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3/9/2006 16:58:00
Os mortos não choram...



Por Nazarethe Fonseca


 

        Sua beleza? A beleza de um homem, não a de um mito, ou herói, que além de corajoso deve ser belo. Mas a beleza, a dama, que a todos atrai estava ali em seu rosto e corpo, até em sua alma leviana. Atraindo a todas que pudesse levar para o leito. A virilidade estava agora adormecida debaixo do lençol, mas bastava tocar-lhe a face para ela despertar e exigir satisfação.

        Poderia viver sem desejá-lo?__Não.__Será que conseguiria deitar-se sem ter sua presença na cama, entre os lençóis? Dar-me a outro?__Não.__E também não conseguiria viver com a certeza de dividi-lo com outras. Mas talvez ele fosse fiel? E por que não? Muitos conseguem... Mas ele não conseguiria.

        Entregar-lhe a alma, o corpo puro como presente maior não bastaria, tinha de ter outras! O gozo oferecido com amor não lhe bastaria, seu sacrifício de sangue, carne e desejo nada valeriam, era um caçador. Logo outra presa surgiria para que a espreitasse e devorasse. Como ela mesma o foi. Como um grande tigre que espreita o cervo, ele a caçou. Vigiava seus passos, seus movimentos pela cidade. Descobria-lhe o gosto, e tentava chamar sua atenção. E quando conseguiu a prendeu pelo pescoço. Ele estava agarrado a ela, dentro de sua mente e olhos enchendo-a de desejo e fogo. Tentando-a como um demônio... Diante dele, ficava indefesa, alheia a verdade tão obvia, era somente um desafio, uma tentação para um tigre.

       Ouvia conselhos e historias fantásticas sobre o numero de mulheres, que já haviam sido por eles conquistadas. Uma grande lista e nela até mesmo senhoras casadas. O que importava uma aliança para o desejo? Nada! Pois as tirava de suas donas com os dentes para depois as amá-las com luxuria. Ele guardava a aliança na gaveta, tirava da vista daqueles que traem com o coração pesado. E pela manhã era tudo que ele podia devolver a elas, pois a moral já havia lhes roubado.

       Corações pelos muros com iniciais diziam o quanto ele era desejado e temido. Cicatrizes? Algum afinal um tigre precisa defender sua pele e território. Um lábio cortado, que todas queriam beijar para sara, um olho roxo que todas tinha um bife para colocar.
      
Belas, vividas, liberadas, prostitutas, ele tinha a todas... Falava-se até mesmo em uma professora... A mulher do prefeito!
      
Mas porque ela? Uma boneca de pano, de cabelo de lã, com laços de fita? Havia bonecas de louça e de olhos de vidro, bonecas com bocas mais vermelhas. Entretanto, até mesmo uma boneca de pano tem seus sonhos, e foi o que ela fez, sonhou alto. Seus encantos o manteriam ao seu lado, o que aconteceria quando a luz do dia ele pudesse ver seus poucos e pobre encantos?! Afinal, era só uma boneca de pano sem graça, com lábios bordados, olhos de botão. Desejou ardentemente diante do espelho saber mais. Desejou ter mais aqui e ali! Espelho de aço, espelho frio e sem alma que revela verdades cruéis!

       Olhou o quarto e ficou imaginando quantas mulheres não haveriam despertado ali! A cama... Falaria se pudesse, mas como mulher, ela lhe seria fiel, guardando todos os seus segredos, todos os pecados, toda a luxuria naquela cama concebida. E nua andando pelo quarto como uma pintura de... Alva e lânguida, ela experimentou de liberdade. Sentiu-se fêmea e poderosa como qualquer outra que por ali passou, mas seu devaneio virou fúria ao perceber que somente seria mais uma.

       Sentiu vergonha de sua nudez, do corpo ainda desabrochando e cobriu-se com o lençol como um fantasma e chorou lágrimas amargas, contidas no soluço magoado. Aproximou-se do leito, não se cansava de fitá-lo, de perceber a cada novo minuto um traço diferente, uma nova beleza. Não conseguia seduzi-lo além da manhã que chegava suave...

