Café Literário Cronópios



Furacão Fred Forest
por Fábio Oliveira Nunes








 

O habitante das falhas subterrâneas - cap.12
por Ana Paula Maia




Plantas que crescem a olho nu
por Wilame Prado




O habitante das falhas subterrâneas - cap.11
por Ana Paula Maia




A fuga
por William Lial




Fragmento da biografia de ilustre personagem
por Marina Bueno Cardoso




O habitante das falhas subterrâneas - cap.10
por Ana Paula Maia




Dedo na garganta
por Waldemir Marques




Moby
por Ronie Von Rosa Martins




Matou a família e foi à roça
por Daniel Matos




O habitante das falhas subterrâneas - cap.9
por Ana Paula Maia




O habitante das falhas subterrâneas - cap.8
por Ana Paula Maia




O peixinho que virou gente
por Antônio Alves Junior







 
6/5/2005 01:05:00
O menino que queria ser tuberculoso



Manuel Bandeira
por Marcelino Freire






Eu queria ser Manuel Bandeira. Eu queria ser um tuberculoso. Desde muito pequeno, viver no isolamento. Combalido. Adoecido. Apostemado. Eu queria uma tristeza aguda. Febriculosa e incurável. Eu queria, é verdade. Isso desde que li um verso que me deixou doente. Mais do que quebrantado já se é, assim como eu, nascido no alto Sertão de Pernambuco.

Explico e sempre repito: eu não nasci, escapei. De dez crianças que, em 1967, nasciam em Sertânia, minha cidade natal, só umas cinco sobreviviam. Coxentas. Infectadas pelo sol. Nasci prematuro, de sete meses. Quase não vinguei. Quase não vim à luz. Acho que a vida é isso. Enxerida. Vem perturbar o nosso último descanso. Lá, no ventre, se me deixassem, eu ficaria para todo o sempre. Mas não deixaram.

 

Quero ser piegas, diacho. Perdoai-me, eternamente.

 

O problema, a bem da verdade, esse que a gente carrega. Pela teimosia dos nossos pais, ou sei lá de quem, ter de enfrentar essa merda. Essa bosta de doença que é a existência. Peço, amigos, a vossa paciência. Essa nervosidade toda é só para falar, aqui, de Manuel Bandeira e de como seus versos me salvaram.

 

Digo me “salvaram” de ter uma vida, assim, cheia de vida, entendem? Vida “pedestalosa” não serve. Manuel Bandeira me ensinou a coisa mais valiosa que um artista pode ensinar. Ensinar, digo, longe de escolas. Ensinar, digo, como um coração pode ensinar. Sinalizar. Bandeira me doutrinou a ser doente. Doutourou-me à menos-valia. E isto é o que me vale. É isso o que me anima até hoje. É na queda (e não quero ser aqui cristão já sendo) que a gente se alavanca, não é? É na tristeza que a gente se enobrece. Morre-se de alegre. Explico: enobrecimento no que há de pulhice. Chaga, desabono. Enobrecimento pelo empobrecimento.

 

Até a última baixeza do ser humano.  

 

Mas, falemos aqui do poema, aquele primeiro do qual falei e o primeiro que li, aos nove anos. A família já havia saído de Sertânia e se retirado para Paulo Afonso, na Bahia. E eis que estamos todos recém-chegados à cidade do Recife. A esperança da minha mãe era que pelo menos os mais novos estudassem. Escapassem de capinar, de irrigar pedras, sei lá. Ela queria a salvação, entendem? Já que estamos aqui, meu filho, é para lutar.

 

Então vamos lá.

 

É aí que um dos meus irmãos, um dia, da escola chegou com um livro bonito, de Português. E comecei a folhear aquele livro. E lá estava um poema chamado “O Bicho”. Enfim, naquele momento em que esse livro chegou a mim, eu já lia algumas coisas. Pela insistência da minha mãe, fomos postos na escola desde cedo. Eu era um menino adiantado para o meio. Tinha cabeça grande e um olho exaltado. De passarinho que sai do ovo. Para dentro da gaiola. Mas sai do ovo. E se depara, deixemos de enrolação, com o poema bandeiriano que diz:


“Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.

