pena que o arrudas não é mais potável
depois daquele porre que tomamos
madrugada preta na cidade mais careta do brasil
no ano de 1933
rebolamos nossa nudez
pela manhã esturricada
e mandamos a cidade para a puta que pariu
pena que o arrudas não é mais potável
a caretice venceu com medo
não queriam ver uma vez mais as nossas bundas
se entreolhavam de maneira tão amável
balançando como num samba
a malícia das velhinhas já corcundas
que buscavam baldes na cheia do rio
AEROPLANOS
planos para o próximo ano
aeroplanos
se a cabine despressurizar
carabinas como estas apontarão para a
sua cara
não há saídas de emergência
fasten seat belt
use o assento para flutuar
para o próximo ano
aeroplanos
TRANSATLÂNTICO
adiar o dia de sair do mar
se enturmar com o mar
sem querer domar o mar
ser do mar
fazer com que o mar
em ser espelho olhe-se
no acordo do céu
sem horizontes nem limites
aceitar que o mar
em sendo mar se torne léu
sereia e todo ser
que se molha que se olha
em cada pele cada prole
tornar-se ele pele com pele
formar brânquias
formar guelras
e barbatanas
para estar no mar
querer morar no mar
esquecer os dias de adiar
e se espraiar por lá
pacificamente
atravessar o mar
num barco a vela
num transatlântico
ou num vapor
seguir por onde for
seguir por onde o vento indicar
ouvir as conchas ler os búzios
e deixar-se levar
deixar-se levar no mar
morrer no mar dormir no mar
beber o mar viver o mar
infinitivo mar
# Poemas do livro:

Use o assento para flutuar
Autor: Leo Gonçalves
Editora: Patuá (www.editorapatua.com.br)
ISBN: 978-85-64308-62-6
Convite: a Editora Patuá lança, no dia 21 de agosto, às 19h30, na Sala Guiomar Novaes, na Funarte (Alameda Nothman, 1058), em São Paulo, o livro Use o assento para flutuar, de Leo Gonçalves. A obra reúne poemas recentes do autor, tratando de temas contemporâneos com muita ironia e bom humor. O terceiro livro de Leo Gonçalves, escrito entre 2005 e 2012, Use o assento para flutuar fala de tudo a que a poesia tem direito. “A poesia é palavra calcinada e por isso pode falar de tudo”, comenta Juan Gelman na orelha do livro. Do amor ao humor. Da influência da poesia caribenha e africana a um retrato do mundo pós queda das torres gêmeas, o livro traz um testemunho do zeitgeist, o espírito da época.

* * *
Leo Gonçalves é poeta e também performer, artista sonoro e visual, além de tradutor, ensaísta e divulgador da poesia do mundo. Traduziu em parceria com Mário Alves Coutinho o livro Canções da inocência e da Experiência, de William Blake, obra que ficou entre as 50 indicadas do site UOL em 2005. Em parceria com Andityas Soares de Moura, traduziu Isso, de Juan Gelman, publicada na coleção Poetas do Mundo da UnB. Traduziu também a peça O doente imaginário de Molière, atualmente em sua segunda edição. Além dessas obras publicadas em livro, também traduziu para revistas literárias poetas como Aimé Césaire, Léopold Sédar Senghor, William Burroughs, Allen Ginsberg, Heriberto Yépez, Gérard de Nerval, Tristan Tzara e muitos outros. Blog: www.salamalandro.redezero.org E-mail: leogonsalves@gmail.com