Fios de luz, carvõezinhos acesos é uma mostra de alguns poemas de meu primeiro livro: Poemas para Ler em Pé, publicado neste último outono pela Editora Patuá.
Em trecho de prefácio para o livro, afirma o poeta Luiz Vitor Martinello:
“Diria que os poemas e Douglas são fios de luz, carvõezinhos acesos, que soprados pelo intelecto de leitores sagazes (exige-se que os leitores de Douglas sejam sagazes) iluminam, e mesmo põem a nu, este nosso cotidiano sombrio, mesquinho, fruto de nossa inconsciência, de nossa miserabilidade”.
Dezembro
quando eu era menino
o menino jesus era assim
um irmãozinho mais novo
desses que vão à creche
passado tanto tempo
me pergunto como pai
– o que falta ao menino
que não cresce?
Aval
tão querido que
ateu
amigos acreditavam em Deus por ele
Mutante
horas quero me estar vadio
pouco estando, entreolhando
morrer o dia sem calor nem luz
já depois o poder ser
agarrar o dia nos dentes
entreter a luz, estancar a tarde
fazendo cera com o sol nas mãos
Perdi
marina, marina,
por que dóis tanto
e parecias tão pouco?
Consolo
Toda vez
que uma paixão vai embora
tem-se a impressão
de que o mundo todo chora
mas a vida então revida
qual praia que se renova
ou volta a onda que foi
ou chega uma onda nova
Trocados
despido do que creio
do que amo e anseio
então me apenas conto, se muito
com a esperança que trago no bolso
Ora pois,
poeta só toca o coração de quem se toca
A quem
Santíssima Trindade
rezo que me socorreis!
Peço a um
ou aos três?
Tão probo e perfeito
(como alguém que não se conhece direito)
Birra
o poeta naquele dia
queria porque queria
um poema, poesia
bem iria um haicai
mas a inspiração não vinha
qual gota de colírio no ar
suspensa, tremendo
tão pequenina que não cai
e ele ali, de olhos pro alto
aflito pedindo
que se adensasse a gotinha:
- ai, cai!
Wanted
a cada toc do ponteiro de segundos
não mais sou eu quem está aqui?
Quero-me de volta.
Que pena
daquela falta de aniversário só sobrou o imaginário
(perdeu quem não foi)
apaguei a tiros a vela do bolo
abati sete xerifes e meio e, oh,
aquele monte de estrelas do lado do coração sobrando
Business
a estrela de belém
nesses dias de natal
vira cult popular
(vende mais que coca-cola)
na bovespa e em wall street
o bochicho anda quente
- que tal privatizar?
Isso, não
acidentalmente
o filósofo pode perder muita coisa
menos a cabeça
Memorando
poça d’água na terra suja
mas cura
é farra infantil
memórias de sempre
que bom!
o mundo não nasceu cimentado
Falido
sempre ordenou e coordenou
hoje
na ordem do dia
é só uma oração subordinada
mas anda comendo a professora de gramática
Houaiss revisitado
patricida
aquele que se morre por patrícia.
Menos
Era um imperfeito perfeccionista.
Gente de bem
dízimo pago
por vitorioso crente
é sagrado e anunciado
lá na frente
justo é justo
dez por cento
do imposto sonegado
religiosamente
Ninho
às vezes parto só para poder voltar
Plural
amava
e muito
a própria mulher
e um bom tanto todas as demais
Ainda não
esquecera-o de vez
sem choro nem vela
assim dizia e jurava
mas esses dias
raspando um fundo de panela
ela sentiu ele doer
Urbi et orbi
O papa é infalível.
- Quem o elege, também?
Devolvo
és um livro que jamais lerei
mas um livro que gostaria de ter
por um dia
e mais, e muito
com todo cuidado
ao menos folhear
Proseando
Há quem creia diferentes o tempo e o vento. Que só este é concreto, roça o corpo, bate portas, ara a roça. Faz tempo, era criança, eu saía para caçar o vento. Um dia, de festa de menino rico levei uma bexiga, a cor nem lembro. Era assim como uma gaiola, toda fechada, cheia de vento dentro. Dela cuidei com carinho, zelo e tempo, até o dia em que explodiu. E os dois se foram do mesmo modo, todo o vento e junto o tempo.

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Douglas Dias Ferreira é revisor de textos e tradutor. Entre outros autores, traduziu Planiol, Pothier, Calamandrei, Carmelutti, Savigny e Ingenieros (O homem medíocre – Editora Quartier Latin: São Paulo) Quando menino o que mais queria era ter irmãos para não apanhar sozinho na rua. E-mail: douglasdiasf@uol.com.br