Café Literário Cronópios











Pássaro
por Vera do Val




 

Monólogo da velha apresentadora
por Marcelo Mirisola




Maria Suástica
por Tetê Martins




Atos atávicos
por Ercilene Vita




SCAR
por Milena Martins




Último encontro
por Paulo Mohylovski




Poeira branca
por Cláudio Feldman




Aprendizado
por Cecília Prada




A morte e o sapateiro
por Márcia Barbieri




O moço tecelão
por Cláudio Costa




A memória dos seres inanimados
por Severo Brudzinski




O aparelho
por Letícia Palmeira




Für Elise com bolachas
por Aleksandro Costa







 
9/4/2006 23:05:00
Santa Ceia



Por Leila Guenther

 

 

         Quando entrou, o cachorro, que dormia aos pés da poltrona, mexeu o rabo e dirigiu-se a ele, devagar, com uma das patas pisando o ar. As mulheres à mesa levantaram os olhos com discrição. A conversa interrompeu-se, parando no meio de uma frase. Ele fitou a mesa posta para o almoço de domingo, com a fartura pobre de comida, a macarronada, a salada de maionese, o pão, a garrafa de refrigerante pela metade, e adivinhou o lugar que lhe era reservado, à cabeceira, com o prato e o copo emborcados para baixo, em paciente espera. Uma das filhas serviu-lhe a bebida enquanto a outra dispunha os alimentos em seu prato, sob a aprovação muda da mãe. Esta puxou a cadeira e o fez se sentar. Tomou um guardanapo de papel e o depositou ao lado da mão direita dele. O restante da refeição transcorreu em silêncio, quebrado apenas à hora da sobremesa:

– Fiz aquele doce de abóbora de que gosta. Quer um pedaço?

O homem fez que sim com a cabeça, enquanto ela o servia, desculpando-se:

– Não ficou bom, acho que precisava ter cozinhado mais...

– Está bom – ele disse. Só então lançou a vista para adiante da mesa e reparou na parede amarelada, lascando em alguns pedaços e salpicada de mofo em outros, que outrora ele mesmo pintara com tinta branca. Tudo tinha mudado, embora insistisse em continuar o mesmo: os cabelos de sua esposa tornaram-se mais grisalhos, as filhas que ali ficaram em idade de casar continuavam sem casar, já passada a idade, o cachorro agora manquejava, a casa ruía. Ele próprio não era mais aquele de um certo almoço de domingo, quando os seus ainda costumavam fazer a sesta que se permitiam apenas nos fins de semana.

Pôs mais uma colherada do doce na boca. Já conhecia seu sabor de longa data e, no entanto, era como se o provasse pela primeira vez: os alimentos resistiam.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Leila Guenther nasceu em 1976 e mora em Campinas. Alguns de seus contos foram publicados nas revistas Ciência e Cultura e Jandira, no site Germina literatura e no jornal Rascunho. Prepara a publicação de seu primeiro livro, O vôo noturno das galinhas. E-mail: leilafranchetti@gmail.com

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