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25/4/2005 20:38:00
O Brasil que Caminha Com Suas Próprias Pernas



Por José Aloise Bahia







Notícia como esta tem que ser divulgada para o Brasil inteiro. De preferência, por meio de uma crônica, narrativa literária bem brasileira. E, também, mineira, uai! Pois bem, num exercício de inteligência e coragem, caminhando com as próprias pernas, somente um borracheiro para nos trazer um pouco de esperança coletiva. No bom e magnífico sentido do termo: acompanham a novidade, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado, Rubem Alves, Cervantes, Saramago, Machado de Assis, Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa e muita gente boa. Conforme informações, até Shakespeare, Nabokov – desconfio que o Sebastião Nunes também esteja lá -, edições antigas e recentes de jornais e revistas já fazem parte das novas prateleiras. Ao lado, um amplo quadro-negro repleto de mensagens literárias e pensamentos contemporâneos retirados dos mais de 2.500 livros e publicações recebidas. Pasmem: tudo isto num cômodo apertado de um estabelecimento comercial, bem perto de Belo horizonte.

 

Uma biblioteca dentro de uma borracharia na pequena Sabará – para quem não sabe, a cidade onde mora o Tião Nunes -, Estado de Minas Gerais. Vou repetir: uma biblioteca dentro de uma borracharia. Numa lição de persistência e visão de cidadania, comunhão e empresarial, Marcos Túlio Damascena, 26 anos, há mais ou menos dois anos convenceu o pai, também borracheiro, que os livros e os jornais são importantes no local de trabalho. Onde, antigamente só se viam clientes apressados em seus automóveis com pneus furados, atualmente, podemos observar também as presenças de adolescentes, estudantes e até universitários da graduação em busca dos volumes que necessitam. Uma idéia genial. Exemplar. Num país, onde os livros custam caro, e existem muito pouco incentivos para a leitura. Pegando carona nesta informação, se eu fosse o presidente da república criaria o Ministério do Livro. Não sei o que ele pensa sobre esta sugestão, mas não custa dar uma cutucada, não é mesmo...

 

Marcos Túlio resolveu compartilhar o prazer da leitura com a comunidade. O resultado deste projeto germinou. A clientela aumentou. E, a cada dia o acervo aumenta em quantidade e qualidade. Segundo alguns moradores, assinantes regulares de jornais mineiros, após as suas leituras matutinas, passam na borracharia e deixam as edições para os leitores diversos. O negócio tomou corpo. Existem até cadeiras cativas e filas para ler os jornais, revistas e livros, sejam romances, de contos ou poesia - como eu torço para ter algum livro do Tião por lá.  Os mais espertos levam os seus bancos e tamboretes. Virou um hábito para muitos freqüentar a borracharia.






Borrachalioteca -
O grande charme do estabelecimento comercial são as mensagens do dia. Isto mesmo! Mensagem que são escritas em letras de forma, e colocadas no quadro-negro. São mensagens variadas, retiradas de livros, revistas e jornais. Na “Borrachalioteca”, como o pessoal da cidade batizou o espaço, tem até gibis, que faz a festa da meninada. Um outro detalhe chama a atenção neste projeto comunitário: os empréstimos de livros não são cobrados. Marcos Túlio só anota o nome, a data e o telefone dos leitores. Quanto às revistas, jornais e impressos, as leituras têm que ser feitas no local.

 

O fruto deste esforço: foi graças aos estudos e leituras a la “Borrachalioteca” que Marcos Túlio cultivou com afinco o seu desejo e conseguiu agora em 2005 entrar para a Faculdade de Letras de Sabará. A ágil diretoria da escola tão logo soube do projeto, e da notícia que ele tinha passado no vestibular, concedeu-lhe uma bolsa de estudos. O fruto do fruto deste esforço: a experiência fecunda está rendendo a Marcos Túlio palestras e presenças em programas de rádio e TV em Belo Horizonte e toda região metropolitana. A última delas foi na Faculdade de Pedagogia da UFMG.

 

Uma experiência de vida promissora. Vocação e trabalho que nos aponta uma verdade bem verdadeira: o Brasil legítimo caminha com as próprias pernas. Alguns até me taxaram de idealista descomedido, mas defendo com unhas, dentes e alguns berros: “eis o exercício digno, firme e arrojado da cidadania genuína”. A passos firmes e largos, Marcos Túlio dá um exemplo para todos. Principalmente aos políticos e as suas faltas de decisões arrojadas e imaginativas. Coisa rara no Distrito Federal e capitais dos Estados. 

 

Se eu fosse o ministro da cultural convidaria o Marcos Túlio para uma visita à Brasília. Creio que o Legislativo, o Executivo e o Judiciário – em todos os seus níveis e infinitos órgãos nepotistas - têm muito a aprender com este mineiro. Pra finalizar, uma reiteração e constatação final: eis uma lição de cidadania, comunhão, vontade e esperança que parece nos jogar na cara a todo o momento, aquilo que a minha bisavó falava há tempos: “- Zé, o Brasil ainda tem jeito...”.



 

ps1: tô esquecendo de duas coisas. Já que o assunto acima envolve um sabarense, e sem querer puxar a sardinha para as bandas de cá, eu recomendo aos confrades o ótimo Dez Conversas: diálogos com poetas contemporâneos, edição bilíngüe português/espanhol, livro de autoria do colega Fabrício Marques (Gutenberg Editora, Belo Horizonte, 2004). O Tião tá lá. Numa das melhores entrevistas do catatau ao lado de outra: a do baiano Antônio Risério. Vale conferir...    

 

ps2: novamente o Tião (Bastião danado e sua notável “estética da provocação”), e, com todo o respeito, bem que ele poderia mandar notícias fresquinhas para saber como anda o desenvolvimento do projeto do seu conterrâneo. Afinal, acontecimentos como este, a “Borrachalioteca”, devem ser considerados, acompanhados e fomentados. Fica aí a sugestão: Tião, ocê topa a idéia!? Se sim, aguardamos as novidades. Se não, let it be...   

 

 

 

José Aloise Bahia (Belo Horizonte/MG). Jornalista e escritor. Pós-graduado em jornalismo contemporâneo. Autor de Pavios Curtos (anomelivros, 2004). josealoise@aol.com

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