 

 

Quando encontrava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava;

Engolia com voracidade.

 

 

O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.”

 

 

Repeti, assoletrando, sem piscar um nervo, sem perder um ponto.

“Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.

 

 

“Detritos”, supus, não eram coisa boa.

 

 

“Quando encontrava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava;

Engolia com voracidade.”

 

 

“Voracidade”, supus, era uma agonia qualquer. O som, dessa palavra, já era um som apressado ao ouvido de um menino agoniado como eu. “Voracidade”. “Voraz”, “Cidade”, Meu Deus, a gente não precisa de um dicionário! Fui indo, vapt!

 

 

“O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.”

 

 

Então pensei: é um dragão. Então pensei: um urso. Um Zé Colméia. Então pensei: um calango. Um porco? Sim, um porco.

Não.

Então pensei: não sei.

Era preciso repetir o poema para saber se o que estava escrito era o que estava dito. Aos meus olhos aflitos. Repito: à minha alma, ali, tomada por um sobressalto. Uma assombração. Por um alumbramento.

 

 

“O bicho, meu Deus, era um homem.”

Um homem? É claro, um homem. Não viu, seu leso? Seu abiscoitado? A rua à sua volta anda cheia. Ontem mesmo, à porta, veio um mendigo. E a sua mãe, de vez em quando, gritava, generosa: “volte outro dia”, “voltar outro dia eu não volto, pensou o mendigo à minha porta. Hoje não tenho. Ficou ali, como se não me ouvisse ou visse. E precisei argumentar que eu não tinha sobra de feijão, nem pão, nem carne. Que não fui ao supermercado. Que a geladeira estava em estado de grades”.

 

Desculpem-me, senhores, esse trecho acima é de um conto meu, retirado do livro “Angu de Sangue”. Entendam a minha artimanha. O menino que queria ser tuberculoso não é o Bandeira, sou eu. Vou cruzar nossas tosses. Assim, juntos até o fim. Impregnados estamos desde àquela manhã em que li “O Bicho”.

 

E foi preciso que o Bandeira me dissesse desse “Bicho”, desse homem no lixo para que eu enxergasse o mundo cuspido à minha cabeceira. Minha família, repito, que marchou de Sertânia a Paulo Afonso e depois de Paulo Afonso ao Recife, veio morar no bairro de Água-Fria, um dos mais carentes do Recife, beirando à cidade de Olinda.

 

Esses homens estavam ali, dando sopa. Como cebolas à porta. Sei lá. Foi preciso o Bandeira me falar diretamente. Numa poesia captada, recebida por mim, àquela hora, pelo som que havia nela. Pela oralidade. Simplicidade, sei lá. Que os estudiosos podem chamar de característica modernista, mas que à minha vista era apenas uma poesia. Uma poesia, no livro do meu irmão, que me assaltou. Deixou-me maravilhado e doente. Reli ali, para meu irmão ouvir comigo. Li para minha mãe, ao pé da cozinha:

 

 

“O bicho meu Deus, era um homem.”

 

 

“É, meu filho, você precisa estudar para não ficar assim, como esse homem”. Estudar, estudar, estudar. Era claro o pensamento mínimo de progresso que a família pedia. E Bandeira, ao longo da leitura que comecei a fazer dele, da leitura das poesias que, desesperadamente, eu comecei a procurar pelos livros de gramática do meu irmão, numa casa em que ninguém lia, o Bandeira me salvou dessa agonia, dessa cobrança de salvação.

 

Que salvação? Queria saber. Que salvação havia para aquele homem que não era um cão, não era um rato? Que salvação há, até hoje em dia? Essa é a ladainha mais antiga que eu ouvia, creio, desde dentro da barriga. Sim, porque descobri que exatamente na fase em que nasci e na fase dos primeiros choros, minha mãe já estava preparando a viagem para a saída do Sertão. Eu estava com dois anos quando deixamos Sertânia. E fui ouvindo as mesmas queixas. Estudar, estudar, estudar. Para ser alguém. Com a ajuda de Jesus Cristo, amém, amém, amém.

 

“Criou-me desde eu menino,

Para arquiteto meu pai.”

