Café Literário Cronópios











Mentes simples e complexas
por Affonso Romano de Sant'Anna






 

Monólogo da velha apresentadora
por Marcelo Mirisola




Maria Suástica
por Tetê Martins




Atos atávicos
por Ercilene Vita




SCAR
por Milena Martins




Último encontro
por Paulo Mohylovski




Poeira branca
por Cláudio Feldman




Aprendizado
por Cecília Prada




A morte e o sapateiro
por Márcia Barbieri




O moço tecelão
por Cláudio Costa




A memória dos seres inanimados
por Severo Brudzinski




O aparelho
por Letícia Palmeira




Für Elise com bolachas
por Aleksandro Costa







 
1/5/2005 10:26:00
O outro



Por Ray Silveira



Não pode ser verdade. Devo estar dormindo e tendo um pesadelo. Acho que vou entrar em pânico se não despertar agora. Não! Não estou dormindo. Sei que não estou dormindo. Percebo tudo. Não há nada que não seja real. Está acontecendo algo muito estranho: aquele sujeito andando ao meu lado. É igual a mim em tudo. Uma espécie de clone. O mesmo corpo, a mesma fisionomia, os mesmos gestos. Caminha como caminho, veste a mesma roupa, pára quando paro, acelera o passo quando também acelero. Não resta a menor dúvida. Aquele sujeito sou eu!

 

Quando era adolescente, costumava acontecer um fenômeno muito estranho. Lembro quando ocorreu pela primeira vez. Caminhava sozinho em direção ao lugar de um evento muito importante que estava acontecendo na cidade. Por isso nunca vou esquecer. A estranheza do fenômeno me apavorava tanto a ponto de evitar comentar com alguém. Era difícil explicar o que sentia. Uma espécie de cisão virtual da personalidade.  A partir daí foi-se tornando cada vez mais freqüente. Sentia-me, de fato, um par de indivíduos e a “alucinação” parecia tão verdadeira a ponto de me apavorar. Mas isto só sucedia num ambiente solitário - um banheiro, por exemplo.  A angústia era intolerável. Tinha de sair dali imediatamente, pois temia perder a razão. Ao deparar com outra pessoa, tudo desaparecia.

 

Evitava ficar sozinho. A simples idéia de ter de me isolar já provocava ansiedade. Não se tratava, entretanto, de nenhuma claustrofobia, senão de um terror insuportável de mim mesmo. Nada disto, contudo, fazia-me ver em outro corpo. Não havia a projeção física da minha imagem como acontece agora. Não sei se irei saber explicar a diferença. Naquele tempo, eu me sentia outra pessoa, mas não me via noutra pessoa. Além disso, como já declarei, só acontecia quando me encontrava sozinho. Ao completar mais ou menos dezoito anos, tudo desapareceu.

 

O que está acontecendo é diferente. Não se trata de nada subjetivo. Está sucedendo no meio da rua. Diante da multidão. Não sinto que “pareço dois” como naquela época. Sou, de fato, dois.  Porque me vejo caminhando ao meu lado.  Há um desejo compulsivo de falar comigo mesmo, mas, ao mesmo tempo, sinto medo. Este conflito terrível me angustia ainda mais. Não sei o que poderia acontecer, pois seria uma experiência inimaginável. E toda experiência estranha e, principalmente, absurda como aquela, infunde terror.

 

É curioso como os transeuntes nada percebem. Será que pensam que se trata de gêmeos idênticos? Por outro lado, pode ser também que a agitação, o burburinho, a pressa com que caminham não permitam que aquilo lhes chame atenção. Mas os outros que estão parados, observando os passantes? Com certeza é isso: pensam que “somos” gêmeos. Cogito, porém, que mesmo se achassem que “fôssemos” gêmeos idênticos seria uma curiosidade e não “deixaríamos” de atrair o interesse popular. No entanto, ninguém parece prestar o menor reparo em “nós dois”. Todos permanecem indiferentes. 

 

Estaco, de repente, diante de uma vitrine e... O que é mesmo aquilo, meu Deus? Meu sósia? Não, não é meu sósia, sou eu mesmo... E “eu” também paro. Penso que estou ficando louco. É isso mesmo, estou ficando, ou já estou alienado. Desorientado no tempo e no espaço. Contudo, sei que os loucos não percebem a realidade objetiva. E nada disso acontece comigo. Sei onde estou, sei a data e a hora em que isto está ocorrendo. Lembro tudo a meu respeito. Excetuando aquele fenômeno, não sinto nada esquisito: reconheço os amigos e familiares, aspectos técnicos ligados à profissão, o passado e o presente. Sei que sou casado, que tenho três filhos, o nome, a idade e o sexo de cada um. De repente, tenho uma idéia. Por que não pensei nisso há mais tempo? Saco o telefone celular. O estranho faz o mesmo. Ligo o número da minha casa e minha mulher atende:

 

- Quem?

- Sou eu...

- ...

- Sim sou eu.

- ...

- Qual engraçadinho qual nada, criatura? Sou eu mesmo.

- ...

- Como não me conhece? Estás ficando maluca?

 

Minha mulher desligou, bruscamente, o telefone depois de dizer que não sabe quem eu sou.

 





 

Raymundo Silveira é escritor e colaborador do Cronópios.
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