Por Ailton Bedani
Grécia
engana-se quem vê
na velha pedra branca
pretexto
para ensolarado tour matinal
desculpa
para disparo de máquina digital
à pedra alva coube ser
pedra-ponte que se faz agora e todo sempre
pedra-cálida que agrega azuis
pedra-terra que tempera atmosferas
pedra-seca que funde urina e sol e ossos
mesmo o mítico mar
que todos sabem:
é azul-esverdeado de doer
é icônico é belo é referencial
mesmo o decantado mar heróico
que pediu e cumpriu potências
que guarda ouro em leito museu
este épico mar
só pôde ser forma
por autorização da pedra
o ar de cada ilha pode ser doce
se a pedra quiser exalar
a mulher envoluma-se de sensuais
se sua pele é pedra lazuli
a baleia quer retornar
ao cemitério da pedra porosa
o velho ri e muito ejacula
pois sua potência sorve pedra
a areia na pele do bebê
sãos grãos de força-pedra
engana-se
quem só acredita ver
mera pedra instrumental:
os sentidos da alma
foram esculpidos
à pedra
01.09.04
o rio à noite é um haicai
peixes noturnos,
qual é o seu metabolismo
abaixo do espelho frio?
anoréxicas cobras d’água −
no místico escuro
vocês são ninjas?
névoa, tão alva e medieval.
é o teu combustível
que inflama o breu?
sereníssimo buda
que do barco mira o negrume,
responda rápido: como se acende a luz de si mesmo?
em gélido e uterino espaço sideral
vejo-me flutuando em canoa cósmica.
será que matei um johnny walker?
21.09.04
SÓ UM MOMENTO
a parede nem marrom nem laranja
o som da frigideira
à noite um poema incompreensível de Pessoa
eu uso fugaz
esse é o meu narcótico
mais ou menos como uma pedra de crack de haikai
um samba do crioulo out
um não me importo que eu já volto
o conde de montecristo e sua vida tão difícil
o nado errado que dá dor nas costas
o mapa da lua que não servia pra nada
eu me dou minha quota em momentos
momento é coisa das estampas de mim mesmo
aqui-agora e realidade não tem nada a ver com momento
por que momento é muito mais simples e mais legal e: é
19.08.02

AMOR EM REVISTA
em sua pele
algas-póros
e nossa sensação não se sabia
azul ou esverdeada
enquanto eu perdia meu tempo
no espaço teu
e eu precisava tanto
me caber
sem saber que essa era
tarefa ingrata
para quem só vira o amor
uma vez
na foto de um suave casal
neozelandês
naquela velha
national geographic
07.08.02 – 02:46 h
diga
onde está aquele grama
de sorriso
que me pesou tão bem
que revelou pra sempre
seus dentes
e eu fotografei
na atmosfera anos 60
da minha cabeça?
21.09.02
EM DÚVIDA
gesto de ensaboar
movimento de esgrima
cara de macaco
ensaboar à luz solar
é cotidiano da pele-músculo
cortante som da esgrima
é conversa com a atmosfera
macaco descansado à tarde
é pra dar inveja
mas macaco que é macaco
não ensaboa
: é limpo na sujeira
mas macaco que é macaco
não usa esgrima
: é milimétrico descascando banana
eu
que não sou macaco
tenho indigestão com banana
e só vejo árvores da janela do carro
eu
que só aprecio esgrimas
nos jogos olímpicos
sentado diante da tv
eu ¾
para onde vou?
madrugada de 02.02.02
Ailton Bedani, psicólogo clínico de orientação reichiana, mestrando em Psicologia pela USP, Coordenador Geral do Espaço ORG2 - Orgonomia & Orgonoterapia (www.org2.com.br), Coordenador Pedagógico do Programa de Formação em Abordagem Clínica Reichiana.
Além disso, aprende muito lendo poesia e fazendo experimentos com poesias e haicais.
E-mail: abedani@terra.com.br