 

 

Sou o caçula de uma família de 13 filhos. Nove escaparam. Os outros quatro ficaram por lá, sabe-se lá onde e saravá. Permitam-se uma interpretação livre, psicologicamente, seria? Doentia. Eu fui criado para ser alguém e eu não queria. Até hoje, é difícil ser alguém. Eu queria ser um parasita. Frase mais esquisita! E conhecer Bandeira me confortou. Porque ele foi me dizendo coisas assim, tristes. Coisas assim, nada edificantes. Tudo no Bandeira era antitriunfante. Um homem entregue à sorte. Que, aos 18 anos, recebeu o ultimato. A sentença. Diz ele, numa de suas crônicas:

 

 

“A história da minha adolescência é a história da minha doença. Adoeci aos dezoito anos quando estava fazendo o curso de engenheiro arquiteto da Escola Politécnica de São Paulo. A moléstia não me chegou sorrateiramente, como costuma fazer, com emagrecimento, febrinha, um pouco de tosse, não: caiu sobre mim de supetão e com toda a violência, como uma machadada de Brucutu. Durante meses, fiquei entre a vida e a morte. Tive de abandonar para sempre os estudos. Como consegui com os anos levantar-me desse abismo de padecimentos e tristezas é coisa que me parece a mim e aos que me conheceram então um verdadeiro milagre. Aos trintas e um anos, ao editar o meu primeiro livro de versos, ‘A Cinza das Horas’, era praticamente um inválido. Publicando-o, não tinha de todo a intenção de iniciar uma carreira literária. Aquilo era antes o meu testamento – o testamento da minha adolescência. Mas os estímulos que recebi fizeram-me persistir nessa atividade poética, que eu exercia mais como um simples desabafo dos meus desgostos íntimos, da minha forçada ociosidade. Hoje vivo admirado de ver que essa minha obra de poeta menor – de poeta rigorosamente menor [Bandeira insistia ser o Drummond o poeta maior de todos eles] – tenha podido suscitar tantas simpatias. Conto essas coisas porque a minha dura experiência implica numa lição de otimismo e confiança. Ninguém desanime por grande que seja a pedra no caminho. A do meu parecia intransponível. No entanto saltei-a. Milagre. Pois então isso prova que ainda há milagres.”

 

 

Curioso dizer que eu, ao encontrar a poesia do Bandeira, participei de um milagre. Ele me chamou à doença dele e à grandeza dele. Salvou-me da grandiloqüência. Da demência costumeira. Essa, sim, o pior dos males, que ataca famílias. Acomete os lares.

Bandeira foi a porta que me fisgou para a morte absoluta.

 

A saber, esse poema dele, exatamente chamado de “A Morte Absoluta”:

 

“Morrer.

Morrer de corpo e de alma.

Completamente.

 

 

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,

a exangue máscara de cera,

cercada de flores,

que apodrecerão – felizes! – num dia,

banhada de lágrimas

nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

 

 

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...

A caminho do céu?

Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,

A lembrança de uma sombra

Em nenhum coração, em nenhum pensamento,

Em nenhuma epiderme.

 

 

Morrer tão completamente

Que um dia ao lerem o teu nome num papel

Perguntem: “Quem foi?...”

 

 

Morrer mais completamente ainda

– Sem deixar sequer esse nome.”

 

Meu Deus! Até hoje, juro, eu quero essa morte absoluta. Definitivamente, completamente, funerariamente o Bandeira me jogou na escarradeira. Eu agradeço. Até morrer, agradeceria. Estou aqui, senhores, agradecendo.

 

Foi Bandeira quem me mostrou, por exemplo, a minha primeira namorada. Um Porquinho-da-Índia. O Porquinho-da-Índia, que o Bandeira levava “pra os lugares mais bonitos mais limpinhos” passou também a ser a minha primeira namorada. Embora, “Porquinho” seja um bicho masculino, mas isso não é bom misturar. Melhor pular para a “Maçã” do Bandeira que também passou a ser a minha natureza. Morta.

