Café Literário Cronópios





A propaganda que se virou contra si mesma
por José Nêumanne




 

O habitante das falhas subterrâneas - cap.6
por Ana Paula Maia




O habitante das falhas subterrâneas - cap.5
por Ana Paula Maia




Valentina e o laranja intenso
por Marcelo Mirisola




A lição do amarelo
por Álvaro Dias Cuba




O habitante das falhas subterrâneas - cap.4
por Ana Paula Maia




O meu primeiro roubo
por Mirtes Leal




Sobre a calçada
por William Lial




O habitante das falhas subterrâneas - cap.3
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O habitante das falhas subterrâneas - cap.2
por Ana Paula Maia




Conversa & Acerto
por Emília Barbès




O habitante das falhas subterrâneas - cap.1
por Ana Paula Maia




Inverossimius: um conto juvenil
por Roberto Barbato Jr




O jogo da velha. Contraponto de primeiríssima espécie
por Ivone C. Benedetti




A Estrela Solitária
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Céu aberto
por Eduardo Sabino




As mãos mirradas de Deus
por Márcia Barbieri




Das cavalidades
por Tamara Costa




O engraxate: milagre de Natal de uma infância pobre em Itararé
por Silas Corrêa Leite




Mulher na árvore
por Bárbara Lia




Pequenos delitos
por Rodrigo Novaes de Almeida







 
3/5/2005 22:05:00
Sísifo



Por Jeanette Rozsas









Acorda de manhãzinha, pouco mais que madrugada, veste o jeans surrado, camiseta, meias e sapato, vai ao banheiro, urina um jato longo, escova os dentes, barba um dia sim, um dia não, banho também, esguicha bastante desodorante, molha o pente e passa  no cabelo, tira a remela do canto do olho. Enquanto isso, a mulher já levantou e fez o café.

Ele toma café escuro, pouco leite, um pãozinho com manteiga, liga o rádio para saber as notícias, não tem jornal pra ler, custa caro. Além do que, rádio fala, faz companhia. Assopra o café que está quente, não pode chegar atrasado, senão descontam. Enquanto  isso, a mulher já preparou a marmita: arroz, feijão, às vezes um bife com cebola, outras, uma coxa de frango, um pouco de salada.

Se está frio, ele veste a jaqueta de couro mais surrada que o jeans. Pega a marmita, põe na mochila. Enquanto isso, a mulher já separou a passagem da condução, ida e volta, e R$2,00 que é para ele não ir sem dinheiro nenhum.

Ele sai, pega o ônibus, o metrô, chacoalha um tempão, espia os jornais dos outros, às vezes paquera uma moça, às vezes até passa a mão. Olha os anúncios nas paradas, olha a cara dos outros que parecem sempre as mesmas, só que ele não encontra nenhum conhecido. Às vezes viaja em pé, às vezes sentado, de um jeito ou de outro ensaia um cochilo, acorda justo na hora de descer.

Entra na fábrica, apresenta o crachá, pega o cartão na chapeira e bate ponto; vai para o vestiário, veste o macacão, guarda suas coisas. Trabalha no torno há dez, quinze anos, nem lembra mais. É como se tivesse nascido no torno, não gosta nem desgosta, é o que sempre fez e que garante o dinheiro no fim do mês. Podia ser qualquer outra coisa, mas para ele foi no torno que começou, é no torno que continuará, até quando não der mais.

            Toca a sirene. Meio-dia. Ele pára, pega a marmita, senta com os outros no refeitório, trocam algumas palavras que parecem sempre as mesmas: futebol, mulher, carestia. Come o almoço, palita os dentes, toma o café de garrafa térmica que a fábrica oferece, fuma um cigarro (antes eram dois). Procura um canto lá fora, tira um cochilo, acorda justo na hora de voltar pro torno. Trabalha a tarde toda, só pára para o café da tarde e uma ou duas idas ao banheiro.

Às cinco toca a sirene. Ele larga o torno, vai para o vestiário,  guarda o macacão, bota sua roupa de novo, pega suas coisas, resmunga um “até amanhã” genérico, sem se despedir de ninguém em particular. Bate o ponto na saída, guarda o cartão na chapeira, pega  o metrô, chacoalha um tempão, olha as caras dos outros,  não conhece ninguém, às vezes paquera uma moça, quando dá passa a mão, olha os anúncios lá fora, não conhece nenhuma daquelas caras que parecem sempre as mesmas. Desce,  espera o ônibus que demora, quando chega está cheio como sempre, e ele, cansado, olha as caras, olhas os outros, olha os anúncios, olha a moça ao lado mas não paquera nem  passa a mão, sente os olhos pesarem, cochila um pouquinho, acorda com um sobressalto  bem na hora de descer.

            Anda mais de um quilômetro, subida danada aquela, no caminho cumprimenta os mesmos vizinhos que mal conhece, chega em casa. Encontra a mulher na cozinha, entrega a marmita que é pra ela lavar, senta diante da tevê, liga no “Cidade Alerta”. Enquanto isso, a mulher termina a janta, bota a mesa e chama.

Ele vai, come o arroz, o feijão, a carne se tem, se não tem é macarrão, uma banana. Toma água e arrota. Volta para frente da tevê, assiste qualquer coisa, ensaia um cochilo. Enquanto isso, a mulher tira a mesa, lava as panelas, a louça, prepara a mistura para a marmita do dia seguinte. Depois, devagarinho, cutuca o braço dele:

__O, João, vai dormir, vai...

Ele olha para ela, meio surpreso, meio dormindo, levanta, vai para o quarto, tira a roupa de qualquer jeito, joga no chão, deita de cueca, puxa a coberta e dorme. Enquanto isso, a mulher pega a roupa, passa o jeans, lava a camiseta um dia sim um dia não, vê um pouco de novela e vai dormir ao lado dele, que ronca.

Acorda de manhãzinha, pouco mais que madrugada. Veste o jeans e a camiseta que a mulher deixou em cima da cadeira, meias e sapato, vai ao banheiro, urina um jato longo, escova os dentes, barba um dia sim, um dia não, banho também, esguicha bastante desodorante, molha o pente e passa  no cabelo, tira a remela do canto do olho.

 Enquanto isso, a mulher já levantou e fez o café.

Enquanto isso, a vida passa.




Jeanette Roszas é escritora e advogada. Publicou Feito em Silêncio, editora Vertente, e Autobiografia de um crápula.  E-mail: jeanbe@uol.com.br

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