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O guarda-chuva no caos (quanto mais furado, mais poesia entra)
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Série Curt@s Histórias e Poesias
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Sexo sem anjos
por Jorge Elias Neto







 
16/09/2012 00:46:00
AMORETOS



Por Luiz Vitor Martinello



RELÓGIO DO TEMPO

metia-se pelos decotes das moças
enfiava-se lhes pelas pregas das saias
vasculhava sofregamente
tudo o que tivesse seios, bunda, coxas

hoje seu olhar
contempla o infinito, sem pressa

a cadeira no quintal
aprecia os pardais em festa

(enquanto descasca, sem pressa, uma laranja)




POEMA BANAL

quero fazer um poema banal
como alguém que coma um doce
de abóbora e se delicie

tão banal que
quando vier a terminar
(e ainda lambendo os lábios)
pergunte:
-qual a receita?

mais banal ainda
tão mais banal que, passada a receita
a mocinha
(suponho que quem esteja comendo
o doce seja a mocinha da casa da varanda)
copie-a pacientemente
em seu caderno de receitas

e depois, finda a empreitada
olhe liricamente para o caderno e suspire
e o guarde entre as coisas de seu
enxoval




KIT AMOROSO

decorei três versinhos
de j. g. de araújo jorge pra te dizer
(me esqueci)

mas trago-te
e espero que gostes
um lacinho de fita
prenda da última quermesse
com teu nome bordado




O RETRATO

guardo num velho baú
teu retrato envelhecido

tua saia de florezinhas murchas e ramas desbotadas
teus sapatos puídos
um alencar corroído em tuas mãos
contrastam com tua alma 
                                     incorruptível

(infensa à poeira, às baratas, à ferrugem do tempo)



POBRE BEETHOVEN!

em louvor à musa
um som de piano preenchia
                                         (inútil)
a sala de concertos

porquanto, alheia
ela, em um devaneio místico
cravava fixamente seus olhos
na bolsa louis vuitton

que pairava, elegante
no colo da moça ao lado




CARPE DIEM

um colibri pousou no galho da laranjeira
uma rosa em abril
o pescador vai à margem do regato
e pesca

os filhos magros pequenos pelados
chupando frutas
a mulher cansada, desamada, recorda seu último
beijo
(beija-se tão pouco no sertão)

aos passinhos vêm chegando seu durval
seu alípio, seu agenor, as amizades

pedra jogada na água espanta os peixes
foi até um deles, o agenor, quem traiu
o pescador
e fez na mulher dele o filho mais
menino

o pescador ignora e continua pescando




DE PRÍNCIPES E PRINCESAS

teresa,
os homens são maus

talvez você se case
com um homem mau
que lhe bata na cara
e nunca lhe traga uma rosa




BALADA

vinde a mim
as virgens nuas
enchei assim
todas as ruas

vinde as donzelas
puras e belas
vinde as musas
das horas escusas

vinde as putas
vinde as santas
(tu que me escutas)
e outras tantas

vinde buscar
esse copo vazio
esse corpo já frio
que vai se afogar

no fundo do mar





CASO

um dia me beijou
demorado na boca

tão demorado
anoiteceu
amanheceu
etc.




CANTIGA PARA ELOANA

você nunca viu o mar
eloana?
mar é salgado
tem peixe, tem navio
tem praia
abra a torneira
                      eloana
o mar virá devagarinho
pegue o mar num copo d’água
se vier um navio
                           embarque
ele levará suas tranças
pra longínquas terras
                                onde
o sol não se esconde nunca

(se vier um peixe
                            eloana
a gente faz ele assado)




LICENÇA POÉTICA

fosse lá eu imaginar
que a dama de negros olhos
à noite
         (no silêncio de seu quarto)

coçava o pé




CONTEMPLAÇÃO

enfiava o dedo no nariz
mas era tão bela
isso ela era
                   e singela

(e feliz!)




TEMPUS NOVUM

com esse negócio de modernidade
conjugal
em que se pretende dividir
o trabalho doméstico

     ela cozinha, eu tempero
     eu lavo, ela passa

     (outro dia, mandei-a plantar batatas!)