 

Repito: o Bandeira foi a porta generosa (chamavam Bandeira de João Batista do Modernismo – título inventado por Mário de Andrade. Ou seja, aquele que anunciou o Messias. Apontou o Cordeiro de Deus, essas coisas. Bandeira foi uma das pontas de lança da nossa modernidade literária).

 

Continuando: o Bandeira foi a porta por onde entraram, à minha casa, Drummond. Mário de Andrade. Oswald. Foi pelo Bandeira que eu ouvi falar do João Cabral etc. e tal. O Bandeira foi o meu Modernismo. Virou o meu vício. A minha voz macabra. A minha sombra brasileira. Pernambucana.

 

Alegria imensa foi quando descobri que o poeta era recifense. A saber: nascido Manuel Carneiro (quase cordeiro) de Souza Bandeira Filho em 19 de abril de 1886. Via Bandeira eu nasci também – quando descobri que havia surgido ali, perto de mim, por aquelas cariadas bandas, o poeta da minha infância. Que eu julgava numa distância sem fim.

 

Pois bem: lembro do dia em que fui, pessoalmente, atrás da casa do seu avô, da qual ele fala no poema “Evocação do Recife”:

“Recife da minha infância.

A Rua da União onde eu brincava de chicote-queimado

e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas.

Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê

na ponta do nariz

Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras,

Mexericos, namoros, risadas

A gente brincava no meio da rua”

 

 

E continua:

 


“Rua da União...

Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância

Rua do Sol

(tenho medo que hoje se chame do Dr. Fulano de Tal)

Atrás da casa ficava a rua da Saudade...

Onde se ia fumar escondido...

Do lado de lá era o cais da rua da Aurora...

Onde se ia pescar escondido.

Capiberibe.

- Capibaribe”

 

 

Eta, que festa! Eu conhecia essas ruas, assim, de ouvir o meu irmão falar. De minha mãe comentar sobre o Rio Capibaribe [o popular é Capibaribe, mas o certo é Capiberibe]. Então, maravilha: além de ser tuberculoso, eu poderia ser poeta. Estava tudo ali, em minhas mãos.

 

Por causa do Bandeira, cometi os meus primeiros versos, isso perto dos 10 para 11 anos. E tantos versos outros que fui copiando do Bandeira. Munido, eu, de uma tosse alheia. Incurável! Enquanto meus irmãos pilotavam bolas, eu me trancava no quarto.

 

Nesse período, eu já havia conseguido comprar meu primeiro livro do Bandeira, as poesias reunidas do “Estrela da Vida Inteira”. E nele tomei contato, além de seus versos fúnebres, com um outro tipo de morte. Um sentimento, sei lá, que fica adormecido dentro da gente e a que a gente precisa cuidar. Ressuscitar. Dizer, externar. Como “O Impossível Carinho”, a saber:


“Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo.

Quero apenas contar-te a minha ternura.

Ah! Se em troca de tanta felicidade que me dás

Eu te pudesse repor

- Eu te soubesse repor –

No coração despedaçado

As mais puras alegrias da tua infância”.

 

 

Uma impossibilidade, sempre. Uma alma ferida na beleza. Não sei o que quer dizer isso mas é isso o que quero dizer: “uma alma ferida na beleza”. À luz acesa do sofrimento. O sofrimento no que há de mais infantil no sofrimento, não sei. As dores mais miúdas. Gosto do Bandeira, vejam, quando ele, logo ele, esperando sempiternamente a “indesejada das gentes”, sai por aí, envivecendo tudo que está morto à sua frente. Aparentemente. Morto até ele “tocar”, entendem? Um exemplo é, pois, o poema chamado “Gesso”:

 

 

“Esta minha estatuazinha de gesso, quando nova

– O gesso muito branco, as linhas muito puras –

Mal sugeria imagem de vida

(embora a figura chorasse).

 

 

Há muitos anos tenho-a comigo.

O tempo envelheceu-a, carcomeu-a, manchou-a de pátina

amarelo-suja.

 

 

Os meus olhos de tanto a olharem,

Impregnaram-na da minha humanidade irônica de tísico.

 

 

Um dia mão estúpida

Inadvertidamente a derrubou e partiu.

