Café Literário Cronópios






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9/4/2005 22:31:00
O livro dos mais pequenos silêncios




Por Léo Mackellene

 

Se queres sentir a felicidade de amar,

esquece tua alma.

A alma é que estraga o amor.

Só em Deus ela pode encontrar satisfação

não noutra alma

só em Deus - ou fora do mundo.

 

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

porque os corpos sim se entendem,

mas as almas não.

 

manuel bandeira



 

prólogo

 

curva-se o garçom do tempo

para o cliente que paga apenas vivendo

e oferece erectilmente:

sensações ou sentimentos?

 

 

Interlúdio

 

A sensação

é a vibração de um som

que vem de fora

e nos toca

 

O sentimento

é a reverberação de um som

que está dentro

e nos controla.

 

 

1

 

Entra.

Este é o meu jardim de desertos

sem portas ou janelas, entra.

 

não te espanta que não haja palmeiras aqui?

...também não cantam mais os sabiás.

 

Entra e senta

que o mundo é secular e ele pesa.

Olha que o abrigo do poema é o poeta

e vice-versa.

 

ESPERA...  é só o silêncio pedindo licença,

               velho mensageiro do invisível.

 

Agora já podes entrar. Senta.

 

todas as coisas se revelam no escuro

enquanto acendo um ponto de fuga e puxo

içamos o fogo da terra até os olhos

 

é lindo o jeito como tu fecha os olhos,

como se fechasse as portas da tua casa

 

vai até ali,

o espelho é o rosto dos rios,

já disseram.

Prostra-te ali e

diante do espelho

fecha os olhos e vê,

aponta o que está inerte.

 

CALMA...  o movimento é a voz do silêncio

              transbordando sobre tudo o que há,

                   tudo o que deve haver

 

é quando as luzes do universo se apagam

que as coisas se tornam puras, obscuras, secretas

(são os poemas que ocultam

a vida subterrânea de todos os segredos)

 

dancemos na escuridão desses caminhos,

dancemos que os espíritos antigos nos afagarão

 

Não tema!

O barulho das portas rangendo

é só o sentido das palavras se movendo dentro de nós

 

Exala silêncio teu beijo absurdo

e cego também eu

sinto os suaves gestos do infinito

sobre meu rosto ríspido, urdido de vestígios

(os mais sutis segredos trago guardados aqui)

 

em falso piso em falso,

passo de quem volta a caminhar depois de anos de hesitação

(o caminho se descobre caminhando,

não é o que dizem?)

 

Piso em falso sem saber onde morar

faço morada dos abismos que encontro ao caminhar

pouco importa então onde moro

não moro em lugar nenhum

importa aonde eu vou

 

Sempre assim,

continuamos. Nada mais.

E tudo acontece sem o nosso consentimento.

 

(nos aproximemos na dança

que já a canção termina

nenhuma canção pode soar pra sempre)

 

sozinho, me guio sozinho

sob os pequenos dedos do invisível

(se tudo só parece,

tudo está escondido)

 

tua pele exalando esquecimento,

enigma do impossível

 

O universo imenso se reordenando sobre mim

pra te acomodar entre minhas velas mais distantes...

 

(ainda dançamos a essa altura.

Mais três passos

e paramos.)

 

Olha...teu enigma sabe o indizível silêncio:

           sugerindo!

           Arte de reinventar o que existe.

 

Todos os poemas são profecias

e eu fiz um poema pra ti.

Verdade, fiz um poema pra ti.

Quer ouvir?

 

2

 

Um velho sábio que mora dentro da morte

me olhou uma vez disse

“o fogo deseja o frio

mas não pode tocar o gelo

sem feri-lo.

 

Isso é verdade, eu sei...

 

Mas a realidade é irrelevante no âmbito dos desejos

(é sincera a palavra

que vem manchada de sangue

e nos revela)

 

Teu medo é uma sombra,

teus segredos camuflados

com os invisíveis arbustos do teus silêncio.

Me ensina essa língua risonha e muda

que diz e não diz

cala e sugere?

 

Olha a janela em frangalhos aberta pra ti

é aqui que eu te encontro

no que sobrou do teu cheiro

no que se apossou do meu peito, sem receio, de mim.

