Meu amor,
O grande elefante não passeia
Pelos caminhos do coelho.
Cessa de medir o céu
Por um canudo de bambu.
Se ainda não compreendeste, vem,
Que eu tenho a coisa preparada para ti.

A cortina branca
Contra a nuvem branca
Sobre um céu escuro.
Pela fresta móvel
– Figura invertida –
Vem a luz que incide
E recorta a sombra
Desta mão morena
Sobre a pele clara.

Uma
Palavra
Basta –
E o meu corpo
Será
Salvo.

Um pássaro voa,
Um cavalo corre,
Um peixe nada
Sempre no limite
Do seu espaço,
Inscrito na linha
Do seu corpo.
E para quem fala,
Onde a quebra
Do dentro e do fora,
O risco que separa
O desenho do gesto
Do pulsar da intenção?

O que eu de fato queria
Era nada fazer e com nada
Me preocupar: o vazio do corpo
(A sua anistia)
Em qualquer lugar.

Meu amor
Nesta manhã
(Como
Uma romã)
Se debulha.

Os que amaram antes
E os que ainda vão amar;
Os que andaram nas ruas
E os que cruzaram os campos;
Aqueles que tiveram a sorte
E aqueles que apenas desejaram;
Os que ouviram as palavras
E os que não as disseram;
Os que já morreram
E os que estão por nascer:
Com todos me irmano
Neste momento, repleto
E vazio de mim mesmo.
A todos estendo o pensamento,
E em segredo convoco:
Eu, que não sou nada, apenas
Aquele que o amor agora habita
E agita e faz falar.

Que a minha mão seja dada ao esquecimento,
E a minha língua se enrole na boca, dizendo
Apenas as palavras ordinárias,
Que o meu sexo fique pendendo
Como um enforcado e os meus olhos
Rolem soltos sobre o chão.
Que eu não possa
Encontrar refrigério, nem as pernas me levem
Além deste lugar escuro, se aqui
Eu me esquecer um dia
De ti, daquilo que nos rodeou, quando
Estivemos em glória e vencemos, por instantes,
O fluxo da morte.
Se eu me esquecer de agradecer, odiar,
Ansiar pelo impossível
Paraíso na terra, onde a árvore floresce
E a vida eterna é apenas uma lenda
De mau gosto.
Este outro deus, sem nome: escondido,
Sussurrando, desde o fundo do tempo,
A promessa real – o sem fim no que termina,
O fim de tudo que não seja luz,
Transbordamento, encontro.
Que estas palavras sejam de outro
E fique a minha voz para sempre
Engolfada na garganta, se eu
Um momento me esquecer
De ti.

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Paulo Franchetti é professor titular de Teoria Literária na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Diretor da Editora Unicamp. É autor, entre outros livros, de Estudos de literatura brasileira e portuguesa (2007), Oeste/Nishi (2008) e Memória futura (2010). E-mail: paulofranchetti@gmail.com