Então ajoelhei com raiva, recolhi aqueles tristes fragmentos,

Recompus a figurinha que chorava.

E o tempo sobre as feridas escureceu ainda mais o sujo

mordente de pátina...

 

 

Hoje este gessozinho comercial

É tocante e vive, e me fez agora refletir

Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu.”

 

Essa melancolia me maravilha. Repito: no livro “Estrela da Vida Inteira” fui recolhendo outros brilhos, para não ficar só no belo “Bicho”. Encontrei “Belo Belo”, o “Madrigal Melancólico”.

 

Ficaria eu aqui, lembrando de poemas outros até a noite eterna, não é o caso. Quero ainda contar do meu passeio à casa do poeta.

 

Tanto pedi que fui, com um irmão, à Rua da União. Havia, e até hoje ainda há, um busto da cabeça do Bandeira à porta. E vi fotos. E vi janelas.

 

O Espaço Pasárgada, como foi batizado, virou, sempre que podia, a minha moradia. Lá, fiz fotos minhas, quando estava com meus 18 anos. Conseguimos uma das salas e uma amiga fotógrafa, Carla Asfora, registrou-me ao sol. Nosso! Fez fotos bem legais, à luz natural.

 

No Pasárgada [palavra que o poeta viu pela primeira vez aos 16 anos, em um autor grego. "Vou-me Embora pra Pasárgada" é um dos seus poemas mais conhecidos e o que demorou mais tempo para ser feito], aconteciam as reuniões de um grupo de poesia do qual eu participava, chamado “Poetas Humanos”. Lá, ensaiei peças de teatro. A saber: na mesma época em que conheci o Bandeira, entrei para aulas de teatro. E, paralelo aos meus primeiros e horríveis versos, escrevi minhas primeiras e horríveis peças de teatro.

 

Eu estava decidido: poderia fazer teatro, como de fato fiz durante uns anos. Trabalhar em banco, como de fato trabalhei durante uns anos.

 

Poderia vir a São Paulo, como de fato vim no ano de 1991. Poderia ter tudo, sei lá, enfrentar outras paisagens, pastagens e savará, mas não poderia, nunca, esquecer do “Poema do Beco”, a saber:

“Que importa a paisagem, a Glória, a baía,

 a linha do horizonte.

 – O que vejo é o beco.”

 

 

Bandeira, e sua poesia direta, sua aproximação com a prosa, creio. Bandeira com o olho que tinha para os “pequeninos nadas”, como ele mesmo dizia de que era feita a sua poesia. Bandeira com essa sua humanidade, ironia, paixão, nostalgia, sei lá, ele me deixou viciado nesse tipo de procura.

 

Toda vez que leio qualquer artista, vejo qualquer pintura, ouço qualquer partitura, eu procuro o que há de beco, o que há de morte, o que há de revelação nessa coisa toda.

 

Até para os seus pares de movimento, há quem afirme que Bandeira foi o porta-voz [lembremos, mais uma vez, do seu codinome, o apóstolo João Batista], foi o estandarte tímido à frente, com seu olhar dentuço, sua poesia que ele mesmo cansou de chamar de uma poesia menor. O que leva a crer que um turberculoso não sabe quando é um gênio turbeculoso.

 

E, confesso, foi difícil encontrar em um outro poeta uma doença tão instigante. Por mais que eu soubesse dos muitos que morreram pigarreando, bocarreando sangue. Bandeira foi o único e sempre será.

 

É verdade que encontrei no Drummond uma parceira forte para a minha sorte. Mas ainda havia uma coisa fria em muito da poesia drummondiana. E o que dirá do genial, mas ainda mais frio, Mário de Andrade? Encontrei, mais tarde, no Manoel de Barros, poeta mato-grossense, uma poesia que eu gosto de ver, direta, sem pomposidades.

 

E aqui paro para dizer um pouco de esse outro Manoel, o de Barros. Que escreveu:

 

“Todas as coisas cujos valores poder ser

disputados no cuspe a distância

servem para a poesia

O homem que tem um pente

e uma árvore

serve para poesia.

Tudo aquilo que a nossa

Civilização rejeita, pisa e mija em cima

serve para a poesia.