       Tocou-lhe o rosto, a respiração alterou-se. Ele a tomou puxando-a para o leito quente. Deitada ao seu lado, sentiu seu braço envolvê-la na cama. Músculos e pelos deslizando pela alvura de seu corpo, como uma serpente que a envolvia pronta a fechar-se sobre ela num abraço mortal. O medo pode ser uma sensação maravilhosa se misturado ao desejo. Ela não dormia, mesmo ali aconchegada a ele, não conseguia, tinha a mente tomada por fantasmas que a rodeavam murmurando conspirações e mentiras. O olhava bem de perto tentando imaginar com quem sonhava. O que o fazia ter aquela doce expressão na face? Tocou-lhe o peito e ouviu o coração aos pulos. Furiosa, enciumada, tentou fugir do abraço, da cama, mas foi detida por suas mãos. Presa como um pássaro nas mãos de um menino, viu-se aniquilada por seus beijos e carícias. Ele dormia, e no delírio da paixão a amou num devaneio louco. Silenciou seus protestos e queixas, fazendo valer o desejo do dominador. Livre da consciência que delega tantos moralismo e conceitos, ele mostrou-se um grande amante e até a satisfez bem mais que a primeira vez. Meio que despertou no gozo e disse um nome...  

       A manhã veio, o sol também e ele ainda dormia.

       Um som estranho repetia-se dentro do quarto iluminado pelo primeiro e puro raio de sol. Ele banhava o vestido simples de Bianca, que fora esquecido no chão diante de sua entrega, seus sapatos miúdos.

       No leito a mão de Marcos buscava o corpo da mulher amada, não o corpo de uma qualquer. Buscava suas formas inocentes, que ele fora o primeiro e seria o único de agora em diante a tocar. De olhos fechados podia sentir seu cheiro doce pelos lençóis, no seu corpo. Debaixo do travesseiro a aliança de casamento a esperava. Estava cansado de aventuras, tudo que queria era a paz que Bianca lhe oferecia, seu sorriso puro, o amor que lhe ofereceu sem esperanças. O leito estava vazio, mas a visão de Marcos estava cheia com Bianca. Abriu os olhos e disse seu nome...

       Ali! A sua frente o corpo da jovem nu, balançava na ponta do lençol.

       Olhos fechados, boca cerrada, de quem se entrega à morte sem luta, os lábios uma violeta aveludada. No espelho a mensagem suicida escrita com o batom, que não lhe pertencia. Um objeto caro, esquecido por uma das aventuras de seu grande amor. Na mensagem a agonia, o desespero, o ciúme, o medo de quem teme perder o homem amado para a tentação.

 

  "Assim sempre serei a única, pois os mortos não choram a dor da traição”.

                                                            
                                                                                         
Bianca

 


Um vampiro desperta em São Luís, num casarão abandonado, e apaixona-se pela restauradora do imóvel. A partir daí a história se desenvolve num vaivém amoroso. Intrigas, falsidade, poder, vingança; tudo em nome do amor. Os personagens centrais são fortes, decididos, seja para o bem ou para o mal, dando o toque de suspense e de reviravolta nas tramas. A autora narra os encontros e desencontros de Jan Kmam e Kara Ramos através dos séculos. As surpresas e as ironias da vida. O amor e o ódio caminhando juntos. A tentativa de Kara de fugir de um destino já traçado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 





 

 

 

 

Nazarethe Fonseca nasceu em São Luís, Maranhão, em 1973. Cresceu em meio às constantes crises de asma, que a mantinham desperta boa parte da noite. Seu divertimento durante as longas horas que passava convalescendo eram os livros infantis, as revistas em quadrinhos e a TV, que de madrugada exibia filmes de terror, sendo os de vampiro, seus preferidos. Começou a escrever aos 15 anos, após um sonho, que se tornou seu primeiro livro, uma trama policial. Aborrecida, queimou-o abandonando o assunto até os 21 anos. Quando voltou a escrever foi movida por duas datas que não saíam de sua mente. E desde então continua escrevendo todos os dias. Nazarethe mora atualmente em Natal, Rio Grande do Norte.
E-mails:
nazarethefonseca@oi.com.br e nazarethe8@yhaoo.com.br

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