RELÓGIO DO TEMPO
metia-se pelos decotes das moças
enfiava-se lhes pelas pregas das saias
vasculhava sofregamente
tudo o que tivesse seios, bunda, coxas
hoje seu olhar
contempla o infinito, sem pressa
a cadeira no quintal
aprecia os pardais em festa
(enquanto descasca, sem pressa, uma laranja)
POEMA BANAL
quero fazer um poema banal
como alguém que coma um doce
de abóbora e se delicie
tão banal que
quando vier a terminar
(e ainda lambendo os lábios)
pergunte:
-qual a receita?
mais banal ainda
tão mais banal que, passada a receita
a mocinha
(suponho que quem esteja comendo
o doce seja a mocinha da casa da varanda)
copie-a pacientemente
em seu caderno de receitas
e depois, finda a empreitada
olhe liricamente para o caderno e suspire
e o guarde entre as coisas de seu
enxoval
KIT AMOROSO
decorei três versinhos
de j. g. de araújo jorge pra te dizer
(me esqueci)
mas trago-te
e espero que gostes
um lacinho de fita
prenda da última quermesse
com teu nome bordado
O RETRATO
guardo num velho baú
teu retrato envelhecido
tua saia de florezinhas murchas e ramas desbotadas
teus sapatos puídos
um alencar corroído em tuas mãos
contrastam com tua alma
incorruptível
(infensa à poeira, às baratas, à ferrugem do tempo)
POBRE BEETHOVEN!
em louvor à musa
um som de piano preenchia
(inútil)
a sala de concertos
porquanto, alheia
ela, em um devaneio místico
cravava fixamente seus olhos
na bolsa louis vuitton
que pairava, elegante
no colo da moça ao lado
CARPE DIEM
um colibri pousou no galho da laranjeira
uma rosa em abril
o pescador vai à margem do regato
e pesca
os filhos magros pequenos pelados
chupando frutas
a mulher cansada, desamada, recorda seu último
beijo
(beija-se tão pouco no sertão)
aos passinhos vêm chegando seu durval
seu alípio, seu agenor, as amizades
pedra jogada na água espanta os peixes
foi até um deles, o agenor, quem traiu
o pescador
e fez na mulher dele o filho mais
menino
o pescador ignora e continua pescando
DE PRÍNCIPES E PRINCESAS
teresa,
os homens são maus
talvez você se case
com um homem mau
que lhe bata na cara
e nunca lhe traga uma rosa
BALADA
vinde a mim
as virgens nuas
enchei assim
todas as ruas
vinde as donzelas
puras e belas
vinde as musas
das horas escusas
vinde as putas
vinde as santas
(tu que me escutas)
e outras tantas
vinde buscar
esse copo vazio
esse corpo já frio
que vai se afogar
no fundo do mar
CASO
um dia me beijou
demorado na boca
tão demorado
anoiteceu
amanheceu
etc.
CANTIGA PARA ELOANA
você nunca viu o mar
eloana?
mar é salgado
tem peixe, tem navio
tem praia
abra a torneira
eloana
o mar virá devagarinho
pegue o mar num copo d’água
se vier um navio
embarque
ele levará suas tranças
pra longínquas terras
onde
o sol não se esconde nunca
(se vier um peixe
eloana
a gente faz ele assado)
LICENÇA POÉTICA
fosse lá eu imaginar
que a dama de negros olhos
à noite
(no silêncio de seu quarto)
coçava o pé
CONTEMPLAÇÃO
enfiava o dedo no nariz
mas era tão bela
isso ela era
e singela
(e feliz!)
TEMPUS NOVUM
com esse negócio de modernidade
conjugal
em que se pretende dividir
o trabalho doméstico
ela cozinha, eu tempero
eu lavo, ela passa
(outro dia, mandei-a plantar batatas!)
SUBLIME VISÃO
quando mariana passou
eu fiquei
pensando cá com meus botões
que ela nem precisava ter
olhos verdes
(que isso é papo de literatura)
abastava sua bunda
DA MORAL BURGUESA
não sei por que os pais implicam
e tanto
com o primeiro namorado das filhas
se elas se casam mesmo
(é com o penúltimo)
POEMINHA ANTROPÓFAGO
como teus olhos
como duas jabuticabas
como-te as maçãs do rosto
e as batatas de tuas pernas
eu como
depois de te comer
toda
ainda te quero mais
essa é minha certeza
então
como-te todinha
de novo
(de sobremesa)
MADRIGAL URBANO
aquela calcinha
pendurada no varal
esvoaçando à brisa
matinal
oh ! não é por ela
que suspiro
é por quem nela
não está
(sem ela)
e a quem
demoradamente
contemplo
do alto de minha janela
DA HIPOCONDRIA
meu amor
tem sempre uma dor
que não é sempre
a mesma
varia /
conforme seu humor
(que decreta a dor
do dia)
DAS DECLARAÇÕES DE AMOR
por mais distante que estiveres
mais distante que a lua
mais distante que o sol
mais distante que o último dos planetas
meu coração estará sempre unido ao teu!
tradução:
-dá pra mim?
FIM DE CASO
agora, já os bens divididos
restam os bibelôs na gaveta
e ficamos desde já entendidos
(ó meu benzinho)
você pega sua borboleta
e eu, meu passarinho
DOMINGO
após ter criado o céu e a terra
após ter feito sol brilhar
deus, que não é de ferro
botou na vitrola um bolero
e criou a mulher
(pois que lhe dera uma vontade enorme
de dançar)
DEVOÇÃO
o corpo de laura era tão interior
que nós relevávamos sua bundinha arrebitada
seus seios empinados
e mesmo suas coxas tesas
a nós, moleques da rua de baixo
importavam tão somente seus olhos
de onde escorria como água límpida de bica
sua alma amendoada
nossas mãos em conchas recolhendo
(silenciosos)
toda sua espiritualidade
ANTIQUÁRIA
Banham-te, minha Diana nua,
Apenas de tépida brisa vestida,
Úmidos cristais de fonte vetusta.
E enquanto doira-te mais o sol,
Convertendo-te em bronze contemplada,
Afagam-te, deusa, meus olhos de pluma,
Despindo-te mais: desta brisa que te veste
ESCASSEZ
quem sou eu, quem?
aquele que tem
ou aquele a quem falta?
quem sou eu?
o que agora vive
ou o que já morreu?
entre mim e o não eu
posso dar-te
(o que não é meu)
LUZ & SOMBRA
eu te amo em amarelo desespero
como o sol ama a lua e ardo
enquanto, à noite, passeias de branco
fria, por entre nuvens
minha voz ferindo apenas o dia
não te toca
PENSAVA QUE TU ME AMAVAS
pensava que tu me amavas
aí emprestei teus olhos
e vi como tu me vias
pensava muita coisa de ti
aí emprestei teu coração
e senti o que sentias
pensava que comigo terminarias
aí, emprestei tua preguiça
(e comprei uma rede pra nós dois)
AMOR, SUBLIME AMOR!
o amor quando pica
nem freud explica
pica aqui pica lá
pica ali pica acolá
quanta pica, meu deus!
assusta-se a donzela
...
soubesse (e sabe), ó zeus!
que os impulsos do amor
são provocados por ela...
e caso o senhor
também queira saber
vou lhe dizer
(sem nenhum favor)
que, se o amor sempre flui
que, se o amor é sempre moda
então, o que se conclui?
- QUE O AMOR É FODA!
* * *
Luiz Vitor Martinello é poeta e professor de Literatura em Bauru – SP. É autor dos livros de poesia “Mãos nos bolsos”, “Os anjos mascam chiclete”, “Lixeratura”, “Me apaixonei por mim mas não fui correspondido” e dos infanto-juvenis “O sapato que sabia andar” e “O penuginha”. E-mail: vitormartinello@uol.com.br