O que é bom para o lixo é bom para a poesia”.

Conheci esse Manoel, velho mato-grossense, do Pantanal – de quem sou amigo hoje, quem visitei, um dia, em dia de Carnaval – quando eu devia ter uns 18 anos. Meu Cristo!

De novo o lixo e o aspecto direto e a voz sonora e o ritmo pelo ritmo. Que vai nos levando, entendem? Sem frescuras.

“Muita coisa de poderia fazer em favor da poesia.

1. Esfregar pedras na paisagem.

2. Perguntar distraído: o que há de você na água?

3. Perder a inteligência das coisas para vê-las.”


 

Perder a inteligência. É isso. Eu tenho mesmo muita dificuldade para um raciocínio comprido, lógico. Quando disse que iria falar, aqui, do Bandeira sob uma ótica misturada, uma contaminação entre mim e ele, é porque aqui não tenho condições de falar de uma outra maneira.

Há livros mais graúdos sobre o tema, sobre os movimentos que precederam o Modernismo. Há teses e tratados sobre a poesia do Bandeira. Davi Arrigucci Jr. escreveu um ótimo chamado “Humildade, Paixão e Morte”, pela Companhia das Letras. Há o “Testamento de Pasárgada”, ensaio crítico assinado pelo Ivan Junqueira.

E o maravilhoso “Itinerário de Pasárgada”, onde o próprio poeta faz, digamos, a primeira "biografia literária" do Brasil, comentando cada poema, cada alumbramento, discorrendo sobre uma vida inteira que poderia ter sido e não foi.

Nesse meu texto, pois, eu vou aqui costurando sensações. Dizendo de minha leitura bem particular, trirepito. Acho que só assim que eu posso ajudar, sei lá, a dar um testemunho mais geral. Mas vivo. Mas passional. Minha contribuição é física neste momento. Ou o que é melhor: tísica neste momento. Contaminaremos juntos.

Bem, continuemos.

Quando citei, mais à rabeira, versos do Manoel de Barros, por exemplo, eu quis eleger o que para mim é a boa poesia. Repito, no meu entender: a poesia, aquela que vem, diz e vai embora.

Poesia que não se demora, sempre digo.

Poesia que uma criança, como eu, lá nos cafundós de Pernambuco, foi capaz de ouvir. E de se conduzir por ela. Até hoje, gosto da poesia mais visceral. Lírica, mas não comedida.

Um exemplo que me vem, no momento, de uma poesia aparentemente difícil mas que ganha pelo há de som e maldição nela e que eu, adolescente que era, compreendi perfeitamente, é a poesia do Augusto dos Anjos.

Inclusive, Augusto fez mais sucesso popular à época do que sucesso crítico. Enfim. Gosto da poesia que é matemática até, mas sem ser calculada. Friamente calculada. O laboratório da poesia não pode aparecer assim, à nossa vista. O chato dos parnasianos era isso, é essa frieza tabular, sei lá. É preciso que se diga, aqui, em parênteses, que regra assim não existe para a arte. Eu apenas estou construindo, com vocês, a minha seletiva natural. O meu inventário delirante. Perdão, mas outra expressão de que gosto, eta porra! “Inventário delirante”. Inventada agora, nesse instante.

E o João Cabral de Melo Neto nessa história? Onde fica? Matemático, como ele bem dizia. Sem a pele melodramática dos primeiros versos do Bandeira. Mas de uma humanidade canina. Virada. O que me arrastou, sobretudo para a poesia do Bandeira, e aqui para a poesia do Cabral, foi a humanidade. O homem no lixo, à beira do Capibaribe.

“O Cão sem Plumas”, por exemplo, é uma das coisas mais extraordinárias que já li. Poeisa nada bandeiriana em sua forma, mas "salvadora" igualmente. Peguei alguns litros de febre quando me debrucei com uma poesia assim, enfim:

         “A cidade é passada pelo rio

 

         como uma rua

 

         é passada  por um cachorro;

 

         uma fruta

 

         por uma espada.

 

 

         O rio ora lembrava

 

         a língua mansa de um cão,

 

         ora o ventre triste de um cão,

 

         ora o outro rio

 

         de escuro pano sujo

 

         dos olhos de um cão.