SUBLIME VISÃO

quando mariana passou
eu fiquei
pensando cá com meus botões
que ela nem precisava ter
olhos verdes
(que isso é papo de literatura)

abastava sua bunda




DA MORAL BURGUESA

não sei por que os pais implicam
e tanto
com o primeiro namorado das filhas
se elas se casam mesmo

(é com o penúltimo)




POEMINHA ANTROPÓFAGO

como teus olhos
como duas jabuticabas
como-te as maçãs do rosto
e as batatas de tuas pernas
eu como

depois de te comer
toda
ainda te quero mais
essa é minha certeza

então
como-te todinha
de novo

(de sobremesa)





MADRIGAL URBANO

aquela calcinha
pendurada no varal
esvoaçando à brisa
                             matinal
oh ! não é por ela
que suspiro

é por quem nela
não está
               (sem ela)

e a quem
demoradamente
contemplo
do alto de minha janela




DA HIPOCONDRIA

meu amor
tem sempre uma dor
que não é sempre
a mesma
             varia /
conforme seu humor

(que decreta a dor
do dia)



DAS DECLARAÇÕES DE AMOR

por mais distante que estiveres
mais distante que a lua
mais distante que o sol
mais distante que o último dos planetas
meu coração estará sempre unido ao teu!

tradução:
-dá pra mim?





FIM DE CASO

agora, já os bens divididos
restam os bibelôs na gaveta
e ficamos desde já entendidos
(ó meu benzinho)

você pega sua borboleta
e eu, meu passarinho





DOMINGO

após ter criado o céu e a terra
após ter feito sol brilhar
deus, que não é de ferro
botou na vitrola um bolero
e criou a mulher
(pois que lhe dera uma vontade enorme
de dançar)




DEVOÇÃO

o corpo de laura era tão interior
que nós relevávamos sua bundinha arrebitada
seus seios empinados
e mesmo suas coxas tesas

a nós, moleques da rua de baixo
importavam tão somente seus olhos
de onde escorria como água límpida de bica
sua alma amendoada

nossas mãos em conchas recolhendo
(silenciosos)
toda sua espiritualidade




ANTIQUÁRIA

Banham-te, minha Diana nua,
Apenas de tépida brisa vestida,
Úmidos cristais de fonte vetusta.

E enquanto doira-te mais o sol,
Convertendo-te em bronze contemplada,
Afagam-te, deusa, meus olhos de pluma,
Despindo-te mais: desta brisa que te veste




ESCASSEZ

quem sou eu, quem?
aquele que tem
ou aquele a quem falta?

quem sou eu?
o que agora vive
ou o que já morreu?

entre mim e o não eu
posso dar-te
(o que não é meu)




LUZ & SOMBRA

eu te amo em amarelo desespero
como o sol ama a lua e ardo
enquanto, à noite, passeias de branco
fria, por entre nuvens

minha voz ferindo apenas o dia
não te toca




PENSAVA QUE TU ME AMAVAS

pensava que tu me amavas
aí emprestei teus olhos
e vi como tu me vias

pensava muita coisa de ti
aí emprestei teu coração
e senti o que sentias

pensava que comigo terminarias
aí, emprestei tua preguiça

(e comprei uma rede pra nós dois)





AMOR, SUBLIME AMOR!

o amor quando pica
nem freud explica

pica aqui                      pica lá
pica ali                                                      pica acolá

quanta pica, meu deus!
assusta-se a donzela

...

soubesse (e sabe), ó zeus!
que os impulsos do amor
são provocados por ela...

e caso o senhor
também queira saber
vou lhe dizer
(sem nenhum favor)

que, se o amor sempre flui
que, se o amor é sempre moda
então, o que se conclui?

 -  QUE O AMOR É FODA!






                                                 * * *


Luiz Vitor Martinello é poeta e professor de Literatura em Bauru – SP. É autor dos livros de poesia “Mãos nos bolsos”, “Os anjos mascam chiclete”, “Lixeratura”, “Me apaixonei por mim mas não fui correspondido” e dos infanto-juvenis “O sapato que sabia andar” e “O penuginha”. E-mail: vitormartinello@uol.com.br

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