I. do incômodo
Na superfície de terra e de equilíbrio dúbio espero o trem. Um sopro forte me balança: lá vem.
(Arrumo o cabelo.)
As paredes do túnel correndo meus olhos lembram argila – e vasos os corpinhos ali, compactados em massas de rotina.
Nova lufada bruta, mas pela janela.
(Arrumo o cabelo.)
II. da imersão
Agora, ao deslizar no espaço, procuro eixo. Não reclamo da chuva, pago as contas do celular, penso no corpo perdido e fluido (é que tenho também planos de nadar). Pense:
a pupila aguada
a carne de um azul fresco
a dança sem atrito
o estalido calmo de um beijo.
III. pairar
Céu em mira, me lanço. E desabo com o peso da cidade. Engasgada com a fumaça e por ela pendurada até o fundo da goela.
A goela que é rosa, rosa a fumaça e as fitas, os passos mal executados. Odeio a cor, mas há tons que tardam, e aqui um desespero de esperar.
– Estenda as mãos encontre o centro alongue o tronco!
E se perco o ar?
* * *
Carina Carvalho mora em São Paulo, é formada em Letras, dança pelos dias e escreve desde que acreditou ser feita da matéria dos sonhos. Boa parte do que produz pode ser lido em http://desastresliricos.blogspot.com E-mail: carina.dlc@gmail.com