 

 

         Aquele rio

 

         era como um cão sem plumas

 

         Nada sabia da chuva azul,

 

         da fonte cor-de-rosa”

 

 

         E por aí vai o Cabral:

 

        

 

         “Sabia dos caranguejos

 

         de lodo e ferrugem.

 

         Sabia da lama

 

         Como de uma mucosa.

 

         Devia saber dos polvos.

 

         Sabia seguramente

 

         da mulher febril que habita as ostras.

 

 

         Aquele rio

 

         Jamais se abre aos peixes,

 

         Ao brilho,

 

         À inquietação de facas

 

         que há nos peixes.

 

         Jamais se abre em peixes.

 

 

         Abre-se em flores

 

         pobres e negras

 

         como negros.

 

         Abre-se numa flora

 

         suja e mais mendiga

 

         como são os mendigos negros”.

 

Eta danado! Que coisa bonita! Explico: se eu exalto – nesse texto demorado, ensaio improvisado e saravá –, se eu exalto na poesia do Bandeira e na poesia do Cabral e na do Drumonnd e na do Manoel de Barros etc. e tal aquilo que há de mais social, aquilo que há de mais ligado aos excluídos, de todos os tipos, talvez seja porque eu tenha lido primeiro “O Bicho” do Manuel.

Mas é, sobretudo, porque creio no artista “social”. Não no sentido panfletário, mas um artista com os olhos para o homem, entendem? Para o humano.

O humano, repito, presente até em estátua de gesso. Até em cacto. Em porquinho indiano. Até em rio Pernambuco. Em cu de carranca. Não me comovo com uma literatura ou uma poesia apática. Há quem seja frígido. Que construa uma narrativa menos derramada. Mas eu fico ao lado dos doidos e doídos. Dos que fazem parte do meu "Inventário delirante", do qual falei, sei lá. De quem espera pela morte, dia a dia, mas a morte não quer chegar.

 

É isso o que eu, até hoje – mergulhado nos versos do Bandeira – tento fazer com a minha literatura. Ainda incipiente, mas que procura esse fio de verdade. Há quem diga que o conto “Muribeca”, que abre o meu livro “Angu de Sangue”, é a volta do lixo bandeiriano. Uma memória ritmica, sei lá. Que há no que eu escrevo. Um legado cabralino, drummondiano... Pode ser, não sei.

 

Creio, apenas, que todos esses artistas e vários outros me contaminaram feio. E é ao lado deles que – perdoai, mais uma vez, a pieguice – eu hei de morrer.

 

Não sem antes seguir o exemplo do meu poeta maior – não menor: Manuel Bandeira, que desde os 18 anos teve a sua morte decretada, viveu "provisoriamente" até os 82 anos. Morreu num "quarto pobre de solteirão solitário" no ano de 1968, no Rio de Janeiro.

 

Digo, explico, do exemplo artístico, verdadeiro. Porque a vida, essa não tem cura. Essa não tem mesmo jeito.  

 

 




[Palestra feita no projeto Tertúlia, na Livraria da Vila, no dia 2 de maio de 2005. Esse texto inaugura a coluna "Ensaios de Improviso", em que Marcelino Freire, aqui no Cronópios, apresentará, sempre de maneira solta e bem-humorada, alguns escritores da literatura brasileira]







Marcelino Freire nasceu em 20 de março de 1967 na cidade de Sertânia, Sertão de Pernambuco. Vive em São Paulo desde 1991. É autor de EraOdito (Aforismos, 2ª edição, 2002), Angu de Sangue (Contos, 2000) e BaléRalé (Contos, 2003) publicados pela Ateliê Editorial. Em 2002, idealizou e editou a Coleção 5 Minutinhos, inaugurando com ela o selo eraOdito editOra. É um dos editores da PS:SP, revista de prosa lançada em maio de 2003, e um dos contistas em destaque nas antologias Geração 90 (2001) e Os Transgressores (2003), publicadas pela Boitempo. Blog: www.eraodito.blogspot.com  E-mail: mjfreire@uol.com.br 

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