 

(Metade de mim o amor devorou

sou apenas parte daquilo a que chamam de mim.

Metade eu esqueço,

metade padece diante de ti.

Vestígios de ti por toda minha carne,

esquecer...

pensamento que padece)

 

Contemplá-la enquanto dorme

é prender que o universo é inteiro

uma respiração incessante

a se expandir que se contrai

e vejo tua pele,

o pergaminho mais antigo que pude tocar

 

Olha,

o corpo é uma parede que nos reveste

um muro que nos impede de tocar a alma

só a palavra, minha querida,

só aquilo que significa pode alcançar a alma

a palavra é a maneira de tocar o outro

quando o outro está longe.

 

(mas cuidado,

a palavra também é a maneira de afastar o outro

quando o outro está perto.)

 

Calma.

O amor só é abismo pro fraco

se o amor é um fogo como dizem

o desejo enlouquecido de encontrar os teus mais íntimos mistérios

aqueles arbustos ali, cegos

 

Ora,

um poeta é para ver o invisível

é para imaginar o inatingível

não importa o quanto doa

─ seus lábios estão calejados ─

ele avança e apanha um ramo de sol

 

Ah! A dolorosa beleza dos segredos alheios!

 dos silêncios inteiros!

 

à triste beleza daquilo que escrevo

teu medo sussurra como um vento:

protege do sol intenso tuas flores

e elas se multiplicarão agradecidas

 

E assim, me contenho...

paro onde estou, aqui

até ser convidado a sair

 

Enquanto isso, entra.

Estou aqui

vivendo secretamente em mim.

 

Entra só um instantinho.

Eu sei, só as ilusões são eternas.

Dancemos então

só essa última canção

que nessa noite sem fim

nenhuma canção é pra sempre

tudo nasceu pra ruir.

 

3

 

Entre os arbustos do invisível

o último poema jazia esquecido.

 

Encerrado o baile

finda a festa e a dança

o universo volta sorrateiro

à sua natural, caótica insignificância

 

(nossos pés se desfizeram pelo chão

e há rastros por toda parte

rua por rua,

lugar por lugar)

 

O jardim se recolheu indeciso,

como um molusco que se esconde na concha,

quando a grade noite escondeu a cor das flores

 

Os sons,

tons eles cavalgando o ar,

já se dissiparam

já deixaram de soar

fizeram-se pálidos, depois soturnos, transparentes

perderam a consistência e ser

e se desfizeram

até a textura indefinida daquilo que morre.

 

Agora,

galhos secos tremem no salão

vazio de ilusões que se perderam

um pedaço orgânico de palavra se contorce e pulsa ali no meio

mas logo morrerá por completo

sensações sem sentimentos e

sentimos e sensações

tudo por findar afinal

 

São as coisas cumprindo

o estranho rito de existir e terminar

o sol se consumindo

em sua infinda função

de anoitecer e ressuscitar

 

Sem o apelo dos sons

o silêncio se desnuda e se revela por inteiro:

outro amor abortado

se acaba e desabam as paredes do templo que se erguia em silêncio

 

O corpo sucumbe ao nada

à folha caída,

arrancada do velho livro de poesia

 

(cada um de nós é um poema inacabado

 porque tudo é inacabado)

jazem as palavras que nem nasceram

envelhecidas no papel em branco

 

(é a falta de amor que nos envelhece, é a sua falta.

mas a falta, minha querida,

a falta também passa)

 

Guardo em mim, assim

o último poema

teu último gesto sobre meu rosto ríspido,

urdido de vestígios

 

escombros de castelos de areia

construídos no fundo do mar

 

guardo em mim, aqui

tuas unhas negras

trabalhando o que existo

modelando o que pressinto

refazendo os meus sentidos...

 

Desviada a minha estrela

deslocada a linha reta

apenas a sombra derradeira

do beijo de um por vir que já desperta

 

aqui,

um segundo

é a eternidade doendo.

 

 

léo mackellene é professor de Literatura Comparada e de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na Universidade Estadual Vale do Acaraú. Tem poemas publicados na revista Arraia Pajé-Urbe (nº 3) e textos em impressos alternativos.

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