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23/07/2012 22:56:00
Fios de luz, carvõezinhos acesos



Por Douglas Dias Ferreira


Fios de luz, carvõezinhos acesos é uma mostra de alguns poemas de meu primeiro livro: Poemas para Ler em Pé, publicado neste último outono pela Editora Patuá.
Em trecho de prefácio para o livro, afirma o poeta Luiz Vitor Martinello:
“Diria que os poemas e Douglas são fios de luz, carvõezinhos acesos, que soprados pelo intelecto de leitores sagazes (exige-se que os leitores de Douglas sejam sagazes) iluminam, e mesmo põem a nu, este nosso cotidiano sombrio, mesquinho, fruto de nossa inconsciência, de nossa miserabilidade”.



Dezembro

quando eu era menino
o menino jesus era assim
um irmãozinho mais novo
desses que vão à creche

passado tanto tempo
me pergunto como pai
o que falta ao menino
que não cresce?



Aval

tão querido que
ateu
amigos acreditavam em Deus por ele



Mutante

horas quero me estar vadio
pouco estando, entreolhando
morrer o dia sem calor nem luz

já depois o poder ser
agarrar o dia nos dentes
entreter a luz, estancar a tarde
fazendo cera com o sol nas mãos



Perdi

marina, marina,
por que dóis tanto
e parecias tão pouco?



Consolo

Toda vez
que uma paixão vai embora
tem-se a impressão
de que o mundo todo chora

mas a vida então revida
qual praia que se renova
ou volta a onda que foi
ou chega uma onda nova



Trocados

despido do que creio
do que amo e anseio
então me apenas conto, se muito
com a esperança que trago no bolso



Ora pois,

poeta só toca o coração de quem se toca



A quem

Santíssima Trindade
rezo que me socorreis!

Peço a um
ou aos três?



Tão probo e perfeito

(como alguém que não se conhece direito)



Birra

o poeta naquele dia
queria porque queria
um poema, poesia
bem iria um haicai

mas a inspiração não vinha
qual gota de colírio no ar
suspensa, tremendo
tão pequenina que não cai

e ele ali, de olhos pro alto
aflito pedindo
que se adensasse a gotinha:
- ai, cai!



Wanted

a cada toc do ponteiro de segundos
não mais sou eu quem está aqui?

Quero-me de volta.



Que pena

daquela falta de aniversário só sobrou o imaginário

(perdeu quem não foi)

apaguei a tiros a vela do bolo
abati sete xerifes e meio e, oh,
aquele monte de estrelas do lado do coração sobrando




Business

a estrela de belém
nesses dias de natal
vira cult popular

(vende mais que coca-cola)

na bovespa e em wall street
o bochicho anda quente
- que tal privatizar?



Isso, não

acidentalmente
o filósofo pode perder muita coisa

menos a cabeça



Memorando

poça d’água na terra suja
mas cura

é farra infantil
memórias de sempre

que bom!
o mundo não nasceu cimentado



Falido

sempre ordenou e coordenou

hoje
na ordem do dia
é só uma oração subordinada

mas anda comendo a professora de gramática



Houaiss revisitado

patricida
aquele que se morre por patrícia.



Menos

Era um imperfeito perfeccionista.



Gente de bem

dízimo pago
por vitorioso crente
é sagrado e anunciado
lá na frente

justo é justo
dez por cento
do imposto sonegado
religiosamente



Ninho

às vezes parto só para poder voltar


Plural

amava
e muito
a própria mulher

e um bom tanto todas as demais



Ainda não

esquecera-o de vez
sem choro nem vela
assim dizia e jurava

mas esses dias
raspando um fundo de panela
ela sentiu ele doer



Urbi et orbi

O papa é infalível.
- Quem o elege, também?



Devolvo

és um livro que jamais lerei
mas um livro que gostaria de ter
por um dia

e mais, e muito
com todo cuidado
ao menos folhear



Proseando

Há quem creia diferentes o tempo e o vento. Que só este é concreto, roça o corpo, bate portas, ara a roça. Faz tempo, era criança, eu saía para caçar o vento. Um dia, de festa de menino rico levei uma bexiga, a cor nem lembro. Era assim como uma gaiola, toda fechada, cheia de vento dentro. Dela cuidei com carinho, zelo e tempo, até o dia em que explodiu. E os dois se foram do mesmo modo, todo o vento e junto o tempo.



              www.editorapatua.com.br



                                                 * * *

 

Douglas Dias Ferreira é revisor de textos e tradutor. Entre outros autores, traduziu Planiol, Pothier, Calamandrei, Carmelutti, Savigny e Ingenieros (O homem medíocre – Editora Quartier Latin: São Paulo) Quando menino o que mais queria era ter irmãos para não apanhar sozinho na rua. E-mail: douglasdiasf@uol.com.br

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