16/12/2006 13:09:00
Delas. E de (suas) Existências
Por Ana Peluso
I
Um dia resolvi sair. Me levantar do imovimento. Todos deviam me ver como um preguiçoso, medroso, um ser paralítico. E não era justo comigo deixá-los pensando assim.
Apesar de ser calado, quieto, na minha, muitas idéias concorriam na minha mente para existirem. E por isso eu era calado, quieto, e, sinceramente? Voraz. Era difícil escolher dentre tantas, apenas uma das idéias e dar-lhe existência. Uma em detrimento da outra... Coisa estúpida.
Se alguém pudesse ver a cara de cada uma, me pedindo a tão aguardada...
Há momento em que consiste chorar, apenas. Mas nenhuma delas se conformava. O que me redimia um pouco era meu corpo metamórfico, naturalmente conhecido por elas como único invólucro concebível, e havia mesmo um tempo de maturação para tudo. Elas sabiam.
Até que um dia eu resolvi sair... Sacudir o tal imovimento. E sem aviso prévio, eu explodi. Com todas elas ao mesmo tempo. Todas me pedindo, aos gritos, existência... Que existissem todas, então, nem pensei, sacudido pela plena maturidade atingida por meu corpo, que assara em brasas por anos, e isso coincidia, queira ou não, com a minha resolução.
Mas algo estranho aconteceu...
Acho que ao sairem todas juntas, as idéias colidiram entre si, e se tornaram, primeiro, em labaredas. Sei lá... Fatores orgânicos, talvez. Até porquê, por debaixo delas, eu percebia, estarrecido, a formação de algo gosmento, quente, denso, que jorrou logo de mim. Era um corpo orgânico que se formava vindo da colisão entre elas todas, eu tinha certeza, agora.
Uma verdadeira reação petroquímica, pós-pensativa.
Pelo que soube depois, destruí duas cidades. E seus arredores. Todos os habitantes morreram. Ou carbonizados, ou asfixiados, ou por ambas as alternativas. Animais também. Plantações inteiras foram arrasadas. Passáros viraram pedras em pleno vôo. Espatifaram-se no chão. Uma densa fuligem-lápis cobriu tudo por um bom tempo. Acho que eles nem sofreram.
Mesmo assim penso que, vai ver, o correto seria ter escolhido apenas uma das idéias...
Mas eu não consegui controlar escolha alguma no momento da explosão. Só lembro que prestava atenção em todas, via-lhes as feições pedintes, sem saber qual delas escolher. Me sentia um deus.
Foi quando tudo aconteceu.
E se mamãe existisse, ela traria, talvez, o modess. Ou eu pediria...
II
Agora, passarei um período novamente quieto. Que pensem o que quiserem. Mas pra provar que existi, deixei aberta a cratera no crânio, de onde sai fumaça, comprovando o fato. Sem contar os restos mortais de tudo que foi atingido pelas minhas idéias-vivas, agora todas mortas. "Aqui jazz um turbilhão de idéias" seria um cínico epitáfio, eu sei. E, ainda por cima, alheio.
III
Penso, às vezes, depois da terapia, no quão estranho é aquilo que pede a vida, ou o que a vida pede; nem sei... E que a tal existência é rápida demais. E sem muito sentido para quem existe, e para quem existe perto de quem existe, que não seja, inexistir num instante, de repente...
Quanta efemeridade...
Me fecho em silêncio profundo.
Ana Peluso, ilustradora, escritora, poeta, editora do site officina do pensamento (http://www.officinadopensamento.com.br), bloga em parceria no `de rasuras` (http://rasuras.wordpress.com), quase todo (santo ou profano) dia. E-mail: anapeluso@gmail.com |