio. Quando não está a trabalhar ou a estudar, gosta de fotografar palavras até ficar com as mãos cheias de poesia. Blog: “ParadoXos” (http://paradoxosdoedu.blogspot.com)
E-mail: eduardokiesse@